29 de março de 2016

DREAM THEATER


01 - Ytse Jam - [When Dream And Day Unite: 1989]
02 - Afterlife - [When Dream And Day Unite: 1989]
03 - Only A Matter Of Time - [When Dream And Day Unite: 1989]
04 - Pull Me Under - [Images And Words: 1992]
05 - Another Day - [Images And Words: 1992]
06 - Take The Time - [Images And Words: 1992]
07 - Surrounded - [Images And Words: 1992]
08 - Metropolis - Part I (The Miracle And The Sleeper) - [Images And Words: 1992]
09 - Under A Glass Moon - [Images And Words: 1992]
10 - 6:00 - [Awake: 1994]
11 - Caught in a Web - [Awake: 1994]
12 - Innocence Faded - [Awake: 1994]
13 - A Mind Beside Itself- I. Erotomania - [Awake: 1994]
14 - Lie - [Awake: 1994]
15 - Perfect Strangers - [A Change Of Seasons: 1995]
16 - New Millennium - [Falling Into Infinity: 1997]
17 - Hollow Years - [Falling Into Infinity: 1997]
18 - Lines In The Sand - [Falling Into Infinity: 1997]
19 - Just Let Me Breathe - [Falling Into Infinity: 1997]
20 - Trial Of Tears (i. It's Raining, ii. Deep In Heaven, iii. The Wasteland) - [Falling Into Infinity: 1997]
21 - Regression - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
22 - Overture 1928 - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
23 - Strange Deja Vu - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
24 - Through My Words - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
25 - Fatal Tragedy - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
26 - Beyond This Life - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
27 - Through Her Eyes - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
28 - Home - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
29 - The Dance of Eternity - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
30 - One Last Time - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
31 - The Spirit Carries On - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
32 - Finally Free - [Metropolis Pt 2: Scenes From A Memory: 1999]
33 - The Glass Prison (I. Reflection, II. Restoration, III. Revelation) - [Six Degrees Of Inner Turbulence: 2002]
34 - Blind Faith - [Six Degrees Of Inner Turbulence: 2002]
35 - III. War Inside My Head - [Six Degrees Of Inner Turbulence: 2002]
36 - IV. The Test That Stumped Them All - [Six Degrees Of Inner Turbulence: 2002]
37 - VI. Solitary Shell - [Six Degrees Of Inner Turbulence: 2002]
38 - As I Am - [Train Of Thought: 2003]
39 - This Dying Soul - [Train Of Thought: 2003]
40 - Endless Sacrifice - [Train Of Thought: 2003]
41 - Honor Thy Father - [Train Of Thought: 2003]
42 - In The Name Of God - [Train Of Thought: 2003]
43 - The Root Of All Evil - [Octavarium: 2005]
44 - The Answer Lies Within - [Octavarium: 2005]
45 - These Walls - [Octavarium: 2005]
46 - I Walk Beside You - [Octavarium: 2005]
47 - Panic Attack - [Octavarium: 2005]
48 - Never Enough - [Octavarium: 2005]
49 - Sacrificed Sons - [Octavarium: 2005]
50 - Octavarium - [Octavarium: 2005]
51 - The Dark Eternal Night - [Systematic Chaos: 2007]
52 - Prophets Of War - [Systematic Chaos: 2007]
53 - The Ministry Of Lost Souls - [Systematic Chaos: 2007]
54 - A Nightmare To Remember - [Black Clouds And Silver Linings: 2009]
55 - Wither - [Black Clouds And Silver Linings: 2009]
56 - The Shattered Fortress - [Black Clouds And Silver Linings: 2009]
57 - The Best Of Times - [Black Clouds And Silver Linings: 2009]
58 - The Count Of Tuscany - [Black Clouds And Silver Linings: 2009]
59 - Stargazer - [Black Clouds And Silver Linings: 2009]
60 - Tenement Funster - Flick Of The Wrist - Lily Of The Valey - [Black Clouds And Silver Linings: 2009]
61 - Take Your Fingers From My Hair - [Black Clouds And Silver Linings: 2009]
62 - Build Me Up, Break Me Down - [A Dramatic Turn Of Events: 2011]
63 - Lost Not Forgotten - [A Dramatic Turn Of Events: 2011]
64 - This Is The Life - [A Dramatic Turn Of Events: 2011]
65 - Bridges In The Sky - [A Dramatic Turn Of Events: 2011]
66 - Breaking All Illusions - [A Dramatic Turn Of Events: 2011]
67 - False Awakening Suite - [Dream Theater: 2013]
68 - The Enemy Inside - [Dream Theater: 2013]
69 - The Looking Glass - [Dream Theater: 2013]
70 - Enigma Machine - [Dream Theater: 2013]
71 - Surrender To Reason - [Dream Theater: 2013]
72 - Along For The Ride - [Dream Theater: 2013]
73 - Descent Of The Nomacs - [The Astonishing (CD I): 2016]
74 - Dystopian Overture - [The Astonishing (CD I): 2016]
75 - The Gift Of Music - [The Astonishing (CD I): 2016]
76 - Lord Nafaryus - [The Astonishing (CD I): 2016]
77 - When Your Time Has Come - [The Astonishing (CD I): 2016]
78 - Three Days - [The Astonishing (CD I): 2016]
79 - A Life Left Behind - [The Astonishing (CD I): 2016]
80 - A Tempting Offer - [The Astonishing (CD I): 2016]
81 - A New Beginning - [The Astonishing (CD I): 2016]
82 - 2285 Entr'acte - [The Astonishing (CD II): 2016]
83 - The Path That Divides - [The Astonishing (CD II): 2016]
84 - The Walking Shadow - [The Astonishing (CD II): 2016]
85 - My Last Farewell - [The Astonishing (CD II): 2016]
86 - Our New World - [The Astonishing (CD II): 2016]
87 - Astonishing - [The Astonishing (CD II): 2016]

00 - Crucify - [James LaBrieElements Of Persuasion: 2005]

28 de março de 2016

A EDUCAÇÃO

O conhecimento só se inicia quando o familiar deixa de ser familiar; quando nos espantamos diante dele; quando ele se transforma num enigma. As coisas não são assombrosas para todos. Só para aqueles que aprenderam a ver. A visão tem que ser aprendida. Os olhos precisam ser educados. (Quem disser que o ensino se mede pelo número de horas-aula é um idiota). O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem ordenar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender à exigência da comunidade científica internacional de publish or perish. Eu acho que o objetivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar. Porque é com o pensamento que se faz um povo.

Os vestibulares, todos eles, se concentram no conhecimento das eventuais ferramentas do pensamento, e de tal maneira enchem o tempo e a cabeça dos adolescentes e jovens com tal conhecimento - pois é o único conhecimento que pode ser medido de forma quantitativa - que não sobra tempo para a educação da sensibilidade. Se os jovens não gostam de ler, se não desenvolvem a sua sensibilidade para as artes, se não ficam fascinados com a variedade da cultura humana, se não insensíveis à beleza da natureza, a culpa não é deles. Desde cedo os vestibulares lhes ensinaram que a única coisa importante são as ferramentas.


Rubem Alves (Por Uma Educação Romântica; págs: 78, 106, 107, 184 e 193)

CIÊNCIA & AMOR


O par de amantes está abraçado, corpos e almas incendiados pelo desejo. A mão do amante desliza vagarosa pela pele lisa do corpo da amada. Mas ele, professor de anatomia, em virtude dos seus saberes científicos e dos seus hábitos de professor, em vez de ir recitando docemente textos apaixonados dos Cânticos dos cânticos ou dos poemas eróticos do Drummond, não pode resistir à compulsão de ir enunciando os nomes científicos dos músculos do corpo da amada por onde sua mão desliza... Assim termina uma noite que poderia ter sido uma noite de amor. A ciência triunfa - ele não errou nem um nome - mas o amor fracassa.


Roland Barthes

A BURRICE E A OUSADIA

A burrice é muito útil, do ponto de vista político e social. Aldous Huxley afirma que a estabilidade social do Admirável Mundo Novo se devia aos mecanismos psicopedagógicos cujo objetivo era emburrecer as pessoas. A educação se presta aos mais variados fins. Pessoas inteligentes, que vivem pensando e tendo idéias diferentes, são perigosas. Ao contrário, a ordem político-social é mais bem servida por pessoas que pensam os mesmos pensamentos, isto é, pessoas emburrecidas. Porque ser burro é precisamente isso, pensar os mesmos pensamentos, ainda que sejam pensamentos grandiosos. Prova disso são as sociedades das abelhas e das formigas, notáveis por sua estabilidade e capacidade de sobrevivência.


