23 de junho de 2016

"CRIAR UM HERÓI PARA DEPOIS MATÁ-LO"

O SEG propôs um contrato de três lutas, mas Rorion manteve-se firme: só negociava uma de cada vez: "Eles queriam botar uma luta fácil aqui, outra fácil ali e, na terceira, uma pesada para arrebentar o Royce. Criar um herói para depois matá-lo", conta. Meyrowitz sabia que, com o contrato de uma luta, Rorion pediria uma bolsa maior a cada vitória do irmão.


Fellipe Awi (Filho Teu Não Foge à Luta; pág: 192)

20 de junho de 2016

"ESPERE MENOS, AME MAIS"

Acredito que as frustrações das pessoas, o desânimo, sempre "estar aquém", vontade de desistir em diversas áreas da vida - trabalho, religião, relacionamentos, família - nascem de suas idealizações, expectativas exageradas, o desejo por uma situação ideal. E ainda por cima, o jogo de aparências da sociedade nos faz sentir que estamos ficando para trás, perdendo algo, fracassando em muitos aspectos. Mas deixa eu contar um segredo: há muita encenação, mito, mascaramento nas pessoas que vemos passar. "A grama do vizinho é mais verde", diz o ditado popular. Pessoa "bem resolvida" é um mito. Bem resolvida é a pessoa que já morreu. Casais bem resolvidos, filhos bem resolvidos, mãe bem resolvida, pai bem resolvido, relacionamentos bem resolvidos...tudo isso é um mito que nos enche de uma culpa indevida. Nós somos seres humanos, frágeis tentando dar conta da sobrevivência, da criação, da educação, da espiritualidade. Tudo o que conseguimos ser é humanos. E esse é o pé de igualdade do rico, do pobre, do casado, solteiro, viúvo, desquitado, da mãe/pai solteiro, do filho, adolescente. De perto, todos nós somos um lindo drama. Uma história complexa, rica, cheia de potencialidades. E nessa caminhada podemos ter a graça de encontrar pessoas humanizadas. Podemos ser a graça de pai, mãe, parceiros, filhos, irmãos humanizados, que não esperam do outro mais do que nós mesmos podemos dar. Siga o conselho de Nietzsche "espere menos, ame mais". O melhor lugar é onde você está. Você pode fazer o ambiente. O tempo com seus queridos, ainda que seja pouco, pode ter a qualidade de uma eternidade se você não esperar mais nada. Você pode fazer as pazes com sua história, com suas contradições, com seus fracassos, com sua personalidade, com seu jeito esquisito, com suas manias. Quem disse que você precisa ter um "perfil ideal" para ser feliz, aceito, amado? Todos nós, feios, bonitos, altos, baixos, magros, gordos, tímidos, carismáticos, "pavio curto", culto, indouto, enrolados em nossas fragilidades somos dignos de amor e perdão. Não se culpe por ser humano! Ao seu lado você pode encontrar um outro humano e compartilhar a vida.

Talvez maturidade não seja mais do que ir se reconciliando com a vida, consigo mesmo, com as relações, com o tempo. Na era do descartável desistimos facilmente das pessoas, mas o perdão é uma doce janela para um novo horizonte. Mas reatar algumas relações talvez seria mais violento, forçar a barra. Definitivamente, na estrada colhemos tb desafetos. Reconciliação seria mais do que fazer as pazes num amor fofo. Seria acolher a imperfeição minha, do outro, respeitar os limites. Lamentar o que não foi e seguir sem ressentimentos, livres da amargura. A "química" com fulano não rolou. Que pena, mas não deveria ser obrigação. Percebo que cicrano se esforça em ser meu amigo, mas eu não tenho a mínima identificação. Paciência. A essa altura da vida "tal guinada" seria mto improvável. Melhor reinventar a vida dentro dos limites q me restam. Eu tinha tudo para ser amigo de beltrano, mas ele se desencontrou com minha esposa e nos inviabilizou. Chato, mas acontece! Fui rejeitado. Quem me rejeitou não tem a versão definitiva de mim. Coragem de ser! Tal projeto deu em água e areia. Que pena, era tão lindo! Mas vou virar a página e escrever outro capítulo. Se uma esperança não deu, mudo de esperança! Aquela pessoa não se afeiçoa a nada do que faço; não concorda, não me aceita. Bola pra frente. Ninguém é unânime! Alguém me deu as costas porque divergimos ideologicamente, na religião, esporte, política, visão de mundo. Adeus! A vida me sorriu amarelo, me aprontou uma peça, me brindou com tragédia; levou o melhor de mim... Calma! Aviões caem, pessoas morrem... Mais determinante do que a vida lhe fez, é o que vc fará com o que a vida lhe fez! Percebo que meu pai/mãe tem uma relação mais fluente e cúmplice com meu irmã. Normal. Mas me apego docemente as nossas memórias em comum! Meu parceiro é atrapalhado no amor, não foi exatamente isso que idealizei. Mas ele tem outras linguagens que, se eu esperar menos e amar mais, me sentirei mais amado. Percebi que eu sou um mosaico de contradições, ambivalência. Dane-se! Vou procurar viver da melhor maneira a equacionar essas ambiguidades pq a expressão "bem resolvido" cai bem para quem já morreu, não para um vivo. Para se reconciliar com a vida, aprender a se despedir.


10 de junho de 2016

TRANSFORMAR EM DEUS

O que sei sobre a vida eterna é que ela é para ser um presente, e presente a gente não deve cobrar e não deve esperar. O mesmo, você deve entender, posso dizer desta vida. A vida futura que deve me ocupar é o momento seguinte, porque o momento seguinte depende do que faço neste. Salvar as pessoas ou transformar o mundo? Se você pensar, qualquer um desses seria fácil demais, porque tanto o mundo quanto as pessoas estão fora de mim; a metamorfose deles nada exige de mim e para mim nada implica além daquilo em que me beneficia. O desafio do legado de Jesus é eu transformar a mim mesmo. É natural que transformando a mim mesmo estarei transformando o mundo, mas essa não é a questão. A alma que me cabe salvar continuamente é a minha.

Paulo Brabo


A mente que está viva em Jesus, a mente que ele requer de nós, está enraizada e fundamentada no conhecimento de que uma única coisa é boa, uma vontade direcionada à comunhão de seres conscientes de si mesmos — em outras palavras, amor. Essa mente, de acordo com a explicação que Jesus fornece do amor, é vontade uniforme, independente e inesgotável. Seu ponto culminante é a percepção de que esta vontade é poder sobre todas as coisas: é Deus.

Adolf Harnack (Ensaios Sobre o Evangelho Social)

9 de junho de 2016

PRA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

Gosto muito, para minha vergonha, do jeitão do brasileiro (digo “jeitão” no esforço de evitar abstrações ainda maiores, abominações como “povo brasileiro”). Não quero defender e não tenho como justificar o nosso desempenho econômico e político, mas não são esses, deixo logo claro, os quesitos que levo em conta na minha avaliação.

Devo admitir, por outro lado, que não há como separar uma coisa da outra: é nosso jeitão como povo que determina em última instância a natureza – peculiar, para dizer pouco – do nosso desempenho econômico e político. Não vou dizer que para se produzir um país verdadeiramente bem-sucedido nas arenas econômica e financeira requer-se um povo tão insuportável quanto o norte-americano – mas, pensando bem, acabei de dizer. Para se gerar um país improvável como o Brasil, um imenso e sublimado Portugal, um gigante marginal, pacato, generoso, reflexivo e submisso, requer-se um povo tão absurdo e tão impagável quanto o nosso.

No desenrolar do enredo étnico, nos anais da destilação dos povos, o brasileiro é talvez o resultado mais prodigioso. Por todos os testemunhos que contam (o meu), o mais inclassificável, mais redundante e subutilizado; ao mesmo tempo o mais e o menos presunçoso de todos.

O paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história. Deixamos, em quinhentos anos, pegada nenhuma que não seja de chuteira. Nenhuma bandeira fincada, nenhum número importante, nenhum nome de destaque, nenhuma causa exageradamente meritória, nenhuma revolução de monta, nem um conflito que mereça lugar nas crônicas do futuro. Mais ou menos como Portugal na periferia da Europa, passamos nossa história sem quaisquer ocorrências especiais, à margem do que acontece no resto mundo – porque, por definição, nada acontece no Brasil. Se acontece, foi fora daqui.

Somos uma nação de voyeurs, um dos povos mais bem informados do mundo, mas residentes no mirante dos fatos alheios, sobrevivendo com injeções regulares de cinema e noticiários estrangeiros. Como o Popular da crônica de Veríssimo, somos o curioso que aparece em segundo plano quando alguém está dando uma entrevista na rua a um repórter de televisão. É sempre “o outro” que opina, não a gente: como diz o outro. Somos meros observadores desinteressados no meio dessa confusão.

Assistimos com perplexidade ao desfile de problemas internacionais, na bem-intencionada tentativa de compreender o que na nossa ótica faz pouco ou nenhum sentido. Pois, aparentemente, nenhum dos conflitos que impulsionam as agendas internacionais nos movem ou nos dizem respeito: o partidarismo, o fanatismo religioso, a ambição territorial, a devoção a idéias, as obsessões éticas. Nenhum desse motores nos motiva ou nos faz seguir adiante. Somos literalmente hours-concours, fora da competição – cem milhões de personagens complexos perdidos num enredo sem conflito, reclinados com enfado e alguma volúpia na proverbial mas apropriada imagem do berço esplêndido. Eternamente.

