28 de agosto de 2020

SOCIEDADE FUTURA

Josan Gonzalez

No início do século xx, a visão de uma sociedade futura inacreditavelmente rica, ociosa, organizada e eficiente - um mundo antisséptico, cintilante, de vidro e aço e concreto branquíssimo - fazia parte da consciência de praticamente toda pessoa culta. A ciência e a tecnologia desenvolviam-se a uma velocidade estonteante, e parecia natural acreditar que continuariam se desenvolvendo. Isso não aconteceu, em parte devido ao empobrecimento provocado por uma série longa de guerras e revoluções, em parte porque o avanço científico e tecnológico dependia do hábito empírico do pensamento, que não pôde sobreviver numa sociedade regimentada de maneira estrita. O mundo hoje, como um todo, é mais primitivo do que há cinquenta anos. Algumas áreas atrasadas progrediram e vários dispositivos foram desenvolvidos, sempre de alguma maneira relacionados à guerra e à espionagem policial, mas a experimentação e a invenção praticamente deixaram de existir, e os estragos causados pela guerra atômica da década de 1950 jamais foram inteiramente reparados. Contudo os perigos inerentes à máquina continuam existindo.

George Orwell (1984; págs: 224 e 225)

PROLETAS

 

Se é que havia esperança, a esperança só podia estar nos proletas, porque só ali, naquelas massas desatendidas, naquele enxame de gente, oitenta e cinco por cento da população da Oceânia, havia possibilidade de que se gerasse a força capaz de destruir o Partido. Impossível derrubar o Partido de dentro para fora. Seus inimigos, se é que o Partido possuía algum, não tinham como agrupar-se ou mesmo como identificar-se uns aos outros. Mesmo que a legendária Confraria existisse, algo possível - mas não provável -, era inconcebível que seus membros algum dia pudessem reunir-se em grupos maiores que duas ou três pessoas. O estado de rebelião significava um certo olhar, uma certa inflexão de voz; no máximo uma ou outra palavra cochichada. Os proletas, porém, se de algum modo acontecesse o milagre de que se conscientizassem da força que possuíam, não teriam necessidade de conspirar. Bastava que se sublevassem e se sacudissem, como um cavalo se sacode para expulsar as moscas. Se quisessem, podiam acabar com o Partido na manhã seguinte. Mais cedo ou mais tarde eles teriam a ideia de acabar com o Partido, não teriam?

George Orwell (1984; págs: 88 e 89)

CULTURAS E NEGÓCIOS

As redes mudaram o mundo, é certo; mas ainda não ao ponto onde só e somente as redes são o mundo. Se este fosse o caso, não seriam apenas algumas poucas cidades que estariam capturando quase todo o valor gerado no mundo abstrato. (...) Economia e sociedade em rede podem ser definidas ao redor de conhecimento, organizadas em termos de informações e tratadas, do ponto de vista de sua dinâmica, como conjuntos de fluxos. (...) Um ESPAÇO é um PROCESSO que tem, associados, TERRITÓRIO, ORGANIZAÇÕES, CONHECIMENTO E TECNOLOGIA e um REPERTÓRIO de ações sobre tais estruturas concretas e abstratas.

Marc Agné ensina que um LUGAR é um sistema RELACIONAL, HISTÓRICO e onde há uma preocupação essencial com a IDENTIDADE de cada um e do próprio lugar. Os lugares, segundo Agné, estão centrados nos indivíduos que deles fazem parte, na cumplicidade - inclusive de linguagem e repertório, a cultura (...) E cultura, definida de forma simples, é [qualquer] transmissão [situada] de informações entre seres humanos. É isso que as redes todas, especialmente as instâncias virtuais de redes sociais, possibilitam em larga escala, em quase todas as geografias e línguas. (...) contexto e referências locais e em um certo modo, a maneira, o know-how de VIVER naquele lugar. São tais coisas que tornam o Rio de Janeiro diferente de São Paulo [mesmo quando se trata de negócios, exclusivamente] e de Recife. (...) Provavelmente copiá-lo para o seu lugar não faz sentido; ao invés, desenhe seu lugar e os fluxos que, nele, a partir dele e para ele, vão torná-lo diferenciado e único no espaço. (...) Criar uma Salesforce ou Twitter não independe de lugar; nenhum dos dois sairia lá de Taperoá, pois as condições e repertório não existem, por lá, para tal.

Se seus planos são de muito curto prazo, saiba que o horizonte de maturidade de UM LUGAR como o Porto Digital é de 25 anos ou mais. (...) E há algo especial para você prestar atenção: quando juntar o time pra criar o lugar, invista muito tempo em ouvir o que as pessoas querem fazer, como e quando elas querem fazer, com quem e pra que elas querem fazer. E vá adaptando o que você quer fazer ao que todo mundo quer, ou então vai ser muito difícil fazer seja lá o que for e talvez, em último caso, não dê pra fazer nada. (...) Só será se for possível gerar e capturar, do lugar onde se está, o mesmo valor que seria gerado e capturado caso se migrasse para o outro lugar.

Silvio Meira (Novos Negócios Inovadores de Crescimento Empreendedor no Brasil; págs: 36, 40, 41, 43, 44, 45, 47, 48, 50 e 51)

27 de agosto de 2020

SE VENDER SOZINHO

O Hotmail foi um dos primeiros a explorar o potencial viral de produtos digitais - o poder de “se venderem sozinhos” - ao adicionar a chamada “P.S.: get your free email at hotmail” no pé de toda mensagem enviada pelo serviço, com o link de uma página na qual o destinatário podia abrir sua conta. Na mesma época, o PayPal mostrou como era possível crescer de maneira extraordinária criando sinergias entre um produto e uma plataforma digital popular, o eBay. Ao ver que no eBay havia vendedores anunciando o PayPal como um jeito simples de pagar, o time da empresa criou o AutoLink, mecanismo que automaticamente inseria o logo do PayPal e um link para o vendedor se cadastrar e usar o serviço em tudo o que estivesse vendendo. O AutoLink triplicou o número de leilões que usavam o PayPal no eBay e deflagrou o crescimento viral do serviço na plataforma. Já o Linkedin, que penou para ganhar tração no primeiro ano, viu o crescimento disparar no final de 2003, quando o time de engenharia criou uma solução engenhosa para que o usuário puxasse seus contatos no Outlook para adicioná-los a sua rede profissional. O resultado foi um aumento explosivo dos efeitos de rede. Em cada caso desses, o crescimento não exigiu nem publicidade tradicional nem grandes verbas, e sim uma boa dose de astúcia tecnológica.

Sean Ellis & Morgan Brown (Hacking Growth; pág: 7)