Rubem Alves (Por Uma Educação Romântica; pág: 88)

Por que eu sou tão tolo que, se os outros são tolos, se eu sei ao certo que são tolos, por que eu mesmo não quero ser mais inteligente? Se a gente for esperar que todos fiquem inteligentes, isso irá demorar demais... Depois fiquei sabendo ainda que isso nunca vai acontecer, que as pessoas não vão mudar, que não há ninguém que possa refazê-las e não vale a pena perder tempo. Quem é vigoroso e forte de inteligência e espírito é o senhor delas! Quem muito ousa é que tem razão entre elas. Quem pode se lixar para mais coisas é o legislador delas, e quem pode ousar mais que todos tem mais razão do que todos! Assim tem sido até hoje e assim será sempre! Só um cego não vê.

Eu adivinhei que o poder só se deixa agarrar por aquele que ousa inclinar-se e tomá-lo. Aqui só há uma coisa, uma só: basta apenas ousar! Como é que ninguém até então, ao passar ao lado de todo esse absurdo, havia ousado e não ousava pura e simplesmente agarrar tudo pelo rabo e arremessar para o diabo!


Fiódor Dostoiévski (Crime e Castigo; págs: 426 e 427)

PENA DE MOÇA

A despeito de toda aversão natural de Avdótia Románovna a mim e apesar do meu aspecto então sempre sorumbático e repelente, ela acabou ficando com pena de mim, com pena de um homem perdido. E quando o coração de uma moça sente pena, isto, sem dúvida, é o maior perigo para ela. Aí vem forçosamente a vontade de "salvar", e fazer criar juízo, e ressuscitar, e conclamar a objetivos mais nobres, e fazer renascer para uma nova vida e uma nova atividade.


Fiódor Dostoiévski (Crime e Castigo; pág: 483)

PERVERSÃO

"Ela tem três saídas - pensava ele -: atirar-se no canal, ir para um manicômio ou... ou... finalmente entregar-se à perversão, que entorpece e razão e petrifica o coração." A última ideia era a mais abominável para ele; mas ele já era cético, era jovem, dado a abstrações e, portanto, cruel, e por isso não podia deixar de crer que a última saída, ou seja, a perversão, fosse a mais provável.


Fiódor Dostoiévski (Crime e Castigo; pág: 334)

24 de março de 2016

A ORIGEM DAS RELIGIÕES


Estamos tão acostumados com uma visão sobrenaturalista da religião, que a tendência espontânea leva a considerá-la como algo literalmente "caído do céu". Tendência favorecida pela propensão do religioso a se constituir em um mundo à parte, distinto da vida cotidiana e sempre tentado a perder todo contato com ela. Não obstante, por pouco que se observe, se notará que as religiões não caem do céu, mas nascem da terra. Em sua realidade histórica são produtos estritamente culturais: como a poesia, a filosofia e a ciência. Tudo o que é autenticamente religioso é sempre uma resposta a perguntas muito concretas. Resposta específica, caracterizada por sua relação a Deus; mas resposta verdadeiramente humana, obtida no esforço de homens e mulheres por encontrar sentido para perguntas que afetam real e profundamente suas vidas e que, por isso, preocupam ou podem preocupar a todos. Para comprová-lo, basta tomar nas mãos a bíblia ou qualquer outro texto religioso: aparecem como livros com todas as marcas da nossa mais normal humanidade. Um texto religioso é uma interpretação humana da realidade: da realidade comum, a única que existe e na qual todos e todas vivemos.

O que a caracteriza não é uma origem milagrosa, estranha ou fora dos procedimentos "naturais", mas a convicção de que a dimensão empírica e imediatamente mundana não esgota o todo da realidade. Não crê possível uma compreensão adequada da mesma, se não for incluindo outra realidade distinta, a Divina, que a sustenta e transcende e à qual ela está apontando por determinadas características, como podem ser a contingência do universo ou o protesto humano contra a morte, a injustiça ou o sem-sentido. Deus se converte assim na chave para obter uma compreensão "última" da realidade. Entretanto, entendamos bem: atendendo à estrutura interna e à gênesis íntima dessa convicção, não se vê assim a realidade porque se crê em Deus; mas o contrário: porque se vê assim a realidade, nasce a fé em Deus. Assim nascem e se desenvolvem as tradições religiosas, que, em geral, se cristalizam em livros sagrados: em escrituras que se consideram "reveladas" ou "inspiradas".


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 228 e 229)

A REVELAÇÃO

A revelação não é um "ditado" literal, caído do céu como um aerólito já perfeitamente acabado, senão que se realiza em e através do lento, duro e sinuoso trabalho da subjetividade humana. Não é algo que "vem de fora", mas algo que "sai de dentro": consiste justamente em aperceber-se da Presença que nos constitui, nos habita e, desde sempre, procura se manifestar a nós.


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; pág: 129)

SAGRADO/PROFANO


"E Deus viu que tudo era bom". Mais ainda, anula, se não a distinção, com certeza o dualismo entre o sagrado e o profano, porque Deus cria a criatura por si mesma, em sua integridade sem divisões. Como eu já dissera em outra ocasião, "Deus não criou homens e mulheres 'religiosos', senão pura e simplesmente homens e mulheres 'humanos'"; de sorte que ser verdadeiramente humanos é a maneira de ser religiosos, e vice-versa. Resta afirmar que tudo é sagrado (porque sai das mãos de Deus) e nada é sagrado (porque está entregue a si mesmo). Ou, pela mesma razão, que tudo é profano e nada é profano.


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 124 e 125)

PROFECIA EXTERNA

A religião tem de aprender a dura lição de que campos enormes, que durante tempo pareciam jazer sob sua competência, passaram definitivamente para outras mãos. Esse é o significado profundo da "secularização", que lhe acabou sendo dolorosa no âmbito material das possessões eclesiásticas, mas que não o é menos no âmbito da cultura, onde a partir do Iluminismo deveu reconhecer a autonomia das ciências físicas e históricas, bem como da economia, da sociologia e da política. De fato, ainda hoje está aprendendo, não sem graves conflitos, a autonomia da ética e da moral. Além do mais, a história recente mostra que, cada vez que a religião transgride seus limites, acaba irremediavelmente prejudicada.

Retraduzir-se não é "vender-se" à moda nem "abdicar" do próprio ser; muito pelo contrário: significa exercer o primeiro direito e o fundamental dever de toda vida, que é conservar-se mediante a transformação no tempo e (no caso da humana) mediante a criação de nova história. O outro - agarrar-se às formas do passado - parece continuidade, mas significa mumificação; parece assegurar a vida, mas equivale a vender-se à morte. Já no-lo tinham avisado desde o começo: "Porque quem quiser salvar sua vida, a perderá; mas quem perder sua vida por mim, a encontrará" (Mt 16,25).

A Igreja não renuncia assim à sua própria identidade. Ela reconhece, em vez disso, que não lhe compete o monopólio de tudo, mas sim, de maneira mais simples e modesta, sua contribuição específica. Ela permanece sendo "mestra em humanidade" (Paulo VI), mas apenas em seu campo próprio, à medida que reconhece serem os demais também mestres no campo deles. Em nosso mundo irreversivelmente plural, se a Igreja quer, de verdade, evangelizar, precisa, por sua vez, deixar-se "evangelizar" por aqueles valores, que, ínsitos na criação, são hoje descobertos por outros meios. Ela é, pois, mestra enquanto também discípula. A isso aludem a categoria teológica da "profecia externa" e a convocação conciliar para que se escrutem os "sinais dos tempos".

Talvez sejam inevitáveis as tensões e mesmo os conflitos, mas a única teologia que, de verdade, pode servir hoje é a que, como dizia Karl Adam, se move por uma "obediência lutadora e protestante": ela não pode fazer tudo, mas, sem sua participação livre e responsável, é impossível manter a significatividade da fé no seio da enorme mudança cultural gerada pela modernidade.


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 58, 59, 181, 182, 217 e 246)

23 de março de 2016

A DESATUALIZAÇÃO CRISTÃ COMO SEMEADORA DO ATEÍSMO

Não era possível continuar com a concepção a-histórica do dogma nem, sobretudo, com a leitura literalista da Bíblia. E muito menos com o autoritarismo do "porque assim está escrito" ou "assim está definido" ou a simples remissão ao "a igreja tem doutores" podem satisfazer as necessidades da nova situação cultural. A crise do cristianismo no mundo moderno se deve fundamentalmente ao desajuste produzido por essa derrocada, e o mesmo Vaticano II reconhece que os cristãos temos uma "parte não pequena" de culpa em nada menos que o nascimento do ateísmo, precisamente por não se ter adequado a forma da fé à nova situação. É precisamente esta a tese de Peter L. Berger, o qual considera a secularização como um "efeito irônico" do cristianismo, pois este, em sua dinâmica profunda, propiciaria os fatores que levaram à dissolução de muitas de suas formas eclesiásticas.