Sem virtude, mas também sem ambição. Talvez estejamos nos preservando para um momento em que nossos recursos especiais sejam realmente necessários. Como o personagem de Chico Buarque, passamos pela vida nos reservando para ocasião oportuna.

Quem me vê sempre parado, distante,
garante que eu não sei sambar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo,
escutando, não posso falar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando,
pisando, pensando que eu vou aturar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida
duvida que eu vá revidar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar.


8 de junho de 2016

O QUE ME ENTRISTECE



Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que eu não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que eu não causei

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que quero me suprime
Do que por não saber ainda não fiz

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que eu não sofrí


Raimundo Fagner (Jura Secreta)

7 de junho de 2016

A CENSURA DO "BEM"

Mamonas Assassinas

Se os Mamonas Assassinas aparecessem hoje provavelmente, não teriam carreira. Algum membro do Ministério Público careta e autoritário teria proibido muitas de suas letras em nome do bem e do “respeito” a algum grupo de ressentidos. Aliás, bem no espírito iconoclasta dos Mamonas, eu diria que ficamos tão atentos a “censura do mal”, que esquecemos que a censura sempre se vê como sendo do bem. O mal político sabemos identificar mas hoje é o bem político que se traveste de cordeiro pra corroer a liberdade de expressão. Todo o mundo com medinho. Muita gente que atua no mundo público da cultura e do pensamento hoje é medrosinho. Pra garantir a janta e a foto, só diz o que todo mundo bacana quer ouvir. E gente bacana é sempre gente boba.

As letras dos Mamonas são, hoje, um documento histórico. “Minha pistola é de plástico (quero chupar-pa) ... Tem gay que é Mohamed tentando camuflar” (Robocop Gay). Já aqui alguém teria gritado em nome de duas “minorais oprimidas”, gays e muçulmanos. Suas letras são um documento histórico de como o Brasil encaretou. Mais vinte anos e a mediocridade será absolutamente correta. Nas escolas ninguém mais respirará, nas universidades já não se respira, na mídia teremos apenas “causas” a defender e nenhum conteúdo a se produzir.

O mundo artístico vai, aos poucos, virando um espaço sem atmosfera, onde não se tem ar pra respirar porque (quase) todo o mundo está preocupado com política e militância. Nelson Rodrigues anteviu isso quando dizia que todo artista ruim tem uma causa, mas nenhuma obra de fato. Se não bastasse ser apenas um horror por si só, isso tudo é também brega. Artista que quer ser “do bem” é, na verdade, um mau artista. Assim como poesia sincera é sempre poesia ruim, como pensava Oscar Wilde, que se vivesse hoje, seguramente, vomitaria em cima dos politicamente corretos.

E que tal esse trecho da música “Lá vem o alemão”:

"Toda vez que eu lembro de você
Me dá vontade de bater, te espancar
Oh meu amor
Só porque ele é lindo, loiro e forte
Tem dinheiro e um Escort
Como modess você me trocou"

A histeria seria plena. Estímulo a violência! Preconceito contra pobre, pretos e fracos! Falta de respeito com a menstruação! Enfim, assim como o Escort, como carro chique, atesta o passado em que viveu os Mamonas, suas letras atestam que hoje todo o mundo tem medo de todo mundo. Isso é sintoma de censura, só besta e mentiroso não vê.


Luiz Felipe Pondé

PARA QUANDO EU ME FOR

Morrer é uma surpresa. Sempre. Nunca se espera. Nem mesmo o paciente terminal acha que vai morrer hoje ou amanhã. Na semana que vem talvez, mas apenas se a semana que vem continuar sendo na semana que vem. Nunca se está pronto. Nunca é a hora. Nunca vamos ter feito tudo o que queríamos ter feito. O fim da vida sempre vem de surpresa, fazendo as viúvas chorarem e entediando as crianças que ainda não entendem o que é um velório (Graças a Deus).

Com meu pai não foi diferente. Na verdade, foi mais inesperado. Meu pai se foi com 27 anos, a idade que leva muitos músicos famosos. Jovem. Moço demais. Meu pai não era músico nem famoso, o câncer parece não ter preferência. Ele se foi quando eu ainda era novo, descobri o que era um velório justamente com ele. Eu tinha 8 anos e meio, o suficiente pra sentir saudade pelo resto da vida. Se ele tivesse morrido antes, não existiriam lembranças. Nem dor. Mas também não haveria um pai na minha história. E eu tive um pai. Tive um pai que era duro e divertido. Que me colocava de castigo com uma piadinha pra não me magoar. Que me dava um beijo na testa antes de dormir. Hábito esse que eu levei para os meus filhos. Que me obrigou a amar o mesmo time que ele e que explicava as coisas de um jeito melhor que a minha mãe. Sabe? Um pai desses que faz falta. Ele nunca me disse que ia morrer, nem quando já estava deitado cheio de tubos. Meu pai fazia planos para o ano que vem mesmo sabendo que não veria o próximo mês. No ano que vem iríamos pescar, viajar, visitar lugares que nenhum de nós conhecia. O ano que vem seria incrível. Eu vivi esse sonho com ele. Acho, tenho certeza na verdade, que ele pensava que isso daria sorte. Supersticioso. Pensar no futuro era o jeito dele se manter otimista. O desgraçado me fez rir até o final. Ele sabia. Ele não me contou. Ele não me viu chorar a sua perda. E de repente o ano que vem acabou antes de começar.

Minha mãe me pegou na escola e fomos ao hospital. O médico deu a notícia com toda a sensibilidade que um médico deixa de ter com os anos. Minha mãe chorou. Ela também tinha um pingo de esperança. Como disse antes, todo mundo tem. Eu senti o golpe. Como assim? Não era só uma doença normal dessas que a gente toma injeção? Pai, como eu te odiei. Você mentiu pra mim. Não fiquei triste, pai, fiquei com raiva. Me senti traído. Gritei de raiva no hospital até perceber que meu pai não estava lá pra me colocar de castigo. Chorei. Mas aí meu pai foi meu pai de novo. Trazendo uma caixa de sapato debaixo dos braços, uma enfermeira veio me consolar. Dentro, dezenas de envelopes lacrados com frases escritas onde deveriam ficar os nomes dos destinatários. Entre as lágrimas e os soluços não consegui entender direito o que estava acontecendo. E então a mesma enfermeira me entregou uma carta. A única fora da caixa.

Seu pai me pediu pra entregar essa pessoalmente e te dizer pra abrir. Ele passou a semana inteira escrevendo tudo isso e disse que era pra você. Seja forte”. Disse a enfermeira com um abraço.

PARA QUANDO EU ME FOR dizia o envelope que ela me entregou. Abri.

Filho,
Se você está lendo eu morri. Desculpa, eu sabia.

Não queria te dizer que ia acontecer, não queria te ver chorar. Parece que consegui. Acho que um homem prestes a morrer tem o direito de ser um pouco egoísta. Bom, como eu ainda tenho muito pra te ensinar, afinal você não sabe de nada, deixei essas cartas. Você só pode abrir quando o momento certo chegar, o momento que eu escrevi no envelope. Esse é o nosso combinado, ok?

Eu te amo. Cuida da sua mãe, você é o homem da casa agora.

Beijo, pai.

PS: Não deixei cartas para sua mãe, ela já ficou com o carro.

E com aqueles garranchos, afinal naquela época não era tão fácil imprimir como é hoje em dia, ele me fez parar de chorar. Aquela letra porca que uma criança de 8 anos mal entendia (eu, no caso) me acalmou. Me arrancou um riso do rosto. Esse era o jeito do meu pai de fazer as coisas. Que nem o castigo com uma piadinha para aliviar. Aquela caixa se tornou a coisa mais importante do mundo. Proibi minha mãe de abrir, de ler. Mas elas eram minhas, só pra mim. Sabia decorado todos os momentos da vida em que eu poderia abrir uma carta e ler o que meu pai tinha deixado. Só que esses momentos demoraram muito pra chegar. E eu esqueci. Sete anos e uma mudança depois eu não tinha ideia de onde a caixa tinha ido parar. Eu não lembrava dela. Algo que você não lembra não faz falta. Se você perdeu algo da sua memória, você não perdeu. Simplesmente não existe. Como dinheiro que depois você acha no bolso da bermuda. E então aconteceu. Uma mistura de adolescência com o novo namorado da minha mãe desencadeou o que meu pai sabia que um dia aconteceria. Minha mãe teve vários namorados, sempre entendi. Ela nunca casou de novo. Não sei ao certo o motivo, mas gosto de acreditar que o amor da vida dela tinha sido meu pai. Mas esse namorado era ridículo. Eu sentia que ela se rebaixava pra ele. Que ele fazia pouco da mulher que ela era. Que uma mulher como ela merecia algo melhor do que um cara que ela tinha conhecido no forró. Me lembro até hoje do tapa que veio acompanhado da palavra “forró”. Eu mereci, admito. Os anos me mostraram isso. Na hora, enquanto a pele da minha bochecha ardia, lembrei da minha caixa e das minhas cartas. De uma carta em específico que dizia PARA QUANDO VOCÊ TIVER A PIOR BRIGA DO MUNDO COM A SUA MÃE.

