19 de fevereiro de 2015

NÃO DIZER O NOME DO SENHOR EM VÃO

Para entender os palavrões, portanto, temos de analisar que tipo de pensamento desagrada às pessoas, e por que uma pessoa quereria infligir esses pensamentos a outra. A raiz histórica dos palavrões no inglês e em muitas outras línguas está, por mais estranho que pareça, na religião. Vemos isso no terceiro mandamento, na popularidade de hell (inferno), damn (maldição), God (Deus) e Jesus Christ, e em muitos termos para a própria linguagem dos tabus: profanidade (aquilo que não é sagrado), blasfêmia (literalmente "fala do diabo", mas na prática desrespeito a uma divindade) e swearing [xingar], cursing [praguejar] e oaths [maldições/juramentos], que surgiram originalmente com a invocação de uma divindade ou de um de seus símbolos, como o tabernáculo, o cálice e a hóstia estranhamente presentes na maledicência católica.

A amenização dos tabuísmos religiosos é consequência óbvia da laicização da cultura Ocidental. Como afirmou G.K. Chesterton, "A blasfêmia em si não pode durar mais que a religião; se alguém duvidar, que tente blasfemar Odin". Para entender os vulgarismos religiosos, portanto, temos de nos colocar na pele dos nossos ancestrais linguísticos, para quem Deus e o inferno eram presenças reais.

Imagine, por exemplo, que você tem de fazer uma promessa. Por que o alvo da promessa deveria acreditar em você, sabendo que você sairia ganhando se não a cumprisse? A resposta é que você pode se submeter a uma contingência que lhe importa uma penalidade se você desonrasse a promessa, de preferência uma pena tão certa e severa que fizesse com que você sempre preferisse cumprir a palavra. Dessa maneira, seu parceiro não precisa confiar só na sua palavra; pode confiar no seu interesse próprio. Mas, antes de existir tal aparato legal e comercial para garantir nossos contratos, éramos os responsáveis por nossa própria punição. As crianças ainda selam suas promessas dizendo "I hope to die if tell a lie" [Que eu morra se mentir]. Os adultos faziam a mesma coisa, invocando a ira divina.

É claro que esse tipo de promessa tinha muito mais credibilidade numa época em que as pessoas achavam que Deus ouvia suas súplicas e tinha o poder de concretizá-las. Ao mesmo tempo, toda vez que alguém renega uma promessa e não é punido pelo chefão lá de cima, isso lança dúvidas sobre a existência e o poder dele, ou pelo menos sobre se ele está mesmo prestando atenção. Os representantes terrenos de Deus se apressam então a preservar a crença de que ele ouve, sim, e toma providências em questões importantes, e não gostam nada quando as pessoas enfraquecem a marca invocando Deus como a força que move coisinhas pequenas. Daí a proibição de dizer o nome do Senhor em vão. Até hoje, as testemunhas nos tribunais norte-americanos têm de jurar sobre a bíblia, como se um ato de perjúrio que passasse incólume pelo sistema judicial fosse ser punido por um Deus que a tudo ouve e que se ofende fácil.

A santidade de uma relíquia religiosa é um construto social que só existe se for tratado com temor e reverência por todos dentro da comunidade. Isso exige um controle mental coletivo para que ninguém olhe para uma coisa sagrada como se ela não tivesse importância, nem pense nela ou fale sobre ela à toa. Se as pessoas juram por uma entidade sagrada a torto e a direito, o caráter sagrado fica ameaçado pela inflação semântica, e as autoridades que baseiam seu poder nesse caráter tomarão providências para evitar que isso aconteça.

O fato de ser literalmente inconcebível trair alguém íntimo ou um aliado é a base da psicologia dos tabus em geral, e é essa visão de mundo que sustenta o juramento sobre coisas sagradas, seja uma punição religiosa ou a vida de um filho.


Steven Pinker (Do que é Feito o Pensamento, págs: 387, 388 e 389)

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