4 de julho de 2014

DO ARTESANATO À INDÚSTRIA

Em cada uma dessas miniempresas conviviam a casa e a oficina: o chefe da família era também o chefe da empresa, os trabalhadores eram os membros da família e os parentes, o crescimento de uma criança coincidia com o aprendizado do ofício, o tempo dedicado ao trabalho coincidia com o tempo da própria vida (por exemplo, se rezava, se cozinhava, se dormia nos mesmos lugares em que se trabalhava). Havia uma completa copenetração entre as esferas produtiva e reprodutiva, racional e emotiva. A tecnologia era rudimentar. Havia uma grande mistura entre criatividade, execução e manualidade: por exemplo, um fazedor de vasos projetava, construía e pintava os seus vasos.

A comunidade fundava-se em necessidades elementares, a economia era de tipo local. Cultivavam-se valores patriarcais e matriarcais, pouquíssimas tinham um alto nível de escolarização, sendo a massa constituída por analfabetos. A religiosidade e a superstição exaltavam a dimensão mágica, fatalista e ultraterrena da existência humana. Somente após milhares de anos, no século XIX, este mundo se transforma em sociedade industrial.

A produção das novas indústrias ocorre numa unidade de espaço e de tempo: a fábrica. O ambiente da vida não mais coincide com o local de trabalho. E o trabalhador torna-se, com frequência, um estranho em ambos os lugares. Na maioria dos casos, a figura do empresário não coincide mais com a do trabalhador, nem a do chefe da família com a do chefe de empresa. Daqui nasce a luta de classes.

Os produtos não são mais pouco numerosos e artesanalmente diversos: passam a ser muitos e estandardizados. As atividades ligadas ao trabalho se cindem das atividades domésticas e as primeiras, consideradas mais importantes, são restritas aos homens, enquanto as outras, consideradas secundárias, são delegadas às mulheres. O mercado se nacionaliza e se internacionaliza. A cidade se torna "funcional", o que faz com que cada bairro tenha uma única função, do mesmo modo que na fábrica, em cada seção, se realiza um processo específico. O racionalismo instaura a sua lógica, as tecnologias se tornam mais complexas. Uma grande parte dos trabalhadores desempenha um trabalho físico e executivo. A produção é vista como uma cadeia de montagem, como um fluxo contínuo e linear. As necessidades das pessoas são "fortes": cada qual se concentra em poucas necessidades essenciais, às quais dedica a vida inteira com duros anos de trabalho, para obter a casa própria, fazer com que os filhos frequentem a escola ou dar de comer a toda a família.

Como os produtos são todos estandardizados, para conseguir vendê-los é preciso inventar as modas, de modo que milhões de pessoas comprem objetos absolutamente iguais. Nascem as chamadas "lojas de departamento" e os supermercados, com preços únicos e fixos. A economia se internacionaliza, extinguindo aquela autossuficiente de tipo feudal representada pelo trabalho do artesão. Os valores emergentes são machistas, a cultura é aquela a que nos referimos como "modernidade" e as ideologias se secularizam. Libera-se do fatalismo que atribuía todo e qualquer evento aos desígnios de Deus e do diabo. O homem adquire uma dignidade própria, feita de autonomia e maior segurança em si mesmo.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 198, 199 e 200)

ELEIÇÕES

Como os interesses são fragmentados, o bipartidarismo obriga os diversos grupos a comporem coalizões fictícias durante as campanhas eleitorais. Depois, uma vez passadas as eleições, os grupos começam a se desagregar e as várias forças que os compunham começam a atacar-se mutuamente, porque, na realidade, não são portadoras de interesses homogêneos. Possuir um interesse em comum hoje não significa que se terá também outros interesses em comum amanhã. Obtido o objetivo momentâneo, cada um passa a outros objetivos, diversos entre si. E, portanto, passa a formar outras alianças.

Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 187 e 201)

MEXE-SE EM TIME QUE ESTÁ GANHANDO?

A guerra demonstrou de uma maneira que não deixa espaço a controvérsias que, graças à organização científica da produção, é possível garantir à população do mundo moderno um razoável teor de vida, desenvolvendo somente uma pequena parte da total capacidade de trabalho. Se, no final do conflito, essa organização científica, criada para que os homens combatessem e produzissem, tivesse continuado a funcionar, reduzindo o expediente a quatro horas diárias, tudo teria tido melhor êxito. Mas, em vez disso, foi instalado novamente o velho caos: quem tem trabalho, trabalha demais, enquanto outros morrem de fome porque não recebem salário. Por que? Porque o trabalho é um dever, e o homem não deve receber um salário proporcional àquilo que produz, mas sim em proporção à sua virtude expressada pelo zelo.