Corri para o quarto e revirei minhas coisas o suficiente para levar outro tapa na cara da minha mãe. Encontrei a caixa dentro de uma mala de viagem na parte de cima do armário. O limbo. Procurei entre os envelopes. Passei por PARA QUANDO VOCÊ DER O PRIMEIRO BEIJO e percebi que havia pulado essa, me odiei um pouco e decidi que a leria logo depois, e por PARA QUANDO VOCÊ PERDER A VIRGINDADE, uma que eu esperava abrir logo, logo. Achei o que procurava e abri.

Pede desculpa.

Eu não sei o motivo da briga e nem quem tem razão. Mas eu conheço a sua mãe. Então a melhor maneira de resolver isso é com um humilde pedido de desculpas. Do tipo rabinho entre as pernas. Ela é sua mãe, cara. Te ama mais do que tudo nessa vida. Sabe, ela escolheu parto normal porque alguém disse que era melhor pra você. Você já viu um parto normal? Pois é, quer demonstração de amor maior que essa? Pede desculpa. Ela vai te perdoar. Eu não seria tão bonzinho.

Beijo, pai.

Meu pai passava longe de um escritor, era bancário, mas as palavras dele mexeram comigo. Havia mais maturidade nelas do que nos meus quinze anos de vida. O que não era muito difícil por sinal. Corri para o quarto da minha mãe e abri a porta. Já estava chorando quando ela, chorando também, virou a cabeça pra me olhar nos olhos. Não lembro o que ela gritou pra mim, algo como “O que você quer?”, mas lembro que andei até ela e a abracei, ainda segurando a carta do meu pai. Amassando o papel já velho entre os meus dedos. Ela me abraçou de volta e ficamos em silêncio por não sei quantos minutos. A carta do meu pai fez ela rir alguns momentos depois. Fizemos as pazes e conversamos um pouco sobre ele. Ela me contou umas manias estranhas que ele tinha, como comer salame com geleia de morango. De algum modo, senti que ele estava ali. Eu, minha mãe e um pedaço do meu pai, um pedacinho que ele deixou naquele papel. Que bom.

Não demorou muito e li PARA QUANDO VOCÊ PERDER A VIRGINDADE.

Parabéns, filho.

Não se preocupa, com o tempo a coisa fica melhor. Toda primeira vez é um lixo. A minha foi com a puta mais feia do mundo, por exemplo. Meu maior medo é você ler o envelope e perguntar da sua mãe antes da hora o que é virgindade. Ou pior, ler o que eu acabei de escrever sem nem saber o que é punheta (você sabe, não sabe?). Mas isso também não será problema meu, não é mesmo?

Beijo, pai.

Meu pai acompanhou minha vida toda. De longe, sim, mas acompanhou. Em incontáveis momentos suas palavras me deram aquela força que ninguém mais conseguia dar. Ele sempre dava um jeito de me arrancar um sorriso em um momento de tristeza ou de clarear meus pensamentos num momento de raiva.

PARA QUANDO VOCÊ CASAR me emocionou, mas não tanto quanto PARA QUANDO EU FOR AVÔ.

Filho, agora você vai descobrir o que é amor de verdade. Vai descobrir que você gosta bastante da sua mulher, mas que amor mesmo é o que você vai sentir por essa coisinha aí que eu não sei se é ele ou ela. Sou um cadáver, não um vidente. Aproveita. É a melhor coisa do mundo. O tempo vai passar rápido, então esteja presente todos os dias. Não perca nenhum momento, eles não voltam mais. Troque as fraldas, dê banho, sirva de exemplo. Acho que você tem condições de ser um pai tão incrível quanto eu.

A carta mais dolorida da minha vida foi também a mais curta do meu pai. Acredito que ele sofreu para escrever aquelas quatro palavras o mesmo que eu sofri por ter vivido aquele momento. Demorou, mas um dia eu tive que ler PARA QUANDO SUA MÃE SE FOR.

Ela é minha agora.

Uma piada. Um palhaço triste que esconde o choro por trás do sorriso de maquiagem. Foi a única carta que não me arrancou um sorriso, mas entendi a razão. Eu sempre respeitei o combinado com meu pai. Nunca li nenhuma carta antes do momento certo. Tirando PARA QUANDO VOCÊ SE DESCOBRIR GAY, claro. Nunca acreditei que o momento de ler essa carta chegaria, então abri muitos anos atrás. Ela foi uma das mais engraçadas, por sinal.

O que eu posso dizer? Ainda bem que morri.

Deixando as brincadeiras de lado e falando sério (é raro, aproveita). Agora semimorto eu vejo que a gente se importa muito com coisas que não importam tanto. Você acha que isso muda alguma coisa, filho?

Não seja bobo, seja feliz.

Sempre esperei muito pelo próximo momento. Pela próxima carta. Pela próxima lição que meu pai tinha pra me dar. Incrível como um homem que viveu 27 anos teve tanto pra ensinar pra um senhor de 85 como eu. Agora, deitado na cama do hospital, com tubos no nariz e na traqueia (maldito câncer), eu passo os dedos por cima do papel desbotado da última carta. PARA QUANDO SUA HORA CHEGAR o garrancho quase invisível diz. Não quero abrir. Tenho medo. Não quero acreditar que a minha hora chegou. Esperança, lembra? Ninguém acredita que vai morrer hoje. Respiro fundo e abro.

Oi, filho, espero que você seja um velho agora.

Sabe, essa foi a carta mais fácil de escrever. A primeira que eu escrevi. A carta que me livrou da dor de te perder. Acho que estar perto do fim clareia a cabeça pra falar sobre o assunto. Nos meus últimos dias eu pensei na vida que eu levei. Na minha curta vida, sim, mas que me fez muito feliz. Eu fui seu pai e marido da sua mãe. O que mais eu poderia querer? Isso me deu paz. Faça o mesmo.
Um conselho: não precisa ter medo.

PS: Tô com saudade.


6 de junho de 2016

LINKSTÂNEA (VOL. 30)



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CRÍTICA A UM DETERMINADO FEMINISMO

O feminismo cometeu o erro de acreditar que esse é o futuro, que é isso que buscamos, que buscamos uma redução da masculinidade, para que as mulheres façam essa transição do ambiente de trabalho para casa de forma mais tranquila, mas não estou certa se o total de felicidade humana cresceu devido a essas mudanças. O que estou dizendo é que por milhares de anos existiram o mundo das mulheres e o mundo dos homens, e as mulheres controlavam tudo o que tinha relação com o nascimento, gravidez, elas eram encarregadas da criação dos filhos, de cuidar dos idosos, da cozinha, da casa. Essa divisão natural de trabalho vinha acontecendo desde o período de caça, os homens saíam e faziam as coisas perigosas, caçavam. E as mulheres tinham uma felicidade e uma solidariedade que foi perdida, certo? Isso é o que estou tentando chamar a atenção das mulheres profissionais, o fato de que a sensação de infelicidade neste novo mecanismo do ambiente de trabalho burguês não se deve inteiramente ao sexismo masculino, é devido ao caráter desumanizador do sistema de carreira moderno, que também vitimiza os homens.

[Acho que existe muita base biológica para o comportamento dos sexos que o feminismo atual não reconhece]. Existem certos fatos fundamentais que a atual teoria de gêneros se recusa a reconhecer, que a maioria dos homens tem de 8 a 10 vezes mais o nível de testosterona, o hormônio masculino, que qualquer mulher. Existem diferenças profundas no cérebro que surgem de banhar os tecidos nesse hormônio masculino. Não vejo a testosterona como o inimigo da humanidade como tantas feministas veem. Acho que essa energia ativa e agressiva dos homens criou civilizações. A mulher moderna se beneficiou tremendamente desses grande sistemas que o homem criou. E nesses sistemas protetores nós tomamos o poder, temos uma voz, temos proeminência etc., etc. O homem segue fazendo no mundo todo o trabalho sujo e sem glamour com as mãos. Algo que vi há duas semanas, uma grande rede de esgoto se rompeu numa cidade vizinha e as pessoas que estavam lá fazendo o trabalho sujo eram todos homens.

O feminismo, num período dos anos 1990, era dominado pelo feminismo antipornografia. O argumento delas era que a representação de mulheres nuas causa estupros. Vejo essas mulheres como puritanas fanáticas. Para mim, a pornografia é uma forma de arte, é um artifício, é algo criado, é um mundo de fantasia, de imaginação. E há espaço para dizermos: "Isso é pornografia de boa qualidade e essa é de má qualidade". Mas acredito que a pornografia seja necessária nesta era moderna. Esse mundo higienizado de escritórios onde nada é permitido, quase nenhuma individualidade é permitida. A imaginação sexual é freada, negada, aprisionada e o que a pessoa busca e acha na pornografia. Então, o que ofende tantas mulheres burguesas quando veem pornografia. Elas dizem: "Isso é tão degradante, isso é degradante para as mulheres". Talvez você veja como degradante, mas não pode ver que o código da respeitabilidade burguesa, de sutileza, de limpeza, de propriedade, todas as regras são questionadas e quebradas pela pornografia. Quando vemos essa regra vandalizada, profanada... Qualquer coisa sagrada eventualmente será profanada. No momento em que estabelece algo puro, então, há a necessidade de ter a resposta dinâmica do impuro. Isso é o que acontece na pornografia.

