28 de setembro de 2020

"MAS O QUE FOI MESMO QUE ELE TEVE?"

Ao ouvirem a notícia de morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um dos que estavam reunidos no gabinete teve por objeto a influência que essa morte poderia ter sobre as transferências ou promoções tanto dos próprios juízes como dos seus conhecidos.

“Agora, certamente receberei o posto de Stábel ou de Vínikov - pensou Fiódor Vassílievitch. - Isto já me foi prometido há muito tempo, e esta promoção significa um aumento de oitocentos rublos, além da chancelaria.”
“Será preciso agora pleitear que meu cunhado seja transferido de Kalunga - pensou Piotr Ivânovitch -, minha mulher ficará muito contente. E não se poderá mais dizer que eu nunca fiz nada pelos parentes dela.”
- Bem que eu pensava que ele não se levantaria mais - disse Piotr Ivânovitch. - É pena.
- Mas o que foi mesmo que ele teve?

Além das considerações suscitadas em cada um por esta morte, sobre transferências e possíveis alterações no serviço, o próprio fato da morte de um conhecido tão próximo despertou como de costume, em cada um que teve dela conhecimento, um sentimento de alegria pelo fato de que morrera um outro e não ele. (...) Como se a morte fosse uma aventura inerente a Ivan Ilitch apenas, e de modo nenhum a ele também. 

Lev Tolstói (A Morte de Ivan Ilitch; págs: 8, 9 e 15)

25 de setembro de 2020

DEMOCRATAS VS. REPUBLICANOS

 
Estudamos o cérebro de quinze Democratas fiéis e quinze Republicanos convictos. (...) Estudamos as atividades de seus cérebros conforme lhes era apresentada uma série de slides. (...) Nosso objetivo foi criar um conflito direto entre os aspectos impostos pela razão e evidências (dados mostrando que o candidato tinha feito algo inconsistente, sórdido, desonesto, nojento ou simplesmente ruim) e os aspectos dependentes da emoção (fortes sentimentos para com os partidos e os candidatos). O que esperávamos compreender era como, em tempo real, o cérebro negocia conflitos entre dados e desejo. (...) Ao conduzirmos nossas hipóteses esperávamos que, quando os dados colidissem com o desejo, o cérebro político de alguma maneira “racionalizasse” até chegar às conclusões desejadas. (...) Para as pessoas politicamente neutras, a incoerência também é clara, mas não perturbadora como para os eleitores convictos de um ou outro candidato. (...) Democratas e Republicanos não mostraram diferenças em suas respostas às contradições.

Os resultados mostraram que quando os eleitores convictos encaram informações perturbadoras, não é apenas provável que “racionalizem” conclusões emocionalmente tendenciosas. (...) Os circuitos neurais encarregados da regulação dos estados emocionais parecem recrutar crenças que eliminaram o sofrimento e os conflitos experimentados pelos eleitores quando confrontados com realidades desagradáveis. (...) Contudo, o cérebro político também fez algo que não prevíamos. Logo que os eleitores Republicanos e Democratas encontraram uma forma de racionalizar falsas conclusões, não apenas os circuitos neurais envolvidos nas emoções negativas foram desligados, mas os circuitos envolvidos nas emoções positivas foram acionados. O cérebro dos eleitores pareceu não se satisfazer apenas em sentir-se melhor. Trabalhou mais para se sentir bem, ativando circuitos de recompensa, dando aos eleitores uma injeção de estímulo por seu raciocínio tendencioso.

Quais são as implicações deste estudo? Uma delas é pragmática. Se você estiver fazendo uma campanha, não deve se preocupar em ofender os 30 por cento da população cujo cérebro não consegue processar as informações do seu modo, salvo se suas vidas dependerem disso (por exemplo, após um ataque ao continente dos Estados Unidos). Se você é Republicano, seu objetivo deveria ser mudar para a direita 10 a 20 por cento da população com mentes influenciáveis, e reforçar seus 30 por cento estáveis para as pesquisas de opinião. Os estrategistas Republicanos, na verdade, não têm tido problemas em rotular os californianos do Norte ou do Nordeste como “liberais frescos”. Sabem que no seu próprio partido não há espaço para esse “tipo”, e atacá-los poderá reforçar o seu próprio eleitorado. As implicações para os Democratas devem ser igualmente claras: parem de se preocupar em ofender aqueles que consideram Pat Robertson e Jerry Falwell líderes morais, porque suas mentes não vão pender para a esquerda. (...) Os eleitores “de carteirinha” (...) Eles se anulam uns aos outros, deixando que os eleitores de centro equilibrem as eleições, baseados em considerações mais racionais.