Bertrand Russell (O Elogio do Ócio)

TEMPO NÃO É SÓ DINHEIRO

Espalhou-se por toda parte, com a convicção errada de que quanto mais tempo se passar no local de trabalho, mais se produzirá. Uma ideia que remonta à oficina, à linha de montagem: ali sim, dobrando o tempo, fabricava-se o dobro de parafusos. Hoje é muito diferente, pois o que se solicita aos empregados - sobretudo se são trabalhadores intelectuais - são ideias e não parafusos.

As pesquisas sobre o teletrabalho, ou seja, o trabalho que não é realizado nos escritórios, mas na própria residência, evidenciam que as tarefas que na empresa requerem de oito a dez horas para serem realizadas, em casa se realizam, comodamente, na metade do tempo: de quatro a cinto horas, no máximo. Isto quer dizer que as pessoas passam, seja nas empresas, seja nas repartições públicas, o dobro do tempo necessário.

Uma pessoa que está no escritório sem nada para fazer adquire, como eu já disse, o péssimo hábito de passar o tempo inventando modos de criar procedimentos e regras inúteis que dão dor de cabeça aos outros e só prejudicam. Sem falar no desperdício de recursos: o telefone, o ar-condicionado, o próprio estresse. [No contrário] as empresas seriam mais criativas, mais produtivas e reduziriam as despesas. Os trabalhadores teriam mais tempo disponível para a vida pessoal, revitalizariam seus relacionamentos com a família, com o bairro, com a cultura, alimentariam a própria criatividade.

"Todos os homens, de todos os tempos, e ainda os de hoje, dividem-se entre escravos e livres, porque quem não dispõe de dois terços do próprio dia é um escravo, não importa o que seja de resto: homem de Estado, comerciante, funcionário público ou estudioso." - Friedrich Nietzsche


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 175, 179, 180, 181, 182)

SEXO ANDRÓGINO

Antigamente, a natureza humana não era como a atual. No princípio havia três sexos, e não dois como agora, masculino e feminino. Havia ainda um terceiro, que participava do masculino e do feminino e que agora desapareceu, apesar de permanecer o seu nome. Naquele tempo, de fato, existia o sexo andrógino, que compartilhava o nome e a forma de ambos os sexos, o masculino e o feminino, mas do qual agora resta somente o nome, usado num sentido pejorativo. Em segundo lugar, a figura das pessoas era completamente redonda, as costas e os quadris formavam um círculo, e elas tinham quatro mãos e quatro pernas, e sobre o pescoço redondo, dois rostos idênticos. Essas duas faces que estavam viradas para lados opostos se encontravam numa única cabeça com quatro orelhas, e todos os outros detalhes podem ser imaginados a partir dessas indicações...

E os sexos eram três, enquanto o macho se originou do sol, a fêmea originou-se da terra, e o terceiro sexo, que tinha elementos com comum com ambos, originou-se da lua, que, justamente, compartilha da natureza do sol e da terra. E eles eram redondos, assim como redonda era a maneira como procediam, por semelhança a seus genitores. Assim, eram terríveis na força e no vigor e tinham soberbas ambições e atacavam os deuses... Então, Zeus teve uma ideia e disse: "acredito que encontrei uma forma na qual os seres humanos podem continuar a existir, porém renunciando às suas insolências. Cortarei cada um pela metade, e assim se enfraquecerão, mas ao mesmo tempo duplicarão de número e se tornarão mais unidos a nós..."

Dito isso, começou a cortar os seres humanos em dois pedaços, como se fazem com as sorvas, antes de pô-las no sal, ou como se faz com a casca do ovo... Assim, como a forma originária foi cortada em duas, cada metade sentia nostalgia da outra e a procurava... Portanto, ao desejo e à busca da completude dá-se o nome de amor.