Me rebelei contra a vigilância da administração da faculdade sobre as vidas das alunas. Foi o período do chamado "in loco parentis", ou seja, no lugar dos pais. As administrações das faculdades achavam que tinham a obrigação de supervisionar, de monitorar, proteger as alunas, como não faziam com os alunos, então, tínhamos dormitórios femininos e masculinos. Os homens podiam entrar e sair a qualquer hora da noite, as mulheres tinham de se registrar às 23 horas. Pedimos um fim desta prática. E eles disseram: "O mundo é perigoso, temos a obrigação de protegê-las de estupros". E o que dissemos foi: "Nos deem a liberdade de arriscar", isso é a verdadeira liberdade. Isso foi o que a revolução sexual deu às mulheres: liberdade. Agora o que as mulheres fariam com a liberdade? O feminismo deveria ter escolhido minha visão e dizer: "Agora, você é igual ao homem e deve se proteger como um homem faria. Você deve ver o mundo como perigoso, como um homem faria. Você deve ficar na defensiva e ser ultraconsciente do que está ao seu redor, como um homem faria", pois os homens também são atacados por inúmeras coisas. Homens também são vítimas de crimes. Ao invés disso, temos um processo de mulheres pedindo proteção, um novo paternalismo do governo e, agora, das administrações das faculdades. Querem trazer de volta as figuras paternas em suas vidas sexuais. Isso, para mim, é uma grande falha do feminismo atual. Existem muitas responsabilidades quem vêm com a liberdade e uma delas é você se responsabilizar por sua defesa.

A comunicação e a comunicação sexual, é muito mais que palavras. A comunicação sexual é feita pelo corpo, há uma série de modos não verbais nos quais comunicamos nosso interesse em sexo ou nossa aptidão para o sexo. E um deles é a vestimenta. Me parece que a mulher contemporânea não pensou totalmente na natureza de seu modo de vestir. Digo para as mulheres: "Exponham seus corpos, faça o que quiser, mas estejam preparadas para se proteger, tenham cuidado com os perigos do mundo". Não só o homem de sua própria classe social mas também o mundo das feras primitivas que ainda estão circulando. A natureza humana tem todo tipo de energia primitiva que é suprimida e treinada por meio da força civilizadora, mas muita gente é psicótica, existem muitos psicóticos... Você pode ter 999 homens racionais e haverá um psicótico. Uma mulher deve estar preparada para se proteger do psicótico, porque esse um psicótico pode matá-la, não só estuprá-la, mas matá-la. São monstros que estão soltos, são manifestações vivas de energia diabólicas e primitivas ainda latentes nos seres humanos. É o que o cinema nos mostra. O que argumento é que o feminismo, me parece, tornou-se quase estúpido ao negar que a vestimenta sexual passa uma mensagem sexual.

O que não gosto do feminismo atual é que toda a sua energia é direcionada para proteger a garota burguesa, a garota branca de alta classe que quer que o mundo seja como sua sala de estar. Ela é protegida por seus pais, protegida pela faculdade e quer partir para o mundo vestida exatamente como quer, ela nem se quer imagina os perigos do mundo, não ensinaram a ela os perigos do mundo e ela espera que o mundo seja reduzido a essas proteções burguesas. Ela não percebe o seu privilégio, ela é arrogante e passou sua arrogância para o feminismo.

Antes de tudo, o problema da violência doméstica, a síndrome da mulher agredida, acho que devemos fazer uma distinção. Existem casos na classe operária, no todo mundo, em que a mulher não tem recursos financeiros para partir, então, ela está presa a uma situação em que é explorada e abusada. Mas temos de criar uma categoria separada de mulheres de classe média que têm a capacidade de partir e que, na verdade, é atraída ao homem que abusa dela. Acredito que os sinais do abuso e do controle desse homem já estavam presentes quando eles namoravam e a mulher ignorou os sinais. Mais do que isso, há uma simbiose nesses relacionamentos em que o homem é infantil. Bater na mulher é uma tentativa patética de controlar um ser que é mais forte do que ele. Acho que é um eco da mãe. Tais homens provavelmente sentiram-se sufocados pela mãe. O que vi em minhas observações pessoais de tais relações é que a mulher quase se automartiriza, sentem que apenas elas podem curá-los. Ele precisa de ajuda, ele é outra criança, e você vê cenas de ira e de destruição. Então, ele chora e implora por perdão e diz que é a última vez. Há algo muito estranho e, na verdade, mutuamente sadomasoquista nesses relacionamentos de classe média. Novamente, a análise feminista tem de permitir os paradoxos e ambiguidades da psique humana. A síndrome da esposa agredida pode ser mais complexa do que parece na superfície.

Acho que o feminismo tornou-se muito isolado, ele conversa só com ele mesmo. Não houve uma busca pelas mulheres convencionais. O feminismo prejudicou sua própria reputação por seu clubismo e provincianismo. Para mim o feminismo é inútil se as feministas conversam com elas mesmas e se recusam a aceitar críticas, mesmo de dentro do feminismo. A recusa das feministas em ler o trabalho de opositores de sua visão, a confiança passiva e preguiçosa em boatos e fofocas. Elas se comportam como se fossem pensadoras religiosas ao invés de ativistas sociais. Gostaria que o feminismo agora se concentrasse nas atrocidades reais do mundo, onde quer que existam. A terrível vulnerabilidade das mulheres rurais na Índia me parece muito mais carente de atenção do que os problemas das mulheres profissionais de classe média que devem ser retiradas dessa centralização obsessiva que ela conta atualmente. E há muita confiança em, para mim sempre fracas, teorias de feministas acadêmicas. Estudos sobre mulheres e estudos sobre gênero foram criados sem nenhuma referência ao estudo da biologia, ou história em geral. Deveria haver cursos obrigatórios de biologia, antropologia e história mundial. E essa repetição interminável de teorias, teorias que não fazem o menor sentido sobre como pessoas de verdade levam suas vidas reais no mundo real. Isso tem de parar.

Camille Paglia (Programa Roda Vida - Outubro/2015)
[Obs: Trechos da fala dela na entrevista]




Lauren Southern

4 de junho de 2016

A MÁSCARA NUNCA É USADA DE GRAÇA

A máscara nunca é usada de graça, ela tem sempre uma expectativa, um interesse. E quando esse interesse não é atendido, você entra em contato com aquilo que está por trás dela, ou seja, você revela a sua natureza inferior, que pode se manifestar como agressividade, insegurança e uma série de diferentes mecanismos que te levam ao sofrimento.


Prem Baba

DIÁRIOS DE RORSCHACH


12 de outubro de 1985

Esta manhã, no beco, havia um cão morto com marcas de pneu no ventre rasgado. A cidade tem medo de mim. Eu vi o rosto dela. As ruas são sarjetas dilatadas e essas sarjetas estão cheias de sangue. Quando os bueiros finalmente transbordarem, todos os ratos irão se afogar. A imundice acumulada de todo o sexo e matanças que praticaram vai espumar até suas cinturas e todos os políticos e rameiras olharão para cima, gritando "salve-nos"... ...e, do alto, eu vou sussurrar: "não". Eles tiveram escolha. Todos eles. Podiam ter seguido os passos de homens honrados como meu pai ou o presidente Truman. Homens decentes que acreditavam no suor do trabalho honesto. Em vez disso, seguiram os excrementos de devassos e comunistas sem perceber, até ser tarde demais, que a trilha levava a um precipício. Não me digam que eles não tiveram opção. Agora o mundo todo está na beira do abismo, contemplando os liberais, intelectuais e sedutores de fala macia que ardem no inferno... ...e, de repente, ninguém mais sabe o que dizer.

13 de outubro de 1985

Dormi o dia todo. Acordei às 16h37. A zeladora continua reclamando do cheiro. Ela tem cinco filhos de cinco pais diferentes. Na certa, engana a previdência social. Logo vai anoitecer. Lá embaixo, esta cidade horrível grita como um matadouro cheio de crianças retardadas. Nova York. Numa sexta-feira à noite, morreu um comediante em Nova York. Alguém sabe por quê. Lá embaixo... ...alguém sabe. O anoitecer fede a fornicação e consciências imundas. Acho que vou me exercitar.

"Primeira visita da noite, infrutífera. Ninguém sabia de nada. Me sinto deprimido. A cidade está morrendo de hidrofobia e tudo que consigo fazer é limpar um pouco da espuma na sua boca? Nunca se desespere. Nunca se renda. Eu deixo as baratas humanas discutindo sua heroína e sua pornografia infantil. Tenho assuntos a tratar com outra classe de gente."