A nova autonomia do mundo constitui, em seu nível, um dado irresistível: nem a alma mais piedosa e pacata pode hoje aceitar que os astros são movidos por anjos ou que as enfermidades sejam caudadas por demônios [já não há pobres e ricos porque Deus assim o dispôs, mas porque nós distribuímos desigualmente as riquezas de todos; e o governante não mais o é "pela graça de Deus" (de sorte que só a Ele tem de prestar contas), e sim pela livre decisão dos cidadãos20]. Isso mina pela raiz toda concepção intervencionista da atividade divina. Oriundos de tal concepção, velhos hábitos herdados de quando Deus "chovia e trovoava", ordenava o dilúvio ou mandava pestes, podem ainda levar, em certas ocasiões ou ambientes, a que se façam preces e danças por chuva ou à intenção de aplacar com procissões e penitências a ira divina. [Falamos de Deus como um ser que interfere na causalidade empírica, cura uma enfermidade ou faz alguém ser aprovado em um exame, por melhor que seja nossa intenção subjetiva, nós o estamos reduzindo à categoria de ser mundano. Toda a linguagem acerca dos milagres e, como veremos, grande parte de nossas orações precisa, neste ponto, de uma revisão drástica76]. Porém, quem talvez os sustente em nome de uma "prudência pastoral" mal entendida não percebe que tentar justificá-los em princípio, e unir a essas atitudes a verdade da fé, significa - na cultura atual - estar semeando ateísmo.

"Não se pode usar a luz elétrica e o aparelho de rádio ou empregar na enfermidade os modernos meios clínicos e medicinais e, ao mesmo tempo, crer no mundo de espíritos e milagres do Novo Testamento". (Bultmann)


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 18, 20, 26, 27, 46, 76 e 206)

DEUS É DO MUNDO

Não é verdade que "Deus esteja no céu e tu na terra". Ao contrário, Deus está sempre aqui entre nós: no homem e na mulher, na terra e na história. Deus não tem de vir ao mundo, porque já está desde sempre em sua raiz mais profunda e originária; não tem de intervir, pois é sua própria ação que está sustentando e pro-movendo tudo; não acode e intervém quando é chamado, porque é Ele quem, desde sempre, está convocando e solicitando nossa colaboração. Deus age criando e sustentando, "fazendo com que façamos" ou, melhor, possibilitando e animando para que façamos. Ele não nos tira a responsabilidade. Quem trabalha sempre é Deus, quem pode ficar na passividade ou resistir somos nós. Positivamente, parte do respeito à iniciativa absoluta do Deus criador, assim como do reconhecimento de seu amor incondicional e de sua bondade sem medida nem discriminação de nenhum tipo. A um Deus pai-mãe, que desde sempre outra coisa não busca senão nossa plenitude e salvação, é óbvio que não tem sentido procurar informar, convencer ou despertar a compaixão; ao contrário, todo o nosso esforço há de se concentrar em deixar-nos iluminar, guiar e convencer por Ele. Não seria objetivamente ofensivo querer recordar a Deus que na África alguns de seus filhos estão passando fome e suplicar-lhe, então, que tenha piedade deles? Sim, porque a situação é exatamente a contrária: é Deus quem, antes de ninguém e com maior compaixão do que ninguém, "escuta os gemidos" dos que sofrem (Ex 2,24); é Ele quem suscita em nós a consciência e o desejo de ajudá-los (cf. Ex 3,7-11); é Ele quem - isto, sim - diz a cada um de nós: "Escuta e tem piedade" de teus irmãos, que são meus filhos, e cujos gritos são meus gritos. Afinal, "informar" Deus iria contra sua onisciência; mas procurar "despertar sua compaixão" nega a primazia de sua salvação e lesiona o próprio coração de sua bondade.

Na vivência comum e concreta, no modo de pregar, rezar ou celebrar a liturgia, e mesmo no modo de fazer teologia, tudo procede como se nós, os humanos, fôssemos os ativos e os preocupados, os que têm de conquistar a salvação. Conquistá-la diante de um Deus "no céu", que teoricamente nos ama, mas que na efetividade vivencial permanece, ao contrário, passivo até que consigamos movê-lo com nossas súplicas, conquistá-lo com nossas obras e sacrifícios, obter seu perdão com nossas penitências e até mesmo acalmá-lo com a ajuda de nossos intercessores. Por isso, ele também manda e proíbe, premia e castiga, reserva para si um espaço de nossa vida - o "sagrado" - e nos deixa o resto - o "profano".


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 16, 17, 30, 35, 93, 94 e 95)

JEJUM E DISCIPLINA

O jejum pode nos ajudar a discernir os alimentos materiais e imateriais que exercem controle sobre nossos apetites. Se não temos controle sobre o que comemos, provavelmente não teremos controle também sobre outras áreas da vida. O jejum, tudo indica, exerce esse papel espiritual de diagnosticar o campo dos desejos, dos sentimentos. Assim, o jejum pode ser também um eficiente instrumento para o discípulo aprender a controlar seus apetites. Quem controla a quantidade, a frequência da alimentação e o tipo de comida, tem mais probabilidade de controlar outras áreas da vida. O jejum é, portanto, uma disciplina primária, um passo inicial afim de que o discípulo adquira habilidade suficiente para gerenciar outros desejos, desde os mais lascivos a até mesmo os mais nobres.

Quando Jesus adverte seus discípulos a praticarem a oração e o jejum, a fim de não caírem em tentação, não está indicando um passo de mágica para se vencer a tentação. Está, sim, indicando o jejum como um exercício que condiciona o discípulo a ter domínio sobre as tentações, palavras, reações inconsequentes ou desejos prejudiciais à vida. Pensando nessa direção, reservar momentos de jejum significa abster-se não somente de comida, mas também de palavras, desejos, condicionamentos de todo tipo de ativismo. É acolhimento ao deserto, ao silêncio da alma, ao despojamento máximo. O jejum é um caminho de prato vazio, é a caminhada sem alforjes e sandálias, uma quebra de rotina. Neste sentido, jejuar é disciplinar cotidianamente a vida a manter-se num estado de total dependência de Deus; por isso os pobres de espírito vivem disciplinadamente em permanente jejum de tudo.


Carlos Queiroz (Ser é o Bastante; pág: 160)

Viver tudo "a partir de Deus". Tal atitude significa dar literalmente a volta em todos os nossos hábitos mentais e vivenciais, os quais, de modo quase irremissível, situam em nós a iniciativa, enquanto colocam Deus "lá em cima", de onde - talvez à força de invocações e sacrifícios - pode nos dar uma mão de vez em quando. É se aperceber, no final das contas, de que Deus é sempre o primeiro e que o nosso papel é secundá-lo, deixando-nos ser e salvar por Ele, pois o máximo e o melhor a que podemos aspirar, o que conseguimos nos melhores momentos, é colaborar com Ele.


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; pág: 139)

A ORAÇÃO E OS LIMPOS DE CORAÇÃO

A oração é feita a um Deus transcendente, todo-poderoso, imutável, infinito, inominável, que conhece e, por isso, não se impressiona com aqueles que oram repetindo palavras, nem com aqueles que dão esmolas para serem visto pelos homens. Não se deixa comprar pela confissão labial: "Senhor, senhor...", não se curva diante das reivindicações daqueles que, mesmo tendo profetizado, expelido demônios ou feito milagres, nunca aprenderam a orar como estilo de vida em amizade e comunhão com o Pai. A estes o nosso Pai do céu dirá: "Nunca vos conheci... Não tivemos um único momento de comunhão e relacionamento paterno-filial". O pai que está no céu não é manipulável, é totalmente Outro, independente, indescritível, suficiente em si mesmo, inconfundível com qualquer ídolo. Ele já é santo, mas é necessário que a santidade dele se manifeste em nós. O discípulo ora para que venha o reino desse Pai e que tenha pleno domínio antecipado sobre a terra, assim como já o é no mundo celestial.

Os limpos de coração não tocam trombeta quando dão suas esmolas, não oram em pé nas praças para serem vistos pelos homens, não jejuam e depois se apresentam com o rosto desfigurado para impressionar as pessoas. Os limpos de coração estão revestidos de boas motivações, sinceridade, agem de maneira transparente em todas as áreas da vida. Sinceridade e integridade são as características mais evidentes dos limpos de coração.


Carlos Queiroz (Ser é o Bastante; págs: 96, 97, 155 e 156)

SAL DA TERRA


Da mesma maneira como o sal age temperando a comida e ninguém vê o sal, assim também é a atuação do discípulo, age de maneira discreta sem precisar aparecer. Somos levados a concluir que a vida do discípulo só faz sentido se, primeiramente, estiver presente na sociedade: "vós sois o sal da terra". Além disso, se faz necessário que essa presença seja relevante: - "Ora, se o sal vier a ser insípido...". Da mesma forma como o sal, que para nada mais presta se perder as suas propriedades, o discípulo perde a relevância do testemunho se fizer descaso da sua essência básica de vida, sua natureza, seus valores e princípios. O discípulo é sal da terra quando sua presença agregar valor ao ambiente, quando exercer a vocação de ser gente, quando agir como filho de Deus. Sal que deixa de ser sal é descartável, assim como o discípulo que esquece ou faz descaso da vocação de ser filho de Deus.