Platão (O banquete)

3 de julho de 2014

SOBRE HOMENS E MULHERES NO SEXO E NO TRABALHO

Na Atenas de Péricles, o separatismo elitista dos homens desembocava frequentemente em relações físicas homossexuais. Isto também acontece hoje, e os casos são crescentes. Porém, o homossexualismo a que estou me referindo nessa circunstância consiste em um posicionamento psicológico, em uma preferência, generalizada entre os executivos, de trabalhar só com homens. Ainda hoje, tanto nos templos religiosos como nos leigos - bancos, conselhos diretivos, bolsas de valores -, a mulher pode colocar o pé somente como encarregada da faxina, como secretária, como funcionária de nível médio ou baixo. Deste modo, salva-se o espaço sagrado reservado aos homens e eles podem ocupá-lo da manhã à noite, até mesmo fazendo horas extras, ainda que não exista tal urgência e não recebam um salário extraordinário. O importante é voltar para casa o mais tarde possível, de modo a não se "rebaixar" fazendo coisas como ajudar no cuidado dos filhos ou nos trabalhos domésticos.

Um intelectual como Platão ou um político como Alcebíades, uma vez concluída as relações sexuais, não saberiam nem mesmo o que fazer ou do que falar diante de uma mulher. Por isso, preferiam relações amorosas com outros homens, com os quais, além da relação sexual em si, podiam sentir-se em sintonia cultural ou fortalecer alianças políticas. Muitos séculos depois, a revolução industrial deslocou o centro do sistema social para os negócios: fábricas, dinheiro, mercadorias, comércio. E os homens segregaram as mulheres fora desses centros, trancando-as nos recintos domésticos, dedicados aos afetos, à estética, à criação dos filhos. Coisas de qualquer forma desvalorizadas, não remuneradas, consideradas secundárias e quase pueris.

O que se atém ao rude, ao prático, ao econômico, ao competitivo e ao racional é reservado aos homens: guerras, trabalhos, esportes, hierarquias eclesiásticas, estados-maiores, conselhos administrativos e estádios. O que se refere à natureza, à beleza, à solidariedade, à emotividade é delegada às mulheres: criação, ensino, sedução, assistência, lar, jardim, escola, bordel, hospício e hospital. As mulheres, por sua vez, tornaram-se cúmplices dessa segregação homossexual. Nas palavras de uma estudiosa americana: "O machismo é como a hemofilia, quem padece da doença são os homens, mas quem a transmite são as mulheres."

Agora, pela primeira vez na História, a ciência permite que as mulheres tenham filhos sem ter um marido, enquanto, para os homens, por enquanto, não é tecnicamente viável ter um filho sem ter uma mulher. Até dez mil anos atrás acreditava-se que as crianças nascessem graças somente à virtude feminina, sem qualquer intervenção geradora do homem. Hoje, biogeneticamente, aquela crença se tornou realidade, estabelecendo as bases fisiológicas para um novo matriarcado. A segunda circunstâncias é que hoje, como já dissemos, a sociedade pós-industrial delega as tarefas cansativas e repetitivas às máquinas, deixando aos humanos as atividades flexíveis, intuitivas e estéticas. Atividade para as quais, historicamente, as mulheres encontram-se mais bem preparadas, pelo simples fato de que os indivíduos do sexo masculino foram sempre tradicionalmente educados para agir de forma racional, rígida e programada.

Onde se afirmam atividades que requerem flexibilidade, intuição, emotividade e senso estético - na ciência, na arte, no cinema,  na moda e na mídia -, aportam, pontualmente, as mulheres e debandam os homens. E é um processo tão acelerado, que legitima a triste hipótese de uma próxima fase de homossexualidade hegemônica: a das mulheres que se relacionam só com mulheres, porque com os homens têm bem pouco  o que dizer e bem pouco a compartilhar.

Uma futura sociedade dominada pelas mulheres com exclusão dos homens seria tão injusta quanto a sociedade passada, dominada pelos homens, com exclusão das mulheres. Em ambos os casos, o que se perde é a riqueza da pluralidade. Por sorte, ainda temos tempo para evitar esse segundo erro, porque os homens estão perdendo a hegemonia, mas as mulheres ainda não a conquistaram. Os homens estão começando a adotar muitas das características femininas: cuidar do corpo, por exemplo, demonstrar maior ternura, usar alegremente cores vistosas no modo de vestir, cuidar mais da casa, ou perder a vergonha de chorar no cinema, diante de uma cena comovente. As mulheres, por sua vez, começam a adquirir desenvoltura na vida pública, consciência de que têm o direito ao acesso às poltronas do poder e à justa pretensão de que também os homens participem no cuidado dos filhos.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 159, 160, 161 e 162)