20h30

Encontrar Veidt me deixou com um gosto ruim na boca. Ele é mimado e decadente. Traiu até mesmo suas próprias hipocrisias liberais. Talvez homossexual? Preciso lembrar de investigar mais. Dreiberg não fica atrás. Um fracassado lamuriando-se no porão. Por que sobraram tão poucos de nós na ativa, sãos e sem desvio de personalidade? O primeiro Coruja é dono de uma oficina de carro. A primeira Espectral é uma puta velha e inchada morrendo num asilo californiano. Capitão Metrópole foi decapitado num acidente de carro em 1974. O Traça está num hospício no Maine. Silhouette se aposentou em desgraça. Foi morta seis semanas depois por alguém querendo vingança. Dollar Bill foi baleado. Justiça Encapuzada sumiu em 55. O Comediante está morto. Só sobraram dois nomes na minha lista. Ambos dividem moradia no Centro Rockfeller de Pesquisas Militares. Eu vou até lá. Vou avisar ao homem indestrutível que tem gente querendo matá-lo.

23h30

Sexta à noite, morreu um comediante na cidade. Foi arremessado da janela e, quando atingiu a calçada, sua cabeça entrou no abdômen. Ninguém liga. Ninguém além de mim. Será que é isso? Tudo inútil? Logo vai haver guerra. Milhões vão queimar. Milhões vão morrer na miséria e na doença. Por que uma morte pesa mais do que outras? Porque existe o bem e existe o mal. O mal deve ser punido. Mesmo no Dia do Juízo Final isso não vai mudar. Mas tem muitos merecendo pagar... ...e tão pouco tempo.

16 de outubro de 1985

Rua 42: seios nus se esparramam de todos os outdoors, de todos os cartazes, emporcalhando a calçada. Me oferecem amor sueco e francês... ...mas não americano. Amor americano, como coca em garrafas de vidro verde... ...não se faz mais. A caminho do cemitério, pensei na história do Moloch. Pode ser mentira, parte de uma vingança armada durante uma década atrás das grades. Mas, se for verdade, o que significa? Há referência intrigante a uma ilha. Também ao Dr. Manhattan. Será que ele corre perigo? Tantas perguntas. Tudo bem. Eu respondo logo. Nada é insolúvel. Existe esperança. Enquanto houver vida. No cemitério, cruzes brancas se enfileiram como marcas de giz numa lousa gigante. Faço a última visita com tranquilidade. Edward Morgan Blake. Nascido em 1924. Comediante por 45 anos. Falecido em 1985, enterrado na chuva. É o que acontece conosco? Uma vida de conflito sem tempo pra amigos... ...pra no fim, só nossos inimigos deixarem rosas. Vidas violentas terminando violentamente. Dollar Biil, Silhouette, Capitão Metrópole... Nós nunca morremos na cama. Não é permitido. Algo na nossa personalidade, talvez? Algum impulso animal para lutar e se debater, fazendo de nós o que somos? Não importa. Nós fazemos o que deve ser feito. Outros enterram a cabeça entre as tetas inchadas da indulgência e da gratificação, leitões se contorcendo por abrigo debaixo de uma porca... ...mas não há abrigo... ...e o futuro aparece correndo como um trem expresso.

Blake entendia. Tratava tudo como piada, mas entendia. Ele viu as rachaduras na sociedade, viu os homenzinhos mascarados tentando manter as coisas juntas... Ele viu a verdadeira face do século 20 e decidiu se tornar o reflexo, uma paródia desses tempos. Ninguém mais sacou a piada. Daí sua solidão.

Me contaram uma piada: Um homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador, onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: "O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá ao show. Isso deve animar você." O homem se desfaz em lágrimas. E diz: "Mas, doutor..." "...eu sou o Pagliacci." Boa piada. Todo mundo ri. Rufam os tambores. Cortinas.

21 de outubro de 1985

Deixei a casa de Jacobi às 2h35. Ele não sabe nada sobre a tentativa de desacreditar Dr. Manhattan. Foi apenas usado. Por quem? Russos parecem a escolha óbvia: Manhattan e Comediante era figuras militares importantes. Mas o Comediante falou de uma ilha, de artistas e escritores vivendo nela. Não se encaixa. Não consigo me concentrar. Cansado. Sem dormir desde sábado. A caminho de casa, passando por latas de lixo cheias de rumores de guerra, analiso fotos, corpos, motivos... ...e aguardo um lampejo de clareza no mar de sangue.

Acordei às onze com gritos lá fora. Estranho cair no sono sem remover a pele da cabeça. Mais cansado do que supunha. Devo ter cuidado. Do outro lado da rua, garotos com spray depredavam um prédio abandonado. Memorizei suas feições e me preparei para o trabalho. Primeiro, tirei meu rosto, dobrei-o e guardei no casaco. Sem a face, ninguém me conhece. Ninguém sabe quem sou. Ao sair do quarto, topei com a zeladora. As queixas de sempre: higiene e aluguel. Havia marcas de chupão no pescoço gordo dela. Novas. Ela me lembra minha mãe. Na rua, inspeciono o prédio depredado: desenho na porta, homem e mulher, possivelmente em preliminares sexuais. Não gostei. Faz a porta parecer assombrada. Na Quarenta com a Sete, Dreiberg e Juspeczyk deixam o Diner. Não me reconheceram. De caso, talvez? Será que Juspeczyk arquitetou o exílio de Manhattan, abrindo caminho para Dreiberg? Ela também odiava o Comediante. Devo investigar. Entrei no Diner, pedi café e me sentei, olhando para minha caixa de correio do outro lado da rua. Transeuntes fizeram vários depósitos: papel de bala, jornais, um par de tênis com cadarços amarrados entre si, linguetas protundidas. Esta cidade é um animal feroz e complicado. Para entendê-la, leio seus dejetos, seus aromas, o movimento de seus parasitas... Eu me sentei diante do lixo e Nova York me abriu seu coração.

Tentaram matar Veidt. Prova a teoria de um "assassino de mascarados". O criminoso fecha o cerco. Chequei mensagens. Bilhete de Moloch. Relacionado, talvez? Em seguida, fui recolher o rosto no beco. Em frente ao Utopia, a polícia prendeu um viciado em KT-28. Ele gritava alguma coisa sobre o presidente Nixon. Algo sobre bombas. Será que todos menos eu enlouqueceram? Sobre a rua 40, um elefante flutuava.. Acima dele, satélites espiões invisíveis. Se fecharem seus olhos de vidro, todos morreremos. Mundo implacável. Só há uma resposta sã para ele. O beco estava frio e deserto. Minhas coisas estavam onde eu havia deixado. À minha espera. Colocando-as, abandonei o disfarce e voltei a ser eu mesmo, livre do medo, da fraqueza ou do desejo. Meu casaco, meus sapatos, minhas luvas imaculadas. Meu rosto. Tenho três horas antes de encontrar Moloch. Mais adiante no beco, uma mulher gritou, a primeira nota balbuciante do coro noturno da cidade. Eu me aproximo. Uma tentativa de estupro/assalto/ambas as coisas. Pigarreei. O homem se virou e seu olhar foi uma recompensa para mim. Às vezes, a noite é generosa comigo.

27 de outubro de 1985

"Fiquei na rua assistindo queimar. Imaginei torsos de feltro sem membros lá dentro; mamas se escurecendo; ventre fumegando; ardendo em chamas um à um. Assisti por uma hora. Ninguém saiu. Fiquei à luz das chamas, encharcado de suor. O sangue no peito como mapa de um novo e violento continente. Me senti limpo. Senti o planeta sombrio rodopiando e me dei conta do que faz os gatos gritarem, à noite, feito bebês. Olhei pro céu além da fumaça cheia de gordura humana e Deus não estava lá. A escuridão fria e sufocante prossegue eternamente e a gente está sozinho. Levamos a vida sem nada melhor pra fazer. A razão, inventamos depois. Nascemos do nada, temos filhos condenados ao inferno como nós, voltamos ao nada. Só existe isso. A existência é aleatória. Sem padrão, a não ser o que imaginamos depois de ficar olhando por muito tempo. Sem sentido, a não ser o que decidimos dar. Não são forças metafísicas vagas que moldam este mundo. Não é Deus quem mata as crianças. Não é o destino que as trucida ou a sina que as dá de comer aos cães. Somos nós. Só nós. As ruas fediam a fogo. O vazio soprou áspero no meu peito, gelando e esmigalhando minhas ilusões. Renasci, então. Livre pra traçar meu próprio destino neste mundo amoral. Como Rorschach. Isso responde suas perguntas, doutor?"