Carlos Queiroz (Ser é o Bastante; págs: 112, 113 e 114)

22 de março de 2016

ATÉ QUANDO?



Não adianta olhar pro céu, com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer

Até quando você vai ficar usando rédea?
Rindo da própria tragédia?
Até quando você vai ficar usando rédea? (Pobre, rico, ou classe média)
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
Muda que o medo é um modo de fazer censura.

Refrão:
Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?

Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!)
Até quando vai ser saco de pancada? (2x)

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente, seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante, você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo, você que é inocente foi preso em flagrante! 
É tudo flagrante! É tudo flagrante!

Refrão (2x)

A polícia matou o estudante, falou que era bandido, chamou de traficante
A justiça prendeu o pé-rapado, soltou o deputado... E absolveu os Pms de vigário!

Refrão (2x)

A polícia só existe pra manter você na lei, lei do silêncio, lei do mais fraco: ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco.

A programação existe pra manter você na frente, na frente da TV, que é pra te entreter, que é pra você não ver que o programado é você.

Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar.
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar.
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá.
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar.
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar.
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar.

Escola, esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda!
Não! Não!

Refrão (2x)

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente.
A gente muda o mundo na mudança da mente.
E quando a mente muda a gente anda pra frente.
E quando a gente manda ninguém manda na gente.
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura.
Na mudança de postura a gente fica mais seguro, na mudança do presente a gente molda o futuro!
Até quando você vai levando porrada, até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai ficar de saco de pancada?
Até quando você vai levando?


Gabriel o Pensador (Até Quando?)

ESFERAS DE SIGNIFICAÇÃO SOCIAL


Todo ser humano muda de opinião dependendo das circunstâncias. Estou me referindo a espaços - a esferas de significação social - casa, rua e outro mundo - que fazem mais do que separar contextos e configurar atitudes. É que eles contêm visões de mundo ou éticas particulares. Não se trata de cenários ou de máscaras que um sujeito usa ou desusa de acordo com suas estratégias diante da "realidade", mas de esferas de sentido que constituem a própria qualidade e que permitem normalizar e moralizar o comportamento por meio de perspectivas próprias.


Roberto DaMatta (A Casa e a Rua; pág: 44)

19 de março de 2016

A CASA, A RUA E OUTRO MUNDO

É possível "ler" o Brasil de um ponto de vista da casa, da perspectiva da rua e do ângulo do outro mundo. Leituras pelo ângulo da casa ressaltam a pessoa. São discursos arrematadores de processos ou situações. Sua intensidade emocional é alta. Aqui, a emoção é englobadora, confundindo-se com o espaço social que está de acordo com ela. Nesses contextos, todos podem ter sido adversários ou até mesmo inimigos, mas o discurso indica que também são "irmãos" porque pertencem a uma mesma pátria ou instituição social. Leituras pelo ângulo da rua são discursos muito mais rígidos e instauradores de novos processos sociais. É o idioma do decreto, da letra dura da lei, da emoção disciplinada que, por isso mesmo, permite a exclusão, a cassação, o banimento, a condenação. Já as leituras pelo prisma do outro mundo são falas inteiramente relativizadoras e muito mais inclusivas, onde as misérias do mundo são criticamente apontadas. Seu tirocínio é que há um outro lugar e uma outra lógica, que nos condena a todos a uma igualdade perante forças maiores do que nós. O resultado disso é um sistema de classificação diferenciado. Mas o que temos, realmente, é um sistema que apresenta três modos diferenciados e complementares de "ordenar" e também de reconstruir e construir (ou inventar) a experiência social brasileira.

Assim, sabemos que em casa podemos fazer coisas que são condenadas na rua, como exigir atenção para a nossa presença e opinião, querer um lugar determinado e permanente na hierarquia da família e requerer um espaço a que temos direito inalienável e perpétuo. Em casa somos todos, conforme tenho dito, "supercidadãos". Mas e na rua? Bem, aqui passamos sempre por indivíduos anônimos e desgarrados, somos quase sempre maltratados pelas chamadas "autoridades" e não temos nem paz, nem voz. Somos rigorosamente "subcidadãos" e não será exagerado observar que, por causa disso, nosso comportamento na rua (e nas coisas públicas que ela necessariamente encerra) é igualmente negativo. Jogamos o lixo para fora de nossa calçada, portas e janelas; não obedecemos às regras de trânsito, somos até mesmo capazes de depredar a coisa comum, utilizando aquele célebre e não analisado argumento segundo o qual tudo que fica fora de nossa casa é um "problema do governo"! Na rua a vergonha da desordem não é mais nossa, mas do Estado. Limpamos ritualmente a casa e sujamos a rua sem cerimônia ou pejo... Não somos efetivamente capazes de projetar a casa na rua de modo sistemático e coerente, a não ser quando recriamos no espaço público o mesmo ambiente caseiro e familiar. Não ocorreu entre nós, conforme também sugiro nos ensaios deste livro, uma "revolução" que viesse harmonizar ou tornar hegemônico apenas um destes eixos em relação aos outros.


Roberto DaMatta (A Casa e a Rua; págs: 18 e 19)

O CALIBRE DO PERIGO



Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei d'aonde vem o tiro (2x)

Por que caminhos você vai e volta?
Aonde você nunca vai?
Em que esquinas você nunca para?
A que horas você nunca sai?

Há quanto tempo você sente medo?
Quantos amigos você já perdeu?
Entrincheirado, vivendo em segredo
E ainda diz que não é problema seu

E a vida já não é mais vida
No caos ninguém é cidadão
As promessas foram esquecidas
Não há estado, não há mais nação

Perdido em números de guerra
Rezando por dias de paz
Não vê que a sua vida aqui se encerra
Com uma nota curta nos jornais


Os Paralamas do Sucesso (O Calibre)

CAMARADAGEM POLÍTICA

De Nunes Machado costumava dizer o Marquês de Paraná que era capaz de todas as coragens, menos da coragem de resistir aos amigos. O grande estadista do Segundo Império fez, sem o pensar talvez, a síntese de toda a nossa psicologia política: é a incapacidade moral de cada um de nós para resistir às sugestões da amizade e da gratidão, para sobrepor às contingências do personalismo os grandes interesses sociais, que caracteriza a nossa conduta no poder.


Oliveira Vianna (Pequenos Estudos de Psychologia Social)

18 de março de 2016

PERDER TAMBÉM É GANHAR


Aprender é isso, afinal de contas: não se perdemos a partida, mas como perdemos e como mudamos por causa disso, o proveito que levamos e que não tínhamos antes, a fim de aplicar a outras partidas. Perder, de uma maneira curiosa, é vencer.


Richard Bach (A Ponte Para o Sempre; pág: 170)

O GRANDE MISTÉRIO

"O cristianismo perde sua essência quando fica baseado demais na fé em vez de viver como Jesus ou ver o mundo como Jesus o viu. Acho que as diferentes religiões são portas diferentes para a mesma casa. Às vezes, acho que a casa existe, e às vezes, não. É o grande mistério".

Steve Jobs


Walter Isaacson (Steve Jobs Por Walter Isaacson; pág: 33)

O PAPEL DO INTELECTUAL

Michel Foucault

O intelectual não tem mais que desempenhar o papel daquele que dá conselhos. Cabe àqueles que se batem e se debatem encontrar, eles mesmos, o projeto, as táticas, os alvos de que necessitam. O que o intelectual pode fazer é fornecer os instrumentos de análise, e é este hoje, essencialmente, o papel do historiador. Trata-se, com efeito, de ter do presente uma percepção densa, de longo alcance, que permita localizar onde estão os pontos frágeis, onde estão os pontos fortes, a que estão ligados os poderes - segundo uma organização que já tem cento e cinquenta anos - onde eles se implantaram. Em outros termos, fazer um sumário topográfico e geológico da batalha... Eis aí o papel do intelectual. Mas de maneira alguma, dizer: eis o que vocês devem fazer!


