4 de julho de 2014

DO ARTESANATO À INDÚSTRIA

Em cada uma dessas miniempresas conviviam a casa e a oficina: o chefe da família era também o chefe da empresa, os trabalhadores eram os membros da família e os parentes, o crescimento de uma criança coincidia com o aprendizado do ofício, o tempo dedicado ao trabalho coincidia com o tempo da própria vida (por exemplo, se rezava, se cozinhava, se dormia nos mesmos lugares em que se trabalhava). Havia uma completa copenetração entre as esferas produtiva e reprodutiva, racional e emotiva. A tecnologia era rudimentar. Havia uma grande mistura entre criatividade, execução e manualidade: por exemplo, um fazedor de vasos projetava, construía e pintava os seus vasos.

A comunidade fundava-se em necessidades elementares, a economia era de tipo local. Cultivavam-se valores patriarcais e matriarcais, pouquíssimas tinham um alto nível de escolarização, sendo a massa constituída por analfabetos. A religiosidade e a superstição exaltavam a dimensão mágica, fatalista e ultraterrena da existência humana. Somente após milhares de anos, no século XIX, este mundo se transforma em sociedade industrial.

A produção das novas indústrias ocorre numa unidade de espaço e de tempo: a fábrica. O ambiente da vida não mais coincide com o local de trabalho. E o trabalhador torna-se, com frequência, um estranho em ambos os lugares. Na maioria dos casos, a figura do empresário não coincide mais com a do trabalhador, nem a do chefe da família com a do chefe de empresa. Daqui nasce a luta de classes.

Os produtos não são mais pouco numerosos e artesanalmente diversos: passam a ser muitos e estandardizados. As atividades ligadas ao trabalho se cindem das atividades domésticas e as primeiras, consideradas mais importantes, são restritas aos homens, enquanto as outras, consideradas secundárias, são delegadas às mulheres. O mercado se nacionaliza e se internacionaliza. A cidade se torna "funcional", o que faz com que cada bairro tenha uma única função, do mesmo modo que na fábrica, em cada seção, se realiza um processo específico. O racionalismo instaura a sua lógica, as tecnologias se tornam mais complexas. Uma grande parte dos trabalhadores desempenha um trabalho físico e executivo. A produção é vista como uma cadeia de montagem, como um fluxo contínuo e linear. As necessidades das pessoas são "fortes": cada qual se concentra em poucas necessidades essenciais, às quais dedica a vida inteira com duros anos de trabalho, para obter a casa própria, fazer com que os filhos frequentem a escola ou dar de comer a toda a família.

Como os produtos são todos estandardizados, para conseguir vendê-los é preciso inventar as modas, de modo que milhões de pessoas comprem objetos absolutamente iguais. Nascem as chamadas "lojas de departamento" e os supermercados, com preços únicos e fixos. A economia se internacionaliza, extinguindo aquela autossuficiente de tipo feudal representada pelo trabalho do artesão. Os valores emergentes são machistas, a cultura é aquela a que nos referimos como "modernidade" e as ideologias se secularizam. Libera-se do fatalismo que atribuía todo e qualquer evento aos desígnios de Deus e do diabo. O homem adquire uma dignidade própria, feita de autonomia e maior segurança em si mesmo.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 198, 199 e 200)

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