1 de novembro de 1985

Último registro? Deixamos o escritório de Veidt quase meia-noite. Dreiberg, convencido de que Veidt está por trás de tudo, fala sério em visitar a Antártica. A nave-coruja aparentemente tem condições, mas e nós? Veidt. Não imagino oponente mais perigoso. Se a jornada for possível, rastreá-lo ao seu covil é a única opção. Mas me sinto intranquilo. Território desconhecido. Ele poderia nos matar na neve. Ninguém jamais saberia... Primeira noite de novembro. Eu estou com frio. Escritórios abaixo, lousas de sepultura marcando diariamente milhares de túmulos. Em seu interior, sobre faces de relógios, tão visadas quanto as de celebridades, os porteiros iniciam suas voltas derradeiras; o fim vem a galope. Favorecendo a espora, poupando as rédeas. Acho que desapareceremos logo. Veidt é mais rápido do que Dreiberg. Talvez mais do que eu. Voltar da missão parece improvável. Última anotação. Mandarei o diário aos únicos em quem confio. Digo a Dreiberg que preciso checar minha caixa postal. Ele acredita. Quer eu esteja vivo ou morto, se você estiver lendo isto agora, saberá da verdade: seja qual for a natureza exata dessa conspiração, Adrian Veidt é o responsável. Me esforcei para ser compreensível. Acredito que tracei um quadro aterrador. Aprecio seu apoio recente e espero que o mundo sobreviva o suficiente para que isto chegue às suas mãos mas os tanques estão em Berlim Oriental e o Juízo Final se anuncia. Quanto a mim, de nada me arrependo. Levei a vida livre de compromissos... e... Agora avanço rumo às sombras sem me queixar.

Rorschach, 1 de novembro de 1985.


Alan Moore (Watchmen - edição definitiva: Capítulo 1: págs: 7, 20, 22, 25 e 30. Capítulo 2: págs: 65, 66, 67 e 68. Capítulo 5: págs: 148, 153 e 160. Capítulo 6: págs: 201 e 202. Capítulo 10: pág: 334)

O COMEDIANTE


"Olha aqui, quando cê sacar que tudo é uma piada, a única coisa que vai fazer sentido é o comediante".

"Eu até gosto quando as coisas ficam meio estranhas, sabe? Prefiro quando as cartas tão todas na mesa".

É uma piada. É tudo uma piada. Sabe... Quando comecei a limpar as docas, ainda moleque, era tudo muito, muito fácil. Se o mundo era duro, era só ser mais duro que ele. Hoje não. Eu achei que sabia das coisas... Como o mundo funcionava, mas aí me dei conta da piada... Caceta... Olha só pra mim. Chorando! Cê não sabe. Não sabe o que tá rolando. Naquela ilha... Cheia de escritor, cientista, artista... E o que eles tão fazendo... Cara, eu já fiz muita coisa horrível. Aprontei com mulher. Atirei em guri! No Vietnã, matei mesmo... ...mas nunca fiz nada como... como... Meu Deus. Me perdoa. Me perdoa, me perdoa, me perdoa... Porra, qual é a graça? Onde é que tá a graça?

"Blake é interessante. Jamais conheci alguém tão deliberadamente amoral. Ele condiz com o clima daqui: a loucura, a carnificina sem sentido... À medida que compreende o Vietnã e suas implicações para a condição humana, percebo que poucos se permitiriam tal compreensão. Blake é diferente. Ele compreende perfeitamente... ...e não se importa." (Dr. Manhattan)

"Sem determinação. Todos deles. Menos o Comediante. Conheci em 1966. Personalidade forte. Não ligava se gostavam dele. Não tinha compromissos. Admirável. De todos nós, era quem mais entendia o mundo, as pessoas, a sociedade e o que estava acontecendo. Coisas que todos sabem no íntimo. Coisas que todos têm medo de encarar. Polidos demais pra comentar. Ele entendia. Entendia o dom do homem pra horrores e nunca desistiu. Viu o ventre negro do mundo e não se rendeu. Quando se vê isso, não se pode ignorar. Não se pode fingir que não existe. Não importa quem ordene fazer vista grossa. Nós não fazemos essas coisas porque é permitido. Fazemos porque temos de fazer. Fazemos porque somos compelidos." (Rorschach)


Alan Moore (Watchmen - edição definitiva: Capitulo 2: págs: 53, 58, 62 e 63. Capítulo 4: pág: 127. Capítulo 6: pág: 191)

DR. MANHATTAN


"Um corpo vivo e um morto contêm o mesmo número de partículas. Estruturalmente não há diferença discernível. Vida e morte são abstrações não quantificáveis. Por que eu deveria me importar?"

"Eu vou contemplar as estrelas. Elas estão distantes e sua luz leva muito tempo para nos alcançar. Tudo o que vemos das estrelas são suas velhas fotografias."

"Eu não posso impedir o futuro. Para mim, ele já está acontecendo."

"...Mas é tudo ilusão. As coisas têm suas formas no tempo, não apenas no espaço. Alguns blocos de mármore trazem estátuas encrustadas no futuro."

Rumo a Marte. Rumo a um lugar sem relógios, sem estações, sem ampulhetas para aprisionar a areia rosada e rodopiante. Abaixo de mim, na areia, oculta-se a sombra secreta de minha criação, enterrada nas areias do futuro. Eu me elevo no ar rarefeito. Estou pronto para começar. Um mundo cresce ao meu redor. Será que eu o estou moldando os seus contornos predeterminados guiam minha mão? Em 1945, bombas caem no Japão, engrenagens no Brooklyn, sementes do futuro são plantadas negligentemente. Sem mim, as coisas teriam sido diferentes. Se o gordo não tivesse esmagado o relógio, se eu não o tivesse deixado na câmara... Sou eu o culpado, então? Ou o gordo? Ou meu pai por escolher minha carreira? Qual de nós é responsável? Quem faz o mundo? Talvez o mundo não seja feito. Talvez nada seja feito. Talvez simplesmente seja, tenha sido, será eternamente... ...um relógio sem artesão.

Mas é tarde demais. Sempre foi, sempre será tarde demais.

"Tudo é predeterminado. Até minhas reações. Nós todos somos marionetes, Laurie. A diferença é que eu enxergo minhas cordas."

Não há futuro. Não há passado. Percebe? O tempo é simultâneo, uma joia intricada que os humanos insistem em enxergar um lado por vez, embora a estrutura seja visível em todas as facetas. Qual é sua lembrança mais antiga? Não sumiu. Ela ainda está aí. Permita-se vê-la.

Toda a dor e conflitos encerrados? Todo o sofrimento desnecessário eliminado? Não... Não, isso não me incomoda. Eu questionava o sentido de tanta labuta. O propósito do esforço sem fim, que leva a nada, deixando as pessoas vazias e desiludidas... ...deixando-as alquebradas. Em minha opinião, ela [a vida] é um fenômeno exageradamente valorizado. Marte se dá muito bem sem um único micro-organismo. Veja... Estamos [em Marte] sobre o polo sul agora. Sem vida alguma, mas com degraus de trinta metros de altura, esculpidos pela areia e o vento numa topografia em constante mudança, fluindo e mudando de direção ao redor do polo em ondas de milhares de quilômetros. Diga-me... ...que benefício um oleoduto traria a esta paisagem?

Eu leio átomos, Laurie. Vejo o antigo espetáculo que gerou tais pedras. Além do mais, a vida humana é breve e mundana. E o universo nem mesmo notará [se todos morrerem]. Nós já discutimos isso, Laurie. Você afirmou que a vida humana é mais significativa do que essa desolação magistral e não me convenceu. Tentou comparar a reles incerteza de sua existência com o caos deste mundo... [Marte].

Laurie, você se queixa, talvez com razão, de que não vejo a existência me termos humanos... ...ao mesmo tempo em que se recusa a cogitar meu ponto de vista, deixando-se cegar pelas emoções. Olhe para você... Furiosa, gritando... Se você ao menos relaxasse para ver o continuum, os padrões de vida ou a falta deles, com certeza entenderia minha perspectiva. Você está deliberadamente nublando sua percepção como se tivesse medo... Como se fosse delicada demais...

Eu não acho sua vida sem sentido. Eu mudei de ideia. Milagres termodinâmicos... Eventos que, de tão improváveis, são na prática impossíveis... Como o oxigênio virar espontaneamente ouro. Eu anseio por observar algo assim. E, no entanto, em cada casal humano, milhões de espermatozoides avançam rumo a um só óvulo. Multiplique as possibilidades por incontáveis gerações, junte à chance de seus ancestrais estarem vivos, de se encontrarem, de conceberem esse preciso filho, essa exata filha... ...até mesmo sua mãe amar um homem que reunia todas as razões para ela odiar, e, dessa união, das milhões de crianças competindo pela fertilização, foi você, apenas você, que emergiu... ...extraindo forma específica desse caos de improbabilidades, como o ar se transformando em ouro... Isso é o pináculo do improvável. O milagre termodinâmico. Mas o mundo é tão cheio de pessoas, tão repleto desses milagres que eles se tornam lugar-comum e nós os esquecemos... Eu esqueci. Nós contemplamos continuamente o mundo e ele se torna opaco às nossas percepções. No entanto, encarado de um novo ponto de vista, ele ainda pode ser impressionante.

Vamos... Enxugue as lágrimas, porque você é vida, mais rara do que um Quark e mais imprevisível do que qualquer sonho de Heisenberg. A argila na qual as forças que moldam a existência deixam suas impressões digitais mais claras. Enxugue as lágrimas... ...e vamos para casa.

"Eu quase havia me esquecido da emoção de não saber, das delícias da incerteza..."


