4 de maio de 2019

O ESCRIBA

Há seis mil anos, havia uma classe profissional de pessoas que tinha um relacionamento com a informação melhor do que o de todos os outros indivíduos. O escriba profissional, armado da habilidade de ler e escrever, tinha melhor capacidade de entender o mundo do que qualquer outra pessoa. Escribas se tornaram mais que meros estenógrafos para as cortes do poder; eles exploraram as ciências e tornaram-se matemáticos, cientistas, arquitetos e físicos. Por milênios, o escriba não representava apenas uma classe profissional, mas também a espinha dorsal da civilização. Hoje, programadores são os novos escribas. Sejam os desenvolvedores no Google, determinando quais resultados de busca são corretos para determinada consulta; os desenvolvedores na Microsoft, criando o navegador que a maioria de nós utiliza; os desenvolvedores na Apple, criando os mais novos telefones para que possamos ter todo o material da imprensa em nosso bolso; ou os desenvolvedores do Facebook, descobrindo quais de nossos amigos são mais relevantes para nós - essas são as pessoas que criam as lentes através das quais o restante de nós enxerga nossa informação.

Clay A. Johnson (A Dieta Da Informação; págs: 179 e 180)

ESPORTE, RELIGIÃO E POLÍTICA

Na maioria dos jantares, a regra é que há três assuntos que não podem ser discutidos: esportes, religião e política. Consigo entender os dois primeiros - nenhum evento esportivo tem utilidade sem uma intensa rivalidade, construída intencionalmente para cruzar as barreiras da lógica e do comportamento racional e se transformar em algo mais parecido com uma lealdade tribal. E a religião é uma crença profundamente pessoal, geralmente inflexível. Provavelmente será bem difícil conseguir que um muçulmano e um cristão concordem a respeito da importância de Jesus Cristo ou de Maomé.

Política é diferente. As maiores ideias políticas tiveram origem na busca constante por síntese e pragmatismo, e a base da democracia é a participação pública constante. Trata-se de um assunto sobre o qual devemos conversar na mesa de jantar; é vital para nossa saúde cívica que o façamos. A democracia não pode sobreviver sem a síntese das ideias de seus cidadãos.

Clay A. Johnson (A Dieta Da Informação; pág: 175)

1 de maio de 2019

LACUNA DE PARTICIPAÇÃO

É impossível que uma única pessoa represente adequadamente 717 mil pessoas - por isso, os candidatos têm de arrecadar e gastar milhões de dólares em publicidade na televisão, em vez de se preocuparem em conhecer melhor seus constituintes. Por isso, membros do Congresso precisam confiar em lobistas para obter ideias do que deve ser feito e a mídia sensacionaliza a política. Atualmente, políticos devem ter opiniões fortes sobre questões polarizantes para chamar a atenção dos grandes mercados de mídia que eles estão representando. Assim, é mais fácil para as pessoas tratarem republicanos e democratas como se fossem o Red Sox e o Yankees.

A "esportificação" da política federal faz que tratemos eleições como rivalidades esportivas, difamando a outra equipe à custa de fazer o que é certo para o país. Se essa fosse a motivação de seus constituintes, você os ouviria? Quando o Congresso deixa de dar ouvidos à sociedade, as pessoas ficam mais furiosas e criam megafones cada vez maiores para gritar com seus representantes. O Congresso, incapaz de decifrar o que as pessoas estão dizendo pelo simples volume das opiniões, simplesmente passa a ouvir menos. É um loop destrutivo que provoca um enorme abismo entre as pessoas e as funções do governo concebidas para ouvi-las; uma lacuna de participação.

A lacuna de participação é aquela entre as pessoas e a mecânica do poder de seus orgãos governamentais. Suas causas são nosso desejo de nos concentrar em questões emocionalmente mais significativas e amplas, em detrimento de problemas práticos que podem ser resolvidos, e a desconexão entre aquilo que as pessoas desejam de seu governo e o que ele realmente pode fazer. Em razão da lacuna de participação, cidadãos acabam frustrados e descarregam esse sentimento nas cabines de votação, votando em "colocar os vagabundos para fora" e "eleger sangue novo em Washington". À medida que novos membros do Congresso são eleitos, eles devem confiar na classe profissional de Washington - seus funcionários, lobistas e consultores - para entender a mecânica de nosso governo. O ciclo então se repete, nossa satisfação com o Congresso despenca a níveis cada vez mais baixos e tomamos novamente as mesmas decisões, esperando um resultado diferente: a definição de Benjamin Franklin para insanidade.

