14 de abril de 2016

MONOPÓLIO: TÁTICAS DE PERPETUAÇÃO (2/2)

Os textos de economia afirmam que a ineficiência do monopólio vem de sua tendência a restringir o fornecimento e aumentar os preços [As tentações de tamanho e monopólio se originam de um interesse em administrar um sistema totalmente integrado e controlar todas as fontes possíveis de receita249]. As regras do Truste não controlavam apenas os preços, mas a própria natureza do que poderia ser o cinema como meio criativo [As "leis antitruste deveriam ser aplicadas no sentido de garantir que os mecanismos regulatórios não possam se tornar um paraíso para escapar da concorrência"227]. Numa indústria da informação, o custo do monopólio não pode ser medido apenas em dólares, mas também nos seus efeitos sobre a economia de ideias e imagens, restrições que podem, em última análise, chegar à censura. [Não se deve subestimar a capacidade de uma indústria entrincheirada para evitar o perigo da inovação. A inovação da forma de expressão não é algo que se pode patentear, tampouco a criatividade é quantificável de modo satisfatório204/205]. Mas o papel do Estado, embora significativo, não pode ser comparado ao poder da indústria para censurar a expressão ou reprimir a criatividade. Embora sejam inegáveis as realizações dos anos 1930 em termos de estrutura, é essencial compreender o que foi reprimido, cerceado ou censurado pelo novo sistema se quisermos entender o que estava em jogo - e ainda está.

A AT&T acreditava fervorosamente que a secretária eletrônica e suas fitas magnéticas fariam com que o público abandonasse o telefone. Era mais seguro ocultar uma instigante linha de pesquisa que arriscar o sistema Bell. Essa é a fragilidade essencial de uma abordagem centralizada da inovação. Sim, os Laboratórios Bell eram excelentes. Mas a AT&T, como inovadora, sofria de uma grave deficiência genética: não podia gerar tecnologias que ameaçassem o sistema Bell, por mais remota que fosse essa possibilidade. Na linguagem da teoria da inovação, a produção dos Laboratórios Bell era restrita a invenções sustentáveis; tecnologias de ruptura, que lançassem qualquer sombra de incerteza sobre o modelo de negócio, simplesmente estavam fora de questão. A fragmentação da Bell lançou as bases de todas as importantes revoluções na comunicação a partir dos anos 1980. [Seu desmembramento tem consequências específicas. Em geral, os resultados positivos são retardados ou imprevisíveis, enquanto os negativos são óbvios e imediatos]. [Fossem quais fossem as consequências imediatas, a decisão contra a Pamamount provocou uma transformação no cinema americano como instituição cultural, lançando a indústria de volta ao estado de abertura em que ela havia surgido nos anos 1920. Como Arnold esperava, a autonomia dos exibidores abriu caminho para que os produtores independentes e até os cineastas estrangeiros, há muito excluídos, vendessem seus filmes diretamente aos cinemas. Os méritos de um desmembramento não podem ser reduzidos a seus efeitos sobre os preços para o consumido, que podem demorar a baixar em meio à ineficácia e ao caos das consequências imediatas. Mas quem pode negar que há custos tangíveis na censura? É profícuo indagar se Hollywood seria o inigualável produto de exportação cultural que se tornou se a indústria não tivesse se aberto a toda variedade de tendências e ideias que uma sociedade pluralística tem a oferecer202/203/205]. Não havia como saber que trinta anos depois teríamos a internet, computadores portáteis e redes sociais, mas é difícil imaginar a emergência desses fatores enquanto a empresa que escondeu a secretária eletrônica permanecia intacta.

Levariam alguns anos para que esses inconvenientes fossem removidos pelos frutos da inovação. Por outro lado, quando as novidades antes barradas pelo sistema Bell começaram a aparecer, isso não foi em gotas, mas numa verdadeira maré nas áreas de computação, aparelhos, redes de comunicação e tudo mais que veio a definir a economia da informação nos últimos trinta anos. Há uma inegável eficácia na ação de um monopólio que se aperfeiçoa no que faz, seja na distribuição de certos tipos de filmes, seja no fornecimento de um serviço telefônico universal. O que essa máquinas bem-azeitadas não realizam tão corretamente, no entanto, é dar início ao tipo de destruição criativa que revoluciona os setores e acaba multiplicando o valor e a produtividade. Onde a informação é a mercadoria final, o efeito multiplicador é incalculavelmente maior. É demais pedir a qualquer entidade corporativa - vide Theodore Vail - para ser a guardiã do bem econômico geral. Esse interesse sempre será atendido por inovadores diruptivos, por maiores que sejam os transtornos que eles nos acarretem236/237.

O fundamento do desmembramento de indústrias vem da ideia de Thomas Jefferson, de que revoluções ocasionais são importantes para a saúde de qualquer sistema. Como ele escreveu em 1787: "Uma pequena rebelião de vez em quando é uma coisa boa, e tão fundamental no mundo político como as tempestades no mundo físico. ... É um remédio necessário para a boa saúde do governo."

Os privilégios que a AT&T usufruía como monopólio sancionado pelo governo, com preços por ele estabelecidos, eram encarados como uma espécie de recompensa pela contribuição que dava à pesquisa básica, atividade em geral financiada pelo Estado na maioria dos países. Dito de outra forma, nos Estados Unidos, os preços mais altos para o consumidor, decorrentes do monopólio, eram na verdade uma espécie de imposto que os americanos pagavam para financiar a pesquisa básica.

A ideia central era controlar o maior número possível de partes do negócio. Na produção de aço, isso significaria possuir minas, trens e fábricas. Nos filmes, exigia ser dono dos talentos - atores, diretores e escritores -, bem como de estúdios, redes de distribuição e, em última análise, dos cinemas.

No fim dos anos 1910, os cinemas independentes rejeitaram de maneira drástica a obrigação de comprar filmes que não queriam. Os estúdios começaram a insistir na defesa à qual eles sempre se aferrariam depois: a venda em lotes era simplesmente uma forma de venda em bloco, de que depende qualquer indústria moderna de escala. Realizando operações grandes e modernas, não se poderia esperar que os estúdios moldassem seus cardápios ao gosto de milhares de teatros independentes. Será que as vendas em lote eram uma coisa tão ruim? Por que os exibidores se opunham a ela de forma tão veemente? Porém, os cinemas denunciavam que as vendas em lote eram um dispositivo que só servia para coagi-los a comprar filmes de terceira categoria em troca de alguns poucos filmes bons. Os cinemas tinham perdido a palavra decisiva sobre como conduzir seu negócio e também o poder cultural de curadoria: promover o gosto e certos pontos de vista, adaptar suas programações às audiências regionais.

Podemos entender perfeitamente bem o quanto a venda em lotes e a integração vertical reduziam o custo de produção, mas nada compreendemos do significado dessas inovações para os filmes como forma de expressão. É interessante notar que, quando se trata de produtos como filmes, elementos tais como "custos de busca mais altos"* talvez sejam uma coisa boa, se o resultado for a maior variedade do que pode ser visto ou ouvido. As consequências culturais diretas seriam profundas: duas redes (depois três) determinariam a mídia que definiria os Estados Unidos, oferecendo uma programação destinada às massas, homogênea em termos de gosto do público, sem iniciativa e nada instigante, seguindo por definição o modelo imperativo do "entretenimento que vende".

* Há "custo de busca" quando o consumidor desconhece o vetor dos preços do produto que vai comprar.


Tim Wu (Impérios da Comunicação; págs: 86, 109, 116, 117, 119, 126, 132, 133, 134, 170, 198, 199, 202, 203, 204, 205, 227, 236, 237 e 249)

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