CRIATIVIDADE

Na sociedade industrial foi a razão que triunfou. Hoje, conquistado o que é racional, podemos voltar a valorizar sem temor também a esfera emotiva. Emoção, fantasia, racionalidade e concretude são os ingredientes da criatividade. A racionalidade nos permite executar bem as nossas tarefas, mas sem emotividade não se cria nada de novo. Para ser criativo, é essencial o cruzamento entre racionalidade e emotividade.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 157)

O DESIGN

Quando já não vale mais a pena melhorá-lo, refinamos sua estética. Qual é a diferença que existe hoje entre um relógio e outro? O design. O aspecto técnico do objeto já é considerado garantido, portanto emerge o aspecto estético. Até mesmo objetos que ainda não completaram o ciclo de aperfeiçoamento técnico, como, por exemplo, os computadores pessoais, já competem no campo do design.

Se na sociedade industrial eu desejava os sapatos da Timberland para me sentir igual aos meus colegas da escola, na sociedade pós-industrial uso tamancos, para me diferenciar.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 154 e 155)

"ESCOLHE UM TRABALHO DE QUE GOSTES, E NÃO TERÁS QUE TRABALHAR NEM UM DIA NA TUA VIDA"

Foi a indústria que separou o lar do trabalho, a vida das mulheres da vida dos homens, o cansaço da diversão. Foi com o advento da indústria que o trabalho assumiu uma importância desproporcionada, tornando-se a categoria dominante na vida humana, em relação à qual qualquer outra coisa - família, estudo, tempo livre - permaneceu subordinada.

Contudo, a plenitude da atividade humana é alcançada somente quando nela coincidem, se acumulam, se exaltam e se mesclam o trabalho, o estudo e o jogo, isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos, tudo ao mesmo tempo. Há um pensando zen que expressa com perfeição esta forma de vida, tanto no seu aspecto prático como no seu estado de espírito: 

"Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu tempo livre, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo. Ele acredita que está sempre fazendo as duas coisas ao mesmo tempo."


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 152 e 153)

GLOBALIZAÇÃO

O primeiro impulso à globalização consiste na tendência a descobrir, conhecer e mapear o planeta e o universo. O segundo consiste no escambo, ou troca de mercadorias, num raio cada vez mais amplo, até abranger a totalidade do mundo conhecido. O terceiro impulso consiste na tentativa de colonizar materialmente os povos limítrofes e, depois, aos poucos, também os povos mais longínquos, até englobar o planeta inteiro. O quarto impulso consiste em invadir todos os mercados com as próprias mercadorias. O quinto, em invadir todo o mundo conhecido com as próprias ideias. O sexto impulso é o de expandir o raio de ação dos próprios capitais, da própria moeda, das próprias fábricas.

Hoje, as novidades são sobretudo três, e conotam um sétimo tipo de globalização: pela primeira vez um país de enorme potência - os Estados Unidos - governa todo o planeta e se prepara para colonizar ainda outros. Pela primeira vez estas várias formas de globalização estão todas copresentes e potencializam seus efeitos reciprocamente. E pela primeira vez a estrada da unificação política e material é aplanada pelos meios de comunicação de massa e pelas redes telemáticas. O universalismo e o ecumenismo que antes, como já vimos, diziam respeito somente aos impérios políticos, a algumas religiões e à língua latina, hoje concernem a todo e qualquer aspecto da vida: da criminalidade ao cartão da American Express, do vestuário aos perfumes, das batatinhas fritas ao design, dos remédios aos combustíveis.