Alan Moore (Watchmen - edição definitiva: Capitulo 1: pág: 27. Capítulo 4: págs: 109, 124, 132, 134, 135 e 136. Capítulo 9: págs: 283, 284, 288, 290, 291, 295, 296, 301, 304, 305 e 306. Capítulo 12: pág: 387)

3 de junho de 2016

AUTOCONFIANÇA E DESEMPENHO ESPORTIVO

Andy Hug


INTRODUÇÃO

A competição é a oportunidade onde o atleta demonstra suas habilidades e competências, desafiando seu desempenho, seja numa perspectiva pessoal ou na tentativa de quebrar um recorde (DE ROSE JUNIOR, 2002). O desempenho esportivo de excelência caracteriza-se pela combinação de um conjunto de fatores, dentre os quais se destacam a condição física, o nível técnico e o aspecto psicológico (MARAVIESKI, CALEGARI e GORLA, 2007). Porém, em diversas modalidades, se observa que os aspectos físicos, técnicos e táticos estão cada vez mais semelhantes entre os competidores, sugerindo que o estudo das variáveis psicológicas torne-se um diferencial na busca pelo resultado (FERREIRA, 2008).

Deschamps e De Rose Junior (2006) afirmam que a preparação psicológica influencia em uma série de modificações nos processos e estados psíquicos do atleta. De acordo com Quadros, Vicentim e Crespilho (2006) a autoconfiança é uma das variáveis a ser desenvolvida pelos atletas a fim de lidar com determinadas situações inerentes ao contexto esportivo competitivo.

A autoconfiança pode ser entendida como a crença do indivíduo quanto à sua própria capacidade de realizar com sucesso um comportamento desejado (WEINBERG e GOULD, 2001). Quando desenvolvida em níveis ideais pelo atleta, a autoconfiança auxilia no desempenho esportivo, intensificando as emoções positivas, aumentando a concentração, estabelecendo metas mais desafiadoras, aumentando o esforço e desenvolvendo estratégias competitivas efetivas (MACHADO, 2006). No entanto, quando muito elevada, a autoconfiança pode ser prejudicial ao desempenho esportivo, nos casos em que o atleta apenas acredita no seu potencial psicológico para realizar uma tarefa proposta e não possui atributos necessários como a condição física, nível técnico e tático (O´BRIEN et al., 2005).

Este estudo objetivou revisar a literatura acerca das relações entre a autoconfiança e o desempenho esportivo. Foram revisadas as bases de dados eletrônicas Scientific Eletronic Library On-line (SciELO), Pubmed Central (PMC) e Science Direct, selecionando estudos publicados no período entre 2000 e 2008. As buscas ocorreram através da seleção de palavras-chave como: autoconfiança, desempenho esportivo, atletas, esporte; e seus correspondentes em inglês: self-confidence, sport performance, athletes, sport.

DESEMPENHO ESPORTIVO

O desempenho esportivo é a denominação dada à unidade de execução e resultado de uma seqüência complexa de ações esportivas (BÖHME, 2003). Para competir, o atleta deve estar preparado física, técnica, tática e psicologicamente para se destacar entre aqueles que praticam determinada modalidade esportiva, o que requer um trabalho planejado visando o aperfeiçoamento dos requisitos necessários para se obter os melhores resultados (DE ROSE JUNIOR, DESCHAMPS e KORSAKAS, 2001; DE ROSE JUNIOR, 2002; MARAVIESKI, CALEGARI e GORLA, 2007).

Nos modelos de desempenho esportivo, propostos na literatura, a aptidão física junto com a condição física, a técnica e a tática esportiva são consideradas condições pessoais diretas ao desempenho esportivo (BOHME, 2003). O modelo exposto por Kiss et al. (2004) propõe que o desempenho é uma conseqüência de vários processos internos sofridos pelo atleta, não apenas de elaboração e de decisão do movimento, mas de regulações autonômicas tais como da freqüência cardíaca, freqüência respiratória, substratos energéticos, temperatura, equilíbrio hidroeletrolítico e hormonal. Todos esses processos estão adaptados às interferências de fatores ambientais, com especial ênfase ao treinamento físico (PEDRINELLI, 2006), sendo também influenciados pelas emoções. As emoções promovem mudanças profundas em todo o corpo reguladas pelo sistema nervoso central, pelo sistema autônomo (simpático e parassimpático), e pelas glândulas endócrinas (MACHADO e CALABRESI, 2003).

Os pensamentos, sentimentos e atitudes dos atletas sobre si mesmos e o ambiente esportivo, evidenciam a forma de comportamento e influenciam o desempenho esportivo destes durante a competição (DESCHAMPS e DE ROSE JUNIOR, 2006). As características e competências psicológicas, como partes integrantes do desempenho esportivo, são capazes de diferenciar os atletas bem sucedidos e com bons rendimentos daqueles que apresentam piores “performances” competitivas, sendo alvo de estudo dos pesquisadores que tentam compreender as situações presentes no ambiente esportivo (CRUZ e GOMES, 2001).

Nesse sentido, o equilíbrio emocional é um aspecto integrante do esporte competitivo. Considera-se que no esporte de rendimento, muitos estímulos podem causar efeitos emocionais positivos e/ou negativos, e tais efeitos influenciam diretamente no desempenho do atleta, na sua forma de atuar e na sua disposição diante da competição, do adversário e das vitórias ou derrotas (VIEIRA et al., 2008). De maneira geral, atletas que possuem um maior controle emocional tem a possibilidade de alcançar resultados mais favoráveis na hora da competição (PRAPAVESSIS e GROVE, 1991; DETÂNICO e SANTOS, 2005; REBUSTINI et al., 2005; RAPOSO, LÁZARO e COELHO, 2006). Dentre os fatores psicológicos, a autoconfiança ocupa lugar de destaque para o controle e manutenção de variáveis tais como o estresse e a ansiedade, presentes no contexto esportivo (BEATTIE, 2004; LIZUKA et al., 2005).

AUTOCONFIANÇA

A autoconfiança é uma crença pessoal de que se pode realizar, com sucesso, uma determinada tarefa (WEINBERG e GOULD, 2001). Para o esporte, são considerados dois tipos de autoconfiança, a traço e a estado (VEALEY, 1986). A autoconfiança traço refere-se à crença ou grau de certeza que os indivíduos geralmente possuem em relação à capacidade de serem bem-sucedidos no esporte (está relacionada à personalidade do indivíduo), por outro lado o estado de autoconfiança é a crença ou certeza que os indivíduos têm em um determinado momento em relação à capacidade de serem bem-sucedidos no esporte. Tendo em vista essas duas definições, pode-se dizer que a autoconfiança é uma expectativa, um pensamento subjetivo do indivíduo acerca da realização de tarefas de modo geral ou específico.

A autoconfiança poderá auxiliar o atleta a reduzir e controlar possíveis situações que surgirão no decorrer da competição tais como o estresse e a ansiedade (EDWARDS et al., 2002). Atletas que apresentam baixos níveis de autoconfiança tendem a encaram a ansiedade como debilitadora da performance ficando sensíveis a qualquer percepção de ameaça quanto ao desempenho desejado em uma competição esportiva (EUBANK e COLLINS, 2000).

Ao que tudo indica, a autoconfiança é uma variável que tem auxiliado os atletas a controlar elevados níveis de ansiedade aumentando assim suas expectativas de alcançar o desempenho estabelecido (EDWARDS et al, 2002; BEATTIE, 2004, LIZUKA et al., 2005, DESCHAMPS e DE ROSE JUNIOR, 2006).

Covassin e Pero (2004), verificaram que atletas com indicativos de elevada autoconfiança mantiveram um baixo nível de ansiedade pré-competitiva, e que isso os fez permanecerem calmos e relaxados durante a competição. Também Kais e Raudsepp (2005), constataram que níveis mais elevados de ansiedade estão geralmente associados com as percepções negativas quanto ao desempenho esportivo desejado para a competição. Em um estudo realizado no Reino Unido com 10 ginastas de elite, se investigou a relação existente entre a ansiedade e a autoconfiança. Os resultados apontaram que a autoconfiança é uma das qualidades mais poderosas dos atletas para o controle da ansiedade, pois permite ao atleta manter uma expectativa positiva quanto ao seu desempenho durante a competição (HANTON, MELLALIEU e HALL, 2004).

O estudo de Stoeber et al., (2007) investigou a relação entre o esforço do atleta e as reações negativas quanto ao mau desempenho na competição e verificou que o esforço que o atleta manteve durante a competição esteve associado a um nível de ansiedade mais baixo e uma autoconfiança mais elevada. Com base neste resultado, se pode dizer que os atletas que se esforçam para obterem o desempenho desejado, geralmente possuem um baixo nível de ansiedade e alto nível de autoconfiança.

Assim, é necessário que haja um desenvolvimento harmônico entre os fatores que compõe o desempenho esportivo, pois se o atleta apenas acreditar no seu potencial para a execução da tarefa e não possuir as habilidades e competências necessárias para tal feito, o mesmo não terá um desempenho satisfatório na competição (LIZUKA et. al, 2005).

Dentre os métodos para se desenvolver a autoconfiança estão: realizações de desempenho, pensamento confiante, mentalizações, condicionamento físico e a persuasão verbal (O´BRIEN et al., 2005). A técnica psicológica da simulação cognitiva, na qual os indivíduos se visualizam executando de maneira bem sucedida alguma tarefa que exija habilidade, melhora seu desempenho posterior (COSTA, 2003). Ou seja, se a pessoa tem uma avaliação negativa de seu desempenho, antecipa fracasso e se tem uma positiva, antecipa sucesso.