Michel Foucault (Microfísica do Poder; pág: 151)

SOBRE A JUSTIÇA

A minha hipótese é que o tribunal não é a expressão natural da justiça popular mas, pelo contrário, tem por função histórica reduzi-la, dominá-la, sufocá-la, reinscrevendo-a no interior de instituições características do aparelho de Estado. Aqueles que nos governam hoje querem utilizar contra nós, para nos fazer entrar na ordem, a dupla pressão dos inimigos que nos invadem do exterior e dos que nos ameaçam no interior. Será que não vemos reaparecer aqui o embrião, ainda que frágil, de um aparelho de Estado? A possibilidade de uma opressão de classe? Será que o estabelecimento de uma instância neutra entre o povo e os seus inimigos, susceptível de estabelecer a fronteira entre o verdadeiro e o falso, o culpado e o inocente, o justo e o injusto, não é uma maneira de se opor à justiça popular? Uma maneira de desarmá-la em sua luta real em proveito de uma arbitragem ideal? É por isso que eu me pergunto se o tribunal, em vez de ser uma forma da justiça popular, não é a sua primeira deformação.

Uma justiça só é justa se for exercida por alguém exterior à questão, por um intelectual, um especialista da idealidade. Se, ainda por cima, este tribunal popular é presidido ou organizado por intelectuais que vêm escutar o que dizem os operários de um lado e o patronato do outro e afirmar "um é inocente, o outro é culpado", há uma infiltração de idealismo nisto! Ao fazer dele um modelo geral para mostrar o que é a justiça popular, temo que se escolha o pior modelo.


Michel Foucault (Microfísica do Poder; págs: 39, 40 e 63)

REGIME DA VERDADE


Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua "política geral" de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. Em nossas sociedades, a "economia política" da verdade tem cinco características historicamente importantes: a "verdade" é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem; está submetida a uma constante incitação econômica e política (necessidade de verdade tanto para a produção econômica, quanto para o poder político); é objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de educação ou de informação, cuja extensão no corpo social é relativamente grande, não obstante algumas limitações rigorosas); é produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade, exército, escritura, meios de comunicação); enfim, é objeto de debate político e de confronto social (as lutas "ideológicas").

O problema não é mudar a "consciência" das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade. Não se trata de libertar a verdade de todo sistema de poder - o que seria quimérico na medida em que a própria verdade é poder - mas de desvincular o poder da verdade das formas de hegemonia (sociais, econômicas, culturais) no interior das quais ela funciona no momento.


Michel Foucault (Microfísica do Poder; págs: 12, 13 e 14)

17 de março de 2016

ÉS TU, BRASIL BRASILEIRO

Por: Diego Cosmo
Operários (Tarsila do Amaral)

A conduta para com a sociedade é, dentre outras coisas, uma expressão de posicionamento moral além de atuação política. Do óleo que se joga na pia da cozinha da sua casa ao lixo que jogamos na lixeira da rua, ou não, e o tratamento pessoal para com o outro vão além da mera cortesia, ao menos, deveria ir. Os discursos sugerem revelar o que justifica tais condutas, que é o que faz o mundo girar: as ideias por trás e entre discursos e práticas.

BERÇO ESPLÊNDIDO

Parece haver na mentalidade de boa parte da sociedade brasileira uma energia a mais para reivindicar os seus direitos e um esforço a menos para gritar, também, seus deveres e quanto aos direitos dos outros então... O que por si só parece revelar uma genuína arrogância. Ok. Na verdade, brasileiro parece não querer igualdade, quer única e exclusivamente os seus direitos garantidos, o resto é resto. Mas se é verdade que nosso caráter começa a se formar desde muito cedo, podemos perceber que em momentos chaves da nossa interminável formação como indivíduos, nos contentamos em passar na média na escola, a ter um desempenho medíocre e nem arrumamos nossas próprias bagunças, quer dizer, temos assistência dos pais fazendo pouco ou quase nada e por fim caminhamos para um simples egoísmo visto que tal característica conspira a favor duma perda de tato em frente a convivência social, ao não reconhecimento do próximo, fruto de tal desdobramento, afinal, o mundo nos "deve" algo. Num futuro não muito distante, vitimismo ou não, caso até mesmo venham a sofrer algo, o que não é novidade desde que o mundo é mundo, querem que a sociedade os paguem também. Como se sofrimento e frustração nos dessem mais direitos que o restante. A uma ideia subjetiva de que sempre iremos merecer algo a mais pelo caráter contingencial da vida que nos desfavorece mas má sorte vai além de política.. Eu teria cuidado em se aliar a uma administração que pareça representativa por levantar bandeiras carregadas de discursos empáticos, isso não necessariamente forma cidadãos mas dá votos e todos aplaudem tanto que se dão por satisfeito, enquanto discurso e pratica podem ser como óleo e água.

DOS FILHOS DESTE SOLO ÉS MÃE GENTIL

Fora a "gentileza da mãe", já que tal gesto implica quase que em uma constrangedora nobreza de espírito, seria uma comparação injusta a se fazer a respeito do governo brasileiro. E entre tantos filhos há, no mínimo uma certeza, muita confusão. Como ninguém que se pretenda a ser mãe quer perder seus filhos, resta na figura do Estado como toda boa mãe, se virar para manter os cabrestos dos seus pequenos, pequenos porque necessariamente toda mãe deve ser maior que seus filhotes e o Estado se agiganta. Tudo que é muito pesado perde a agilidade, a gravidade não perdoa, a velhice que o diga. Perde-se a eficiência política em nome de projetos de curto prazo, os ciclos de articulações políticas funcionam em torno dos períodos eleitorais, o que expõe o tópico de número um; entrar ou continuar no jogo. No desenrolar dessa lógica há a pressa, é preciso consertar logo, não há interesse e nem inteligência para prevenir, não se pensa realmente no futuro, não se ensina a pescar, ganhar independência do Estado apequena-o e o futuro nesse jogo é a próxima eleição, tudo é pra já, já que o prazo é curto. Afinal, o carnaval nos ensina que o que importa mesmo é a festa, o lixo que fica depois de tudo, há quem limpe. Filhos é o que não faltam.

A sombra da cultura atinge e se revela em vários aspectos dos relacionamentos. O status quo tende a se perpetuar e a reproduzir os valores que o fazem resistir em frente as irremediáveis mudanças. Brasileiro, metido que é, criou o capitalismo tupiniquim, o do "sabe com quem tá falando?", e os contatos passam a ser mais importantes do que qualquer competência profissional, sacrifica-se a eficiência em nome da perpetuação do poder. E poder se dá em ambientes que não valorizam a clareza, respiram melhor em ambientes regidos por sistematizações. Daí, então, a famosa burocracia brasileira, criamos, isso sim com eficiência, um eficiente acelerador de corrupções. Uma terra fértil para frutos podres. Até que mais uma predestinada bolha exploda e sejamos forçados a atualizar o software, racionalizarmos as irracionalidades de um sistema pretenso infinito num mundo finito visando reorganizar com um novo design as mesmas tensões presentes.

POVO HERÓICO

Dada às várias opiniões que antes caladas se expressam e emergem repentina e massivamente, pelas novas formas de comunicação, revela-se uma certa polarização, o que por sua vez fragiliza o todo. A infeliz falta de senso de comunidade tem se revelado também em certos protestos, como alunos de faculdade pública impedindo o acesso de outros alunos da mesma faculdade à biblioteca, depreciação de ônibus e espaços públicos ou obstrução das vias urbanas automotivas. Quer dizer, até onde a ganância de impor nossas crenças prejudicará a construção da sociedade?

Como todo exagero tende a desembocar num fanatismo, difícil esperar algo puramente positivo até mesmo de movimentos no qual preconceito, intolerância e repressão são os alvos a serem combatidos. O problema é quando qualquer coisa é racionalizada para se configurar como preconceito, machismo ou homofobia. É nesse ponto que as fronteiras dos direitos são esquecidas. Quem reivindica tende a usar mais os pulmões e não escutar o diferente, como se ser diferente não tornasse necessariamente o outro também um diferente, logo, apenas ambas as partes iguais em suas disparidades.

A conotação da expressão é para onde os olhos da sensibilidade deveriam voltar-se, ela é a grande questão, visto que o significado é relativo. Afinal, pegar um fato isolado não é a maneira mais inteligente de se chegar a uma conclusão. Imagine, então, concluir sobre o caráter de alguém através de uma única expressão. Se externalizam determinado gesto ou palavreado, rapidamente são incluídos num determinado estereótipo, esforço tal, diga-se de passagem, que só ajuda a redução do caráter humana. Os mais reativos ao ouvir alguém ser chamado, por exemplo, de "viado" intitulam pejorativamente quem o chamou, mesmo que não o conheçam, mesmo que ele esteja se referindo a um amigo. Há uma falha de julgamento, em reconhecer a relatividade das conotações, a lente do radical não enxerga variáveis. Da mesma forma outras expressões como: "nega" ou "preta" são igualmente difamados em determinados contextos. Dada a ferocidade de certas reações da parte de quem reclama, o ato de levantar as suas bandeiras de guerra, parece ser antes de qualquer coisa, mais um desabafo interno do que uma racionalidade que supõe-se que um movimento deva ter. Não há problema em desabafar, só não parece razoável destilar classificações danosas aos outros por questões pessoais.