O que nunca fazemos é tentar descobrir como diminuir essa lacuna de participação e conectar as pessoas aos agentes do poder em Washington. Em vez disso, somos distraídos por questões de momento: a raiva de não conseguirmos responsabilizar Washington pelo que realmente importa se transforma em debates acerca do teto da dívida, saúde pública, aborto, controle de armas e direitos dos homossexuais. Mas nunca chegamos a uma discussão que avalie como tornar nosso governo melhor em representar os interesses daqueles que o elegem ou como solucionar o grande problema da desconexão. Não importa de que lado do debate você esteja, dá mais audiência assistir a especialistas debatendo questões polarizadas do que tentar descobrir como melhorar o funcionamento do governo.

Como alguém que trabalhou dentro da máquina de Washington por uma década, aprendi que os profissionais dos meios de comunicação que trabalham para as redes de notícias ao redor do Governo Federal dos Estados Unidos têm pouco interesse em fornecer-lhe o serviço público da informação. Eles estão interessados em vender publicidade.

Clay A. Johnson (A Dieta Da Informação; págs: 160, 161, 162 e 175)

30 de abril de 2019

A CONFIRMAÇÃO DE SI ACIMA DE TUDO E TODOS


Pense na heurística como uma regra prática: um atalho mental, aquilo que você obtém quando queima a mão em uma panela quente e aprende que não deve mais tocar em panelas quentes. Você não precisa mais se incomodar em testar essa hipótese; você conhece seu resultado. Heurísticas existem psicologicamente para você não ter mais de pensar sobre elas e possa gastar a energia de seu cérebro pensando em outra coisa. No entanto, Heurísticas têm um lado obscuro: fazem com que tenhamos tendências inconscientes em favor daquilo que nos é familiar e de escolher fazer as mesmas coisas que sempre fizemos, em vez de fazer algo novo que pode ser mais eficiente.

Elas nos fazem efetuar saltos lógicos que conduzem a falsas conclusões. Por exemplo, esses atalhos mentais escoram nossa capacidade para o racismo, o sexismo, e outras formas de discriminação. Uma heurística prejudicial desse tipo é a tendência de confirmação. É a hipótese psicológica de que tão logo começamos a acreditar em algo, passamos inconscientemente a buscar informações que reforçam essa crença, mesmo na ausência de fatos. Aliás, nossa predisposição pode se tornar tão forte que fatos contrários acabarão fortalecendo nossas crenças equivocadas. Os cientistas cognitivos Hugo Mercier e Dan Sperber viraram nossa capacidade de raciocínio de cabeça para baixo. Em seu artigo "Why do humans reason?" (Por que humanos raciocinam?), eles argumentam que "nossa capacidade de raciocínio faz exatamente o que pode ser esperado de um dispositivo argumentativo: ela procura argumentos que sustentam determinada conclusão e, ceteris paribus, favorece conclusões para as quais argumentos possam ser encontrados. Mercier e Sperber argumentam que nossa mente talvez tenha evoluído de modo a preferir a persuasão em vez da verdade. Isso é certamente plausível - seres humanos são animais sociais, e a persuasão é uma forma de poder social.

Em 2005, Drew Westen, professor da Universidade de Emory, e seus colegas recrutaram para um sofisticado teste 15 pessoas que se autodefiniam como firmes defensores do Partido Democrata e outras 15, defensores do Partido Republicano. Eles utilizaram uma máquina de imageamento de ressonância magnética funcional (functional Magnetic Resonance Imaging, ou fMRI) para estudar como eleitores partidários reagiam a comentários negativos sobre seus partidos ou candidatos. Westen e seus colegas descobriram que quando esses sujeitos processavam "informações emocionalmente ameaçadoras" acerca de seus candidatos preferidos, as partes do cérebro associadas ao raciocínio se desligavam e as partes responsáveis pelas emoções se acendiam. A pesquisa de Westen indica que quando nos tornamos suficientemente predispostos, perdemos a capacidade de mudar de opinião.

Já sabemos que comportamentos como a tendência de confirmação nos fazem buscar informações com que concordamos. Mas também é verdade que, assim que nos entrincheiramos em uma crença, os fatos não mudarão nossa opinião.

Não confiamos "nas notícias", mas confiamos em "nossas notícias"; em outras palavras, nas notícias em que queremos acreditar. Essa é uma arma muito mais potente do que nossa visão clássica da ignorância. Nosso novo tipo de ignorância: uma que vem do consumo da informação, não de sua falta. Quanto mais informada uma pessoa, mais firmes se tornam suas crenças; se elas estão ou não corretas, essa é uma questão totalmente diferente.

Clay A. Johnson (A Dieta Da Informação; págs: 66, 67, 68, 78, 81 e 82)