AUTOCONFIANÇA E DESEMPENHO ESPORTIVO

Alguns estudos destacam que geralmente quando a técnica, a tática e a preparação física são visivelmente iguais entre os competidores, o que irá prevalecer e diferenciá-los durante a competição é justamente o nível de autoconfiança apresentado (MAMASSIS e DOGANIS; 2004; HANTON e CONNAUGHTON, 2002; PSYCHOUNTAKI, e ZERVAS, 2000).

Os níveis de performance esportiva dos atletas também são relacionados a autoconfiança nos estudos. Williams e Reilly (2000), avaliando talentos no futebol, concluíram que os jogadores considerados mais talentosos possuíam uma maior autoconfiança e uma menor propensão a distúrbios da ansiedade.

No que diz respeito a técnicos e treinadores, o estudo de Simões et al. (2006) verificou que através do desenvolvimento da autoconfiança dos atletas avaliados, os comportamentos e indicativos de amizade, confiança mútua e respeito se fortaleceram na relação técnico-atleta. Através do emprego das técnicas de desenvolvimento da autoconfiança, o técnico tem a oportunidade de conhecer melhor seu atleta possibilitando assim uma relação de respeito, confiança e amizade entre ambos. Sendo assim, presume-se que as técnicas de desenvolvimento da autoconfiança devam ser empregadas nos treinamentos desportivos já que, de acordo com Tubino e Moreira (2003), os treinadores são os responsáveis diretos pelo ajustamento individual dos atletas e pelo ajustamento do grupo.

A literatura é divergente quando se trata da relação entre modalidades esportivas e níveis de autoconfiança. No entanto, Becker Jr. (2000) explica que nos esportes individuais, os atletas não compartilham a responsabilidade, expondo-se sozinhos a uma avaliação direta dos expectadores. Isso faz com que os atletas de modalidades individuais, apresentem maiores níveis de ansiedade e menores de autoconfiança se comparados aos atletas e modalidades coletivas. Observa-se ainda que a presença dos companheiros de equipe diminui a responsabilidade individual diante dos resultados das competições, o que explicaria o aumento do nível de ansiedade dos atletas em esportes individuais (GONÇALVES e BELO, 2007).

As diferenças entre homens e mulheres sempre foram e ainda são objeto de estudo das mais diversas áreas do conhecimento e no esporte não é diferente. O estudo de Lavoura, Botura e Machado (2006), verificou que as atletas do sexo feminino apresentaram, em situações pré-competitivas, menores níveis de autoconfiança e maiores níveis de ansiedade se comparadas aos atletas do sexo masculino. Além de que os homens atingiram um desempenho mais satisfatório do que as mulheres no conjunto de atividades propostas pela competição esportiva. Para tanto, Martens (1987) levanta a hipótese de que as mulheres não têm tanta experiência quanto os homens no esporte, sendo assim apresentam maior nível de ansiedade e menor de autoconfiança. No estudo de Cox et al., (1996), com atletas chineses e americanos das modalidades atletismo, basquete, vôlei e natação, foram observados um maior nível de confiança e uma maior motivação entre os atletas homens quando comparados às mulheres.

Dada a importância da autoconfiança para o desempenho esportivo dos atletas, torna-se essencial que esta seja desenvolvida possibilitando que o atleta atinja o desempenho esportivo esperado na competição.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A literatura revisada demonstrou que a autoconfiança é uma característica importante a ser desenvolvida por um atleta. Nesses casos, os atletas que possuem maior controle emocional têm a possibilidade de alcançar resultados favoráveis na hora da competição. A autoconfiança contribui para o equilíbrio de variáveis como o estresse e a ansiedade, muito comuns no esporte de alto nível.

Dada a importância da autoconfiança para o desempenho esportivo, entende-se a preparação psicológica como um diferencial em competições na qual os atletas possuam qualidades físicas, técnica e táticas semelhantes.


ILUMINISMO VS. EXTINÇÃO

Eu acredito que muitas pessoas realmente querem, pelo menos em um nível inconsciente, o fim do mundo. Elas desejam ser poupadas da responsabilidade de manter este mundo, do esforço da imaginação necessário para perceber tal futuro. E, é claro, há outros que querem muito viver. Vejo a sociedade do século 20 como uma espécie de corrida entre o iluminismo e a extinção. Em uma faixa, você tem os quatro cavaleiros do Apocalipse...

Adrian Veidt


Alan Moore (Watchmen - edição definitiva: Capitulo 11: pág: 378)

ABORDAGEM ASPIRINA

O que realmente significa combater o crime? Significa fazer valer a lei quando uma mulher rouba comida para alimentar os filhos ou lutar para desmascarar aqueles que, geralmente dentro da legalidade, provocaram a pobreza dela? Acho que cheguei a um ponto em que comecei a me perguntar se toda evidência e combate a males individuais faz algum bem ao mundo como um todo. Esses males são apenas sintomas de uma doença maior do espírito humano e eu não acredito que seja possível curar uma doença suprimindo seus sintomas. Toda essa abordagem aspirina dos problemas de nossa sociedade me incomoda muito. Não funciona.

Adrian Veidt


Alan Moore (Watchmen - edição definitiva: Capitulo 11: pág: 377)

1 de junho de 2016

O MÉTODO VEIDT

Adrian Veidt

ENTENDENDO A SI MESMO
Tanto o corpo quanto a mente são partes de um robô biológico que nossa alma imaterial habita. Como qualquer máquina, ele pode ser ajustado, melhorado e preparado para funcionar de maneira mais eficiente, contanto que se entenda o processo para isso ocorrer. Por meio de meditação e exercícios intelectuais, podemos usar nossa mente de uma maneira que jamais imaginamos possível. No primeiro capítulo, vamos discutir o pensamento alternativo, a meditação Zen, o poder dos sonhos e do inconsciente, junto de outras técnicas muito úteis para o avanço mental e intelectual. Embora não se trate de uma religião, há poderosas disciplinas espirituais por trás do Método Veidt, que devem ser compreendidas caso o aluno pretenda prosseguir seus estudos.

A SAÚDE E O CORPO
Em nosso segundo capítulo, exploramos a conexão entre corpo e mente, aprendendo como ele pode nos ajudar a dominar a dor e o sofrimento sem recorrer a drogas e medicamentos. Nós mostraremos, passo a passo, uma variedade de técnicas para concentrar o poder de cura da mente sobre qualquer parte adoecida do corpo. Sob esse aspecto, também vamos examinar como as ações do corpo podem ser usadas para auxiliar a concentração mental, levando em conta as doutrinas da ioga e o treinamento de artes marciais.

CRIANDO UM NOVO VOCÊ
Nosso terceiro e mais extenso capítulo apresenta uma série de exercícios físicos e intelectuais cuidadosamente coordenada que, seguida corretamente, pode transformar VOCÊ em um super-homem no comando pleno de seu próprio destino. É necessário apenas o desejo de perfeição e a vontade para atingi-la. Nenhum equipamento especial ou outros custos extras são necessários. O Método Veidt abre o caminho para um futuro brilhante, no qual qualquer pessoa pode se tornar um herói.

VOCÊ E O MUNDO
Além de ser uma criatura orgânica integral e completa em si mesma, você também é parte de um organismo social maior, que consiste das pessoas à sua volta, aquelas com quem convive. Em última análise, estamos falando do mundo. Quando sua mente e corpo estiverem fortes e saudáveis, você interagirá de maneira salutar e positiva com o mundo ao redor, mudando-o para melhor, se possível, e aprimorando tanto a si mesmo quanto seu semelhante. O capítulo final vai ajudá-lo a entender o organismo que é o mundo e seu lugar nele. Você descobrirá que uma pessoa pode se deixar levar por esse organismo social e, ao ser arrastada pelas tensões predominantes na sociedade, abrir mão das responsabilidades pelos seus atos e para com os demais, ou pode assumir o controle flexionando músculos da vontade, comuns a todos nós, afetando nosso ambiente de maneira positiva e responsável.


Alan Moore (Watchmen - edição definitiva: Capítulo 10: pág: 344)

O QUE FAZ UMA BOA VIDA?




Robert Waldinger

"O sucesso profissional e material, não importa quão grande seja, é trivial em comparação ao que fazemos de nós mesmos como homens."

Charles Lindbergh


A. Scott Berg (Lindbergh - uma biografia; pág: 676)

A LEI


No entanto, para que são feitas as leis se não para servir a humanidade? E se essas leis, por meio de circunstâncias não previstas, não se tornarem mais aplicáveis, não seria mais nobre seguir o curso do que é certo e justo - servir o espírito da lei em vez de cada um de seus pontos e vírgulas?

Alan Moore (Watchmen - edição definitiva: Capitulo 8: pág: 274)

"O texto frio da lei é fluente no simulacro da moral. A letra grafada e morta não vasculha corações nem pergunta por afetos, não ilumina interioridades nem chora misérias, mata".

Elienai Cabral Jr.

"A letra mata, mas o espírito vivifica" (2Co 3.6)