Daí o dito, que se tornou popular, "mimimi" que num primeiro momento, não é necessariamente ruim, visto que a completa indiferença é pior do que uma sensibilidade exacerbada. Entretanto, esse "mimimismo" como se tem mostrado atenta contra a autocrítica e uma leitura racional das situações. Criou-se uma cegueira em meio a toda essa presente vista grossa das mínimas expressividades e até mesmo falar de comportamento tem sido motivo de conflito ou tensão, o que soa absurdo visto o emergir de uma intolerância generalizada dos opostos, chegamos a um nível em que todos querem definir o que todos podem ou não podem ser, não pode ser homossexual, não pode ser homofóbico, não pode ser feminista, não pode ser machista. Há quem queira interferir diretamente no direito de mulheres terem filhos, há quem difame o outro por comprar um vestido rosa para seu bebê do sexo feminino, há quem demonize o sexo alheio, entre muitas outras ocasiões. Tudo isso parece não passar de mesquinhas incomodações, dado a irrelevância de tais questões para o bom funcionamento do mundo. Tudo se resume a interesses ideológicos sem ideologia a origem de grande parte dos conflitos.

Prezando pela liberdade, todos nós podemos ser qualquer coisa, inclusive podemos ser as pessoas mais repugnantes, temos essa liberdade e devemos mantê-la, podemos ser contra ou a favor de qualquer coisa, o problema não se encontra aí, a grosso modo, até mesmo podemos amar matar pessoas que isso não será um problema, o verdadeiro problema será matar pessoas. Então, até lá, jogo de cintura...

TEÍSTAS ABERTOS E CALVINISTAS CONTEMPORÂNEOS

Para calvinistas contemporâneos e teístas abertos, que procuram propor e  responder a questão em termos de outro tempo, a importância do embate entre soberania de Deus e libre-arbítrio fica clara quando se consideram as terríveis consequências lógicas, morais e ideológicas de abraçar a doutrina oposta.

Os teístas abertos começaram a ganhar terreno e adeptos denunciando, basicamente, o que veem ser as abomináveis consequências morais do calvinismo. Para aceitar o calvinismo da ortodoxia, argumentam eles, é preciso endossar uma série de noções teológicas incompatíveis com o caráter generoso e relacional de Deus. Por exemplo: 1) que Deus é o único responsável pelo mal; 2) que Deus está mentindo quando dá a entender que o homem é responsável por suas ações; 3) que a oração de súplica é uma farsa perversa, visto que o futuro é imutável e Deus não poder ser persuadido a mudar de ideia; 4) que de nada adianta pregar a boa-nova, visto que os eleitos acabarão encontrando a luz de uma forma ou de outra; 5) que não existem injustiças sociais ou morais, visto que cada baixa de todas as guerras e de todas as pobrezas estavam previstas no roteiro original do próprio Deus.

Os calvinistas rebatem com o que creem ser as inadmissíveis consequências teológicas do teísmo aberto. O Deus do teísmo aberto é, reclamam eles: 1) menos que onisciente, porque não conhece o futuro; 2) menos que onipotente. porque não será capaz de impor sua vontade se estiver restringido pela liberdade humana; 3) menos que absoluto e eterno, por estar sujeito ao avanço linear do tempo no próprio universo que criou, e 4) menos que onipresente, porque o futuro não é uma realidade presente para ele.

Como demonstram essas séries muito simplificadas de objeções de ambos os lados, a preocupação fundamental dos teístas abertos é defender a bondade de Deus; a dos calvinistas, seus atributos.


Paulo Brabo (A Bacia das Almas; págs: 191 e 192)

A LIBERDADE QUALIFICA O RELACIONAMENTO

Deus intervém, mas não manipula; age, mas não condena ninguém ao inferno. A liberdade do homem é terrivelmente real, refletindo a liberdade do próprio Deus; é o encontro dessas liberdades que qualifica o tipo de relacionamento que Deus propõe experimentar com o homem. Deus não escolhe se definir por seu tremendo poder, mas pelo esvaziamento de poder, conforme exuberantemente manifesto na encarnação e na carne de Jesus. A missão do sistema do teísmo aberto é libertar Deus das amarras de sua soberania e a devoção cristã das contradições impensáveis do determinismo.



Paulo Brabo (A Bacia das Almas; pág: 190)

16 de março de 2016

CAPACIDADES ESSENCIAIS DO COMPORTAMENTO INTELIGENTE


Encontro em Douglas R. Hofstadter esta lista de capacidades essenciais do comportamento inteligente:

* Responder a situações de forma muito flexível.
* Tirar vantagem de circunstâncias fortuitas.
* Encontrar sentido em mensagens ambíguas ou contraditórias.
* Reconhecer a importância relativa de diferentes elementos de uma situação.
* Encontrar similaridades entre situações a despeito de diferenças que possam separá-las.
* Estabelecer distinções entre situações a despeito das similaridades que possam relacioná-las.
* Sintetizar conceitos novos tomando conceitos velhos e rearranjando-os de formas novas.
* Produzir ideias inéditas.

O problema dessa lista é que, tomada ao pé da letra, parece excluir uma enorme proporção do comportamento humano.


Paulo Brabo (A Bacia das Almas; págs: 252 e 253)

A BOA-NOVA

O cerne da "boa-nova" cristã está em que não se pode extorquir de Deus aquilo que ele se dispõe a oferecer gratuitamente. Essa portentosa revelação transforma imediatamente em obsolescência e contravenção as mais consagradas práticas de chantagem contra a divindade, coisas como ofertas, sacrifícios e religião.

Nós, da instituição, temos um plano de salvação do mundo em que é parte essencial recolher ofertas, juntar doações, pedir dinheiro; ou seja, estamos exigindo, e com a melhor das boas intenções, o que nem todos podem dar - quando a boa-nova consiste justamente em desafiar o homem a oferecer a todos o que todos podem oferecer. Não se pode esconder uma boa-nova que se aplica a qualquer um, por isso, quando não atinge indiscriminadamente a todos, a cidade não está sobre o monte, e pode ser facilmente escondida.


Paulo Brabo (A Bacia das Almas; págs: 52 e 321)

A DESCRENÇA E A VERDADE

Atinge-se a verdade - continuou Nietzsche - através da descrença e do ceticismo, e não do desejo infantil de que algo seja de certa forma! O desejo de seu paciente de estar nas mãos de Deus não é a verdade. É simplesmente um desejo infantil, e nada mais!

Se as crenças e o comportamento humano devem ser entendidos, é preciso primeiro varrer a convenção, a mitologia e a religião. Somente então, sem "nenhuma preconcepção, qualquer que seja", pode-se ter a pretensão de examinar o sujeito humano. A partir da descrença, pode-se criar um código de conduta para o homem, uma nova moralidade, um novo esclarecimento em substituição aos gerados pela superstição e pela ânsia do sobrenatural.


Irvin D. Yalom (Quando Nietzsche Chorou; págs: 90, 137 e 176)

15 de março de 2016

O HORROR DE VIVER UMA VIDA INOBSERVADA

A alegria de ser observado era tão arraigada que, na crença de Breuer, a verdadeira dor da velhice, do luto, de sobreviver aos amigos estava na ausência de escrutínio: o horror de viver uma vida inobservada.


Irvin D. Yalom (Quando Nietzsche Chorou; pág: 75)

"MUITOS QUE VIVEM MERECEM MORRER. E ALGUNS QUE MERECEM VIVER MORREM"


"Muitos que vivem merecem morrer. E alguns que merecem viver morrem. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para condenar à morte em nome da justiça, temendo por sua própria segurança. Nem mesmo os sábios conseguem ver os dois lados".

Gandalf


J.J.R. Tolkien (O Senhor Dos Anéis; pág: 646)

AMON SÛL


Mas muito antes, nos dias do Reinado do Norte, construíram uma grande torre de observação no Topo do Vento, que chamavam de Amon Sûl. Ela foi queimada e destruída, e nada mais resta agora, a não ser um círculo em ruínas, como uma coroa grosseira sobre a cabeça da velha colina. Apesar disso, já foi alta e bonita. Conta-se que Elendil ficava ali olhando, à espera de Gil-galad que vinha do Oeste, nos dias da Última Aliança.