O conjunto desses fatores produz uma oitava forma de globalização: a psicológica. Despertamos todos os dias com um radio-relógio que dá as notícias do mundo todo. Tomamos banho debaixo de um chuveiro cujas torneiras são alemãs e com um sabonete francês. Vamos para o trabalho com um carro cujo design foi feito na Itália, mas cujas peças provêm de vários países, como o Japão e a Coreia. Competimos nos mercados mundiais com capitais de joint-ventures, vendemos mercadorias e informações em todas as praças do planeta, escutamos um disco gravado em estúdios de diversos países e depois mixado em outros, sabemos que um vírus pode girar o mundo em poucos dias e infectar-nos de uma hora para outra. Vivemos numa cidade, trabalhamos em outra e tiramos férias numa terceira, atingindo cada uma delas num piscar de olhos. Conversamos em tempo real com o correio eletrônico, nos falamos e nos vemos através dos oceanos e dos continentes. Tudo isso provoca uma certa vertigem de onipotência, mas revela também a nossa fragilidade humana, jogando trabalhadores, empresas, homens políticos e os Estados numa competição cada vez mais opressiva entre concorrentes sempre mais numerosos e astutos, com o perigo crescente de perder aquilo que está em jogo.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 149 e 150)

2 de julho de 2014

MULTINACIONAIS

A economia global é guiada predominantemente, se não o for de forma absoluta, pelas multinacionais. As multinacionais dispõem de uma potência econômica sem precedentes: de acordo com o Der Spiegel, "as vinte maiores empresas mundiais, das quais fazem parte a Mitsubishi", a Royal Dutch/Shell e a Daimler-Benz, têm uma receita superior à soma das economias dos oitenta [80!] países mais pobres". A ONU calculou que trezentos e cinquenta e oito miliardários do mundo todo são mais ricos que metade da população global. Segundo The economist, no setor de bens de consumo duráveis - automóveis, companhias aéreas, indústrias aeroespacial, eletrônica, elétrica e siderúrgica -, cinco sociedades privadas controlam mais de 50% do mercado mundial.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 148)

A AÇÃO REVOLUCIONÁRIA DO PROLETARIADO SERÁ SEMPRE INOVADORA?

Herdamos do marxismo uma ideia válida nos tempos de Marx, mas hoje errada. A ideia de que a ação revolucionária do proletariado seja sempre inovadora. Nos tempos de Marx era verdade: a tendência do capitalismo era de máxima acumulação, de manter  os salários baixos para obter maiores lucros. Assim, o empresário da época de Marx tendia a empobrecer o ciclo econômico, a difundir mais miséria.

Reivindicar um maior salário significa uma redistribuição de riqueza, que em seguida transformava-se em maior consumo, com benefício para toda a sociedade. Por isso estamos habituados a pensar que tudo aquilo que é feito pela classe dirigente é conservador, e tudo o que é  feito pelo proletariado é progressista.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 138 e 139)

INFORMAÇÃO É PODER

Entre todas as áreas subdesenvolvidas, as primeiras a realizar o salto poderiam ser áreas como o sul da Itália ou como parte do Brasil, materialmente pobres mas culturalmente ricas. Não têm dinheiro, mas já absorveram ideias do rádio, da televisão, da universidade. O Vale do Silício, na Califórnia, tinha uma condição parecida no passado, quando era uma área deprimida economicamente, mas próxima de grandes centros universitários como os de San Diego ou Santa Barbara: seus jovens eram pobres, mas diplomados em Informática ou Biologia. O Vale do Silício passou, em poucos anos, do rural ao pós-industrial, sem jamais ter sido industrial e, portanto, sem ter tido que enfrentar, vencer e superar a cultura industrial e suas resistências às mudanças. E tornou-se uma área riquíssima.

Na sociedade industrial, o poder dependia da posse dos meios de produção (fábricas). Na sociedade pós-industrial, o poder depende da posse dos meios de ideação (laboratórios) e de informação (comunicação de massa). A América é potente não porque possua a Ford ou a Microsoft, mas porque possui universidades, laboratórios de pesquisa, o cinema e a CNN. A Microsoft é muito mais importante pela sua pesquisa do que pela sua produção.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 134 e 136)

1 de julho de 2014

A QUEDA DO POTENCIAL DE CONFLITO

Eu estaria louco se negasse que existe ainda uma massa numerosa de operários e trabalhadores manuais. A questão é que eles não encarnam mais problemas universais, deixaram de ser uma "força revolucionária" e não são mais "centrais" na estratégia para que se consiga pôr fim à exploração. Esta estratégia passa, agora, sobretudo pela mão de obra do terceiro mundo e pela "mente de obra" do primeiro mundo.