Drew Westen (O Cérebro Político; págs: 26, 27, 28 e 29)

24 de setembro de 2020

US9928462B2

Evgeny Zubkov 

 

Vamos observar a patente da Samsung denominada Apparatus and method for determining user’s mental state, em português, “Aparelho e método para determinar o estado mental do usuário”. (...) com o número US9928462B2. (...) Seu resumo é esclarecedor: Um aparelho para determinar o estado mental de um usuário em um terminal é fornecido. O aparelho inclui um coletor de dados configurado para coletar dados do sensor; um processador de dados configurado para extrair dados de recursos do sensor; e um determinador de estado mental configurado para fornecer os dados do recurso a um modelo de inferência para determinar o estado mental do usuário (US9928462B2). (...) o estado mental pode incluir uma ou mais de uma emoção, um sentimento e um estresse, cada um dos quais pode ser classificado em vários níveis inferiores. Por exemplo, emoção pode ser classificada em felicidade, prazer, tristeza, medo, etc.; sentimento pode ser classificado em bom, normal, deprimente, etc.; e o estresse pode ser classificado em alto, médio e baixo. (...) Como é possível identificar tais sensações e sentimentos? (...) quando a velocidade de digitação usando um teclado é de 23 caracteres por minuto, a frequência de uso da tecla de retrocesso é três vezes ao escrever uma mensagem, a frequência de uso de um sinal especial é cinco vezes, o número de tremores de um dispositivo é 10, uma iluminância média é de 150 Lux, e um valor numérico de uma localização específica (por exemplo, estrada) é 3, um estado de emoção classificado aplicando os dados do recurso ao modelo de inferência é “susto”, com um nível de confiança de 74% (US9928462B2). (...) As plataformas online possuem outras patentes esclarecedoras e que corroboram com a definição do processo de modulação. (...) São milhares delas, aqui apresento mais cinco, cuja denominação é suficiente para termos uma noção de sua finalidade:

US-2010088607-A1
- Sistema e método para manter o usuário sensível ao contexto (Yahoo);
US-2012272338-A1 - Gerenciamento unificado de dados de rastreamento (Apple);
US-2012226748-A1 - Identifique Especialistas e Influenciadores em uma Rede Social (Facebook);
US2018019226-3A1 - Prever o estado futuro de um usuário de dispositivo móvel (Facebook);
US20080033826-A1 - Fornecimento de anúncios baseados no humor e na personalidade (Pudding Ltd).

Joyce Souza, Rodolfo Avelino e Sérgio Amadeu da Silveira (org.) (A Sociedade de Controle - Manipulação e Modulação nas Redes Digitais; págs: 39, 40, 41 e 42)

CRIAR MUNDOS CUSTA CARO

Criar mundos custa caro. O investimento em marketing é tão importante quanto o desenvolvimento e a fabricação dos próprios produtos e consome parte considerável da verba das empresas. A pesquisa CMO Spend Survey 2017-2018 da consultoria Gartner (...) mostrou que entre os anos 2014 e 2017, os investimentos no setor estiveram em torno de 11,3% a 12,1%, em média, para cerca de 350 grandes empresas respondentes. (...) Dependendo do setor, como o do cinema norte-americano, o investimento em divulgação pode ser equivalente a 50% do quanto se gastou para produzir o filme.

Joyce Souza, Rodolfo Avelino e Sérgio Amadeu da Silveira (org.) (A Sociedade de Controle - Manipulação e Modulação nas Redes Digitais; pág: 20)