Gil-galad foi o último dos Reis-elfos da Terra-média. Gil-galad quer dizer luz das estrelas na língua deles. Junto com Elendil, o Amigo-dos-elfos, ele foi para a terra de... [Mordor]


J.R.R. Tolkien (O Senhor Dos Anéis; págs: 192 e 198)

A REVOLTA

O Grito (Edvard Munch)

No capítulo de Os Irmãos Karamázov "A revolta", Ivan narra a história real de uma criança supliciada por um general, rebela-se contra Deus, declara que rejeita seu mundo, que lhe devolve o bilhete de entrada nesse mundo, nega-se a aceitar uma harmonia universal à custa de vítimas humanas, da anulação do ser humano como agente de sua própria vontade e da responsabilidade por seus atos, ou de sua redução a simples marionetes que assistem passivamente ao desenrolar do processo histórico e estão sujeitas aos caprichos de potências estranhas à vida e aos interesses dos homens: ele não quer "estrumar com suas lágrimas a futura harmonia de não sei quem".

Paulo Bezerra


Fiódor Dostoiévski (Os Irmãos Karamázov; pág: 1011)

O VERDADEIRO CIUMENTO


Ciúme! "Otelo não é ciumento, é crédulo" - observou Púchkin, e só essa observação já é uma prova da profundidade incomum do nosso grande poeta. Otelo estava simplesmente com a alma em frangalhos e com toda sua visão de mundo turvada porque morrera o seu ideal. Mas Otelo não ficaria se escondendo, espionando, com olhares furtivos, ele é crédulo. Ao contrário, precisava ser açulado, incitado, atiçado com esforços extraordinários para que só assim se apercebesse da traição. Não é assim o verdadeiro ciumento. É até impossível imaginar toda a desonra e decadência moral a que um ciumento é capaz de acomodar-se sem quaisquer remorsos. E note-se que nem todos são propriamente almas torpes e sórdidas. Ao contrário, de coração elevado, de amor puro, cheios de abnegação, podem ao mesmo tempo esconder-se debaixo de mesas, subornar diaristas torpes e acomodar-se à mais indecente sordidez da espionagem e da escuta atrás das portas. Otelo não poderia se conformar com a traição por nada neste mundo - deixar de perdoar não deixaria, mas se conformar, não - embora fosse de alma pacata e pura como a alma de uma criança. Não é o mesmo que acontece com o verdadeiro ciumento: é difícil imaginar a que esse ou aquele ciumento pode acomodar-se e conformar-se e o que pode perdoar! Os ciumentos são os primeiros a perdoar, e isso todas as mulheres sabem. O ciumento pode e é capaz de perdoar depressa demais (claro, após uma terrível cena inicial), por exemplo, uma traição já quase provada, os abraços e beijos já presenciados por ele mesmo, se, por exemplo, puder ao mesmo tempo asseverar-se, de alguma maneira, de que isso aconteceu "pela última vez" e que a partir desse momento seu rival desaparecerá, irá para o fim do mundo, ou ele mesmo a levará para algum lugar em que esse terrível rival não voltará a aparecer. É claro que a conciliação acontecerá apenas por uma hora, porque, mesmo que o rival tenha realmente desaparecido, amanhã mesmo ele inventará outro, um novo, e voltará a ter ciúmes. Poder-se-ia pensar: que amor é esse que precisa ser tão vigiado, e de que vale um amor que precisa ser tão intensamente vigiado?

Pois é isso que nunca irá compreender o verdadeiro ciumento; não obstante, palavra, entre eles aparecem pessoas até de coração elevado. Também é digno de nota que, estando essas mesmas pessoas de corações elevados em algum cubículo, escutando atrás da porta e espionando, ainda que, com "seus corações elevados", compreendam claramente toda a desonra em que caíram voluntariamente, mesmo assim nunca sentem remorso, ao menos enquanto se encontram nesse cubículo. Quando Mítia via Grúchenka desaparecia-lhe o ciúme e num instante ele se tornava crédulo e nobre, chegava até a se desprezar por nutrir maus sentimentos. Isto, porém, significava, apenas que em seu amor por essa mulher havia algo bem mais elevado do que ele mesmo supunha e não só paixão, não só as "curvas do corpo" de que ele falara a Aliócha. Não obstante, mal Grúchenka desaparecia Mítia voltava a suspeitar que ela estivesse praticando todas as baixezas e artimanhas da traição. E aí não sentia nenhum remorso.


Fiódor Dostoiévski (Os Irmãos Karamázov; págs: 508 e 509)

NÃO AFASTARIA O CÁLICE

Bukowski

Se eu não acreditasse na vida, se perdesse a confiança na mulher querida, se perdesse a confiança na ordem das coisas, se me convencesse até de que tudo, ao contrário, é uma desordem, um caos maldito e talvez até demoníaco, mesmo que todos os horrores da frustração humana me atingissem, ainda assim eu teria vontade de viver, e já que trouxe esse cálice aos lábios não o afastaria de mim enquanto não o esvaziasse!


Fiódor Dostoiévski (Os Irmãos Karamázov; pág: 317)

AMAMOS DO JEITO QUE É

A senhora o ama precisamente tal qual ele é, ama-o sendo ofendida por ele. Se ele se emendasse, a senhora o largaria imediatamente e deixaria de amá-lo de vez. Mas a senhora precisa dele para contemplar constantemente sua façanha de fidelidade e censurá-lo por infidelidade. E tudo isso movida por seu orgulho.


Fiódor Dostoiévski (Os Irmãos Karamázov; pág: 269)

O RITUAL DO CHÁ


O chá constitui o cerne da aptidão para ver a grandeza das pequenas coisas. Onde se encontra a beleza? Nas grandes coisas que, como as outras, estão condenadas a morrer, ou nas pequenas que, sem nada pretender, sabem incrustar no instante uma preciosa pedrinha de infinito? O ritual do chá, essa recondução exata dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa licença dada a cada um, a baixo custo, de se tornar um aristocrata do gosto, porque o chá é a bebida tanto dos ricos como dos pobres, o ritual do chá, portanto, tem essa virtude extraordinária de introduzir no absurdo de nossas vidas uma brecha de harmonia serena. Sim, o universo conspira para a vacuidade, as almas perdidas choram a beleza, a insignificância nos cerca. Então, bebamos uma xícara de chá. Faz-se o silêncio, ouve-se o vento que sopra lá fora, as folhas de outono sussurram e voam, o gato dorme sob uma luz quente. E, em cada gole, se sublima o tempo.


Muriel Barbery (A Elegância do Ouriço; págs: 95 e 96)

14 de março de 2016

"AH, SE EU PUDESSE RETORNAR NO TEMPO"

"Ah! Se eu pudesse retornar no tempo! Conquistaria menos poder e teria mais poder de conquistar. Beberia algumas doces de irresponsabilidade, me colocaria menos como aparelho de resolver problemas e me permitiria relaxar, pensar no abstrato, refletir sobre os mistérios que me cercam.

Se eu pudesse retornar no tempo, procuraria meus amigos da juventude. Onde estão? Quem está vivo? Eu os procuraria e reviveria as experiências singelas colhidas no jardim da simplicidade, onde não havia as ervas daninhas do status nem a sedução do poder financeiro.

Se eu pudesse retornar, daria mais telefonemas para a mulher da minha vida nos intervalos das reuniões. Procuraria ser um profissional mais estúpido e um amante mais intenso. Seria mais bem-humorado e menos pragmático, menos lógico e mais romântico. Escreveria poesias tolas de amor. Diria mais vezes 'eu te amo!'. Reconheceria sem medo: 'perdoe-me por trocá-la pelas reuniões de trabalho! Não desista de mim'.

Ah, se eu pudesse retornar nas asas do tempo! Beijaria mais meus filhos, brincaria muito mais, curtiria sua infância como a terra seca absorve a água. Sairia na chuva com eles, andaria descalço na terra, subiria em árvores. Teria menos medo que se ferissem e se gripassem, e mais medo de que se contaminassem com o sistema social. Seria mais livre no presente e menos escravo do futuro. Trabalharia menos para lhes dar o mundo e me esforçaria muito mais para lhes dar o meu mundo."


Augusto Cury (O Vendedor de Sonhos - O Chamado; pág: 286)

TRAÍMOS A HUMANIDADE

Traímos a ciência com nossas verdades absolutas, traímos nossos alunos com nossa incapacidade de ouvi-los, traímos a natureza com nosso desenvolvimento. Como o mestre nos alertou, traímos a humanidade quando hasteamos a bandeira de que somos judeus, palestinos, americanos, europeus, chineses, brancos, negros, mulçumanos. Somos todos traidores que precisam desesperadamente comprar sonhos. Temos todos um "Judas" alojado em nossa psique. Especialista em esconder seu alicerce debaixo do tapete do ativismo, da ética, da moralidade, da justiça social.


Augusto Cury (O Vendedor de Sonhos - O Chamado; pág: 283)

A OUTRA FACE

Dar a outra face é um símbolo de maturidade e força interior. Não se refere à face física, mas à psíquica. Dar a outra face é procurar fazer o bem para quem nos decepciona, é ter elegância para elogiar quem nos difama, altruísmo para ser gentil com quem nos aborrece. É sair silenciosamente e sem estardalhaço da linha de fogo dos que nos agridem. Dar a outra face previne homicídios, traumas, cicatrizes impagáveis. Os fracos se vingam, os fortes se protegem.