De todo modo, o fato é que o trabalho manual não aumenta e sim diminui, enquanto o intelectual aumenta. Como eu já disse, nos tempos de Marx, de cada cem dependentes de uma fábrica, noventa e seis eram operários e só quatro eram executivos. Hoje, num grande número de empresas, noventa são executivos e só dez, operários. O trabalho manual dentro das empresas é sempre mais delegado às máquinas, o que, além de ser economicamente conveniente, reduz o potencial de conflitos.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 106)

OS CINCO PRINCÍPIOS AXIAIS DA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

Em primeiro lugar, a passagem da produção de bens à produção de serviços. Em segundo, a crescente importância da classe de profissionais liberais e técnicos em relação à classe operária. Em terceiro, o papel central do saber teórico ou, como dirá Dahrendorf mais tarde, o primado das ideias. Em quarto lugar, o problema relativo à gestão do desenvolvimento técnico: a tecnologia tornou-se tão poderosa e importante, que não pode mais ser administrada por indivíduos isolados e, em alguns casos-limite, nem mesmo por um só Estado. Em quinto, a criação de uma nova tecnologia intelectual, ou seja, o advento das máquinas inteligentes, que são capazes de substituir o homem não só nas funções que requerem esforço físico, mas também nas que exigem um esforço intelectual.

Estes são o que Bell [Daniel Bell] chama os "cinco princípios axiais" da nova sociedade.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 114 e 115)

ATIVIDADES DO FUTURO

"O futuro", publicou a Newsweek, "pertence àqueles que serão mais capazes de usar as próprias cabeças do que as próprias mãos", ou seja, a pessoas que se dedicarão à análise de sistemas, à pesquisa científica, à psicologia, ao marketing, às relações públicas, ao tratamento da saúde, à organização de viagens, ao jornalismo e à formação, isto é, educação nos campos que acabei de enumerar. Estas são as atividades do futuro, em lugar da guerra, do petróleo ou da fabricação de geladeiras.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 111)

LOTERIA: A BOLSA DE VALORES DOS POBRES

Para quem não joga na bolsa foi inventada uma engrenagem igualmente aleatória e voraz para drenar o dinheiro das pequenas poupanças: a Loto, a Loteria Esportiva e uma gama inteira de jogos que servem de Bolsa de Valores dos pobres. Representam uma bolsa gerida diretamente pelo Estado, que arrecada bilhões a cada ano, acalentando o sonho de todo cidadão: virar, da noite para o dia, sem esforço e risco, um novo tio Patinhas.

Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pag. 98)

UMA BREVE HISTÓRIA DAS PRIVATIZAÇÕES

Durante setenta anos perdurou a disputa entre dois sistemas econômicos e políticos, o comunismo e  o capitalismo. A queda do Muro de Berlim sancionou a vitória do segundo, que com isso adquiriu um excesso de confiança eufórica em relação ao livre mercado, à concorrência e à competitividade. Os últimos dez anos do século XX serão recordados como o período mais influenciado pelo liberalismo.

Os capitalistas aperfeiçoaram no mundo todo uma estratégia precisa, guiados por Reagan, nos EUA, e por Thatcher, na Grã-Bretanha. Com uma grande uso da mídia, elaboraram uma campanha para atacar tudo que é público: burocracia, empresas estatais, transportes, previdência social e ensino. Obtiveram assim a privatização dos setores mais lucrativos da economia e compraram a baixo preço as ações das sociedades privadas: companhias de transporte ferroviário, eletricidade, telecomunicações, tudo aquilo de maior valor dos patrimônios estatais. Como se não bastasse, fizeram de forma a receber de volta o dinheiro que tinham pago ao Estado, na forma de incentivos fiscais ou empréstimos a baixo custo e com prazos a perder de vista. Depois disso, começaram a reduzir os custos nessas empresas privatizadas, realizando fusões e demitindo empregados. Em poucas palavras, a este maior ganho dos empregadores correspondem uma grande diminuição da receita estatal, um aumento do desemprego e um decréscimo da qualidade de vida dos trabalhadores. Desta maneira, acumularam quantias imensas de dinheiro, usando inclusive a desculpa de que as grandes somas são indispensáveis para realizar investimentos produtivos e voltar assim a aumentar a oferta de empregos. Mas na verdade, tanto nos Estados Unidos como na Europa, os investimentos privados diminuíram, em vez de aumentar.