Augusto Cury (O Vendedor de Sonhos - O Chamado; pág: 228)

Jesus não estimulou seus discípulos a irem tomar cafezinho com pessoas perversas. Ele apenas orienta que não se faça resistência a tais indivíduos. Também não manda seus discípulos oferecerem a face para ser batida em qualquer situação. Mas há situações em que, por causa do perfil do inimigo, não se consegue reconciliação nem negociação. E aí, nestes casos, a melhor atitude é não revidar, não resistir ao perverso.


Carlos Queiroz (Ser é o Bastante; pág: 127)

O FILHO DO HOMEM

Jesus contou mais de sessenta vezes que era o filho do homem. Poucos na história entenderam o que ele queria dizer. Revelou paulatinamente que era cem por cento pela humanidade e não apenas pelo judeus. Ao insistir que era filho do homem, queria mostrar em código que era filho da humanidade, que era o primeiro ser humano completamente sem fronteiras. Sua cultura, raça, nacionalidade eram importantes, mas sua condição de ser humano era muito mais.


Augusto Cury (O Vendedor de Sonhos - O Chamado; pág: 212)

VELÓRIO


O Mestre dos Mestres quis demonstrar que o velório pode ser um ambiente de lágrimas, mas deve ser acima de tudo um ambiente saturado de elogios e recordações solenes. O luto deve ser um ambiente perfumado, uma homenagem para quem partiu. Um ambiente para contar seus gestos, declarar suas reações, comentar suas palavras. A maioria dos seres humanos tem algo para ser declarado. Por favor, contem-me os feitos desse homem! Declarem o significado dele na vida de vocês. Seu silêncio deve alçar vôo de nossa voz.


Augusto Cury (O Vendedor de Sonhos - O Chamado; pág: 103)

11 de março de 2016

DEUS ESTÁ EM TODAS AS COISAS

A dúvida é o seu último farrapo de controle. É a dúvida que traz as almas para vocês. A necessidade humana de saber se a vida tem sentido. A insegurança e a necessidade do homem de uma mente instruída que lhe garanta que tudo é parte de um plano geral. Só que a Igreja não é a única mente instruída do planeta! Nós todos buscamos Deus de diferentes maneiras. De que tem medo? Que Deus se mostre em algum outro lugar fora destas paredes? Que as pessoas O encontrem em suas próprias vidas e deixem esses rituais antiquados para trás? As religiões evoluem! A mente encontra respostas, o coração se apega a novas verdades. Meu pai buscava o mesmo que você! Em um caminho paralelo! Como não enxergou isso? Deus não é uma autoridade onipotente que nos olha de cima, ameaçando nos atirar em um poço de fogo se desobedecermos. Deus é a energia que flui através das sinapses de nossos sistemas nervosos e dos ventrículos de nossos corações! Deus está em todas as coisas!


Dan Brown (Anjos e Demônios; págs: 435 e 436)

"A RELIGIÃO É FALHA, MAS SÓ PORQUE O HOMEM É FALHO"

À medida que a religião vai ficando para trás, as pessoas se vêem em um vazio espiritual. Imploramos pelo sentido das coisas. E, acreditem, imploramos de fato. Vemos OVNIs, frequentamos médiuns, buscamos contato com os espíritos, experiências extracorpóreas, uso do poder mental - todas essas idéias excêntricas têm um verniz científico, mas são descaradamente irracionais. São o grito desesperado da alma moderna, solitária e atormentada, deformada por seu próprio esclarecimento e por sua incapacidade de aceitar que haja sentido em qualquer coisa que seja estranha à tecnologia.

Quem é esse deus-ciência? Quem é esse deus que oferece poder a seu povo, mas nenhuma estrutura moral para lhe dizer como usar este poder? Que tipo de deus dá fogo a uma criança, mas não a avisa sobre seus perigos? A linguagem da ciência não vem com diretrizes sobre o bem e o mal. Os livros científicos explicam-nos como criar uma reação nuclear, mas não têm nenhum capítulo discutindo se é uma boa ou má idéia. À ciência, quero dizer o seguinte: a Igreja está cansada. Estamos exaustos de tanto tentar ser uma diretriz para o mundo. Nossos recursos estão esgotados por sermos a voz do equilíbrio enquanto vocês se atiram de cabeça em sua busca por chips menores e lucros maiores. Nem perguntamos por que vocês não se controlam, pois como poderiam? Seu mundo anda tão depressa que, se pararem por um instante que seja para refletir sobre as implicações de seus atos, alguém mais eficiente pode ultrapassá-los em um piscar de olhos. Por isso, vocês vão em frente. Promovem o aumento das armas de destruição em massa, mas é o Papa quem tem de viajar pelo mundo suplicando aos líderes que tenham prudência. Clonam criaturas vivas, mas é a Igreja que tem de lembrar a necessidade de considerarmos as implicações morais de nossos atos. Incentivam as pessoas a interagir através de telefones, telas de vídeo e computadores, mas é a Igreja que abre suas portas e nos lembra de comungar aqui, no mundo real, que é como se deve fazer. Vocês até matam bebês que ainda não nasceram em nome de pesquisas que salvarão vidas. Mais uma vez, cabe à Igreja comprovar a falácia de tal raciocínio.

Mostrem-nos uma prova da existência de Deus, dizem vocês. E eu respondo, usem seus telescópios para olhar o céu e me digam como é possível não haver um Deus! Não vêem Deus em sua ciência? Como podem deixar de vê-los! Vocês proclamam que a menor alteração na força da gravidade ou no peso de um átomo teria convertido nosso universo em uma névoa sem vida em vez do magnífico mar de corpos celestes que contemplamos, e ainda assim deixam de ver a mão de Deus nisso? Será que é mesmo tão mais fácil acreditar que escolhemos a carta certa em um baralho em que há bilhões delas? Será que estamos tão falidos espiritualmente que preferimos acreditar numa impossibilidade matemática e não em um poder maior do que nós?

A fé, todas as formas de fé, são advertências de que existe algo que não podemos compreender, algo a que temos de responder. Com fé, prestamos contas uns aos outros, a nós mesmos e a uma verdade maior. A religião é falha, mas só porque o homem é falho.


Dan Brown (Anjos e Demônios; págs: 315, 316 e 317)


"Deus é apenas uma hipótese... porém... reconheço que ele é necessário, para a ordem... para a ordem universal, etc... e se Ele não existisse seria preciso inventá-lo".



Fiódor Dostoiévski (Os Irmãos Karamázov; pág: 720)

AS RELIGIÕES NÃO COMEÇAM DO ZERO


Os halos, como grande parte da simbologia cristã, foram tirados da antiga religião egípcia baseada na adoração do Sol. O cristianismo está cheio de manifestações de adoração ao Sol. [...] O que você comemora no dia 25 de dezembro? O dia 25 de dezembro, meus amigos, é o dia da antiga festa pagã do sol invictus, o Sol Invicto, que coincidia com o solstício de inverno. É aquela maravilhosa fase do ano em que o Sol retorna e os dias começam a ficar mais longos outra vez.

As religiões vitoriosas costumam adotar as festas já existentes para tornar a conversão menos chocante. Chama-se a isto de transmutação. Ajuda as pessoas a se acostumarem com a nova fé. Os devotos mantêm as mesmas datas santas, rezam nos mesmos locais sagrados, usam uma simbologia semelhante e apenas substituem o deus anterior por outro diferente. O cristianismo não tomou elementos emprestados somente da adoração ao Sol. O ritual da canonização cristã foi tirado do antigo rito de deificação de Euhemerus. A prática de "comer Deus", ou seja, a Santa Comunhão, foi copiada dos astecas. Até o conceito de Cristo morrer por nossos pecados pecados pode-se dizer que não é exclusivamente cristão: o auto-sacrifício de um rapaz para absolver os pecados de seu povo aparece nos registros das mais remotas tradições associadas a Quetzalcoatl.

Muito pouco em qualquer religião organizada é inteiramente original. As religiões não começam do zero. Crescem uma a partir da outra.


Dan Brown (Anjos e Demônios; págs: 206 e 207)

TERRORISMO


Simplesmente, o objetivo do terrorismo é criar terror e medo. O medo abala a confiança nas instituições. Enfraquece o inimigo de dentro para fora, causa inquietação nas massas. Escrevam isto: o terrorismo não é uma expressão de raiva. O terrorismo é uma arma política. Quando se acaba com a fachada de infalibilidade de um governo, acaba-se com a fé do povo.


Dan Brown (Anjos e Demônios; págs: 150 e 151)