E mais ainda, sejam de direita, sejam de esquerda, os ministros responsáveis pela área econômica continuam a ter esperanças de que o desemprego possa ser debelado com a clássica arma dos novos investimentos e para isso fazem a corte aos empresários. Apesar disso, os empresários investem cada vez menos e, quando o fazem,  preferem jogar na Bolsa, comprar um robô ou abrir uma fábrica num país do terceiro mundo.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 96, 97, 99 e 101)

UM ALVORECER DO PROGRESSO

O produto interno bruto do planeta aumenta a um índice superior a 3% ao ano. E a riqueza atinge até mesmo as zonas mais pobres: talvez sob a forma de remédios e alimentos com a validade vencida, ou ainda sob a forma de anticoncepcionais. Enquanto os países ricos continuam a progredir, existem alguns países que eram pobres no passado e entraram numa via muito rápida para o desenvolvimento: na Coreia, Cingapura, Taiwan e Malásia, o perfil do PIB, que já dura alguns anos, registra um aumento anual de 10%.

São países que hoje se acham numa situação equivalente à da Inglaterra do século XIX, com a mesma exploração dos trabalhadores. Posso parecer cínico, mas isso significa, mesmo assim, um alvorecer do progresso. Até porque, em relação à velha Inglaterra, esses países vivem um outro tipo de desenvolvimento, além do industrial: o desenvolvimento dos meios de comunicação, graças ao qual podem ter notícias e ser informados, em tempo real, sobre o que acontece em outras partes do planeta. Desse modo, os conflitos de classe que sacudiram a Coreia, dez anos depois do início da sua industrialização, são mais ou menos equivalentes aos que sacudiram a Inglaterra, cem anos depois da invenção da máquina a vapor: diminui o tempo que dura a exploração, assim como aquele necessário para que se deflagre a rebelião.

A questão é que as exigências dos países ricos mudaram: antes precisavam de matéria-prima, agora necessitam de mão de obra e mercado para suas exportações. É exploração? Sem dúvida. Mas, apesar disso, é uma exploração inferior à exploração colonial, na qual as grandes potências se apropriavam das matérias-primas e reduziam as populações nativas à escravidão. Representa, portanto, uma melhora, nem que seja pelo simples motivo de que o trabalho é de alguma forma remunerado.

A única coisa certa é que o primeiro mundo comprará, cada vez mais, o esforço humano do terceiro mundo e ainda pagará baixos salários por ele.

Em 1992, o salário anual de um simples empregado de meio expediente da Nike, nos Estados Unidos, era superior à soma dos salários de todas as moças da Indonésia que no mesmo período tinham trabalhado nas empresas fornecedoras da Nike americana. Nos últimos vinte anos, a Nike transferiu suas fábricas primeiro para a Coreia e Taiwan e, depois, quando os trabalhadores desses países começaram a se sindicalizar, para a China e para a Tailândia, onde os salários são ainda mais miseráveis.

Na Itália, uma hora de trabalho custa vinte e quatro dólares, no Brasil, doze, em Cingapura, sete, na China, um, e na Malásia, sessenta e cinco centavos de dólar.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs 90, 91, 92 e 93)

PROGRESSO TECNOLÓGICO

A mudança assusta sempre. E assusta tanto mais quanto mais se aproxima do âmbito genital, no sentido etimológico da palavra, isto é, da origem da vida. Parece-nos a violação de uma esfera sagrada, porque desconhecida. Imaginar que até o amor, que é uma emoção, possa depender de fatores bioquímicos atormenta todo aquele que tenha escolhido o atalho explicativo feito de sagrado e mistério. Afirmar que "tudo depende de Deus" é uma explicação cômoda: não há nada que deva ser feito, pode-se cruzar os braços. Em muitas culturas, transforma-se em fatalismo. Tome, por exemplo, as testemunhas de Jeová, que afirmam: "A saúde me vem de Deus, se ele quiser me salva, portanto não devo interferir com tratamentos, nem transfusões."

No entanto, a história da humanidade é a história da intervenção humana na natureza para domá-la. Para isto desviamos rios, inventamos o para-raios, casas e remédios. Há quem veja e tema nessa domesticação a sua dimensão aterrorizante. Outros, no entanto, e eu me encontro entre eles, valorizam a sua dimensão salvadora. Não excluo os perigos do progresso tecnológico, porém dou mais peso aos seus aspectos positivos. Por exemplo, o fato de o homem ter conseguido duplicar a duração da própria vida me parece uma conquista extraordinária. E como teria realizado tal feito sem o auxílio tecnológico?


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 85 e 86)