28 de março de 2016

OS OLHOS PRECISAM SER EDUCADOS

A nossa estupidez e a nossa preguiça nos levam a acreditar que aquilo que sempre foi feito de um certo jeito deve ser o jeito certo de se fazer. Mas os gregos sabiam diferente: sabiam que o conhecimento só se inicia quando o familiar deixa de ser familiar; quando nos espantamos diante dele; quando ele se transforma num enigma. (...) A inteligência começa nas mãos. As crianças não se satisfazem com o ver: elas querem pegar, virar, manipular, desmontar, montar. Um amante se satisfaria com o ato de ver o corpo da amada? Por que, então, a inteligência iria se satisfazer com o ato de ver as coisas? A função dos olhos é mostrar, para as mãos, o caminho das coisas a serem mexidas. (...) As coisas não são assombrosas para todos. Só para aqueles que aprenderam a ver. A visão tem que ser aprendida. Os olhos precisam ser educados. (...) (Quem disser que o ensino se mede pelo número de horas-aula é um idiota). O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem ordenar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender à exigência da comunidade científica internacional de publish or perish. Eu acho que o objetivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar. Porque é com o pensamento que se faz um povo. (...).

Os vestibulares, todos eles, se concentram no conhecimento das eventuais ferramentas do pensamento, e de tal maneira enchem o tempo e a cabeça dos adolescentes e jovens com tal conhecimento - pois é o único conhecimento que pode ser medido de forma quantitativa - que não sobra tempo para a educação da sensibilidade. Se os jovens não gostam de ler, se não desenvolvem a sua sensibilidade para as artes, se não ficam fascinados com a variedade da cultura humana, se são insensíveis à beleza da natureza, a culpa não é deles. Desde cedo os vestibulares lhes ensinaram que a única coisa importante são as ferramentas. (...) Nossas escolas são planejadas à semelhança das linhas de montagem: as crianças são "objetos" a serem "formados" segundo normas que lhes são exteriores. Ao final, formadas, são objetos portadores de saberes, centenas, milhares, todos iguais. Pertencem ao mundo do eu-isso.

Rubem Alves (Por Uma Educação Romântica; págs: 77, 78, 91, 97, 106, 107, 184 e 193)

PENA DE MOÇA

A despeito de toda aversão natural de Avdótia Románovna a mim e apesar do meu aspecto então sempre sorumbático e repelente, ela acabou ficando com pena de mim, com pena de um homem perdido. E quando o coração de uma moça sente pena, isto, sem dúvida, é o maior perigo para ela. Aí vem forçosamente a vontade de "salvar", e fazer criar juízo, e ressuscitar, e conclamar a objetivos mais nobres, e fazer renascer para uma nova vida e uma nova atividade.

Fiódor Dostoiévski (Crime e Castigo; pág: 483)

PECADO

Por que ela, há tanto e tão longo tempo, conseguia permanecer nessa situação sem enlouquecer, se não tinha forças para se atirar n'água? Claro, ele compreendia que a situação de Sônia era obra do acaso na sociedade, embora, infelizmente, nem de longe fosse única e exclusiva. Mas esse mesmo acaso, esse nível avançado e toda a vida pregressa dela podiam, parece, matá-la de uma só vez ao primeiro passo por esse caminho abominável. O que então a mantinha? Não era a perversão! Toda essa ignomínia, pelo visto, só a tocava mecanicamente; em seu coração ainda não havia penetrado nenhuma gota da verdadeira perversão. (...) "Ela tem três saídas - pensava ele -: atirar-se no canal, ir para um manicômio ou... ou... finalmente entregar-se à perversão, que entorpece a razão e petrifica o coração." A última ideia era a mais abominável para ele; mas ele já era cético, era jovem, dado a abstrações e, portanto, cruel, e por isso não podia deixar de crer que a última saída, ou seja, a perversão, fosse a mais provável. "Mas será que isso é verdade - exclamou ele de si para si -, será possível que até essa criatura, que ainda conserva a pureza de espírito, acabe afundando conscientemente nesse fosso abominável, fétido? Será possível que esse afundamento já tenha começado e ela só conseguiu aguentar-se até agora porque o vício já não lhe parece tão abominável? Não, não, isso não pode ser! - exclamou ele como há pouco o fizera Sônia. - Não, o que a impediu até agora de atirar-se no canal foi a ideia do pecado, e elas, aquelas... Se ela até agora não enlouqueceu... Mas quem disse que ela já não enlouqueceu? Estará em sã consciência? Por acaso pode-se falar do jeito que ela fala? Por acaso pode-se racionar em sã consciência como raciocina ela? Por acaso é possível viver à beira da perdição, em cima mesmo de um fosso fétido que já está arrastando-a e dar de ombros, e tapar os ouvidos aos avisos do perigo? O que há com ela, estará esperando por um milagre? Na certa está. Por acaso tudo isso não são indícios de loucura?

Fiódor Dostoiévski (Crime e Castigo; págs: 333 e 334)

24 de março de 2016

A ORIGEM DAS RELIGIÕES


Estamos tão acostumados com uma visão sobrenaturalista da religião, que a tendência espontânea leva a considerá-la como algo literalmente "caído do céu". Tendência favorecida pela propensão do religioso a se constituir em um mundo à parte, distinto da vida cotidiana e sempre tentado a perder todo contato com ela. Não obstante, por pouco que se observe, se notará que as religiões não caem do céu, mas nascem da terra. Em sua realidade histórica são produtos estritamente culturais: como a poesia, a filosofia e a ciência. Tudo o que é autenticamente religioso é sempre uma resposta a perguntas muito concretas. Resposta específica, caracterizada por sua relação a Deus; mas resposta verdadeiramente humana, obtida no esforço de homens e mulheres por encontrar sentido para perguntas que afetam real e profundamente suas vidas e que, por isso, preocupam ou podem preocupar a todos. Para comprová-lo, basta tomar nas mãos a bíblia ou qualquer outro texto religioso: aparecem como livros com todas as marcas da nossa mais normal humanidade. Um texto religioso é uma interpretação humana da realidade: da realidade comum, a única que existe e na qual todos e todas vivemos.

O que a caracteriza não é uma origem milagrosa, estranha ou fora dos procedimentos "naturais", mas a convicção de que a dimensão empírica e imediatamente mundana não esgota o todo da realidade. Não crê possível uma compreensão adequada da mesma, se não for incluindo outra realidade distinta, a Divina, que a sustenta e transcende e à qual ela está apontando por determinadas características, como podem ser a contingência do universo ou o protesto humano contra a morte, a injustiça ou o sem-sentido. Deus se converte assim na chave para obter uma compreensão "última" da realidade. Entretanto, entendamos bem: atendendo à estrutura interna e à gênesis íntima dessa convicção, não se vê assim a realidade porque se crê em Deus; mas o contrário: porque se vê assim a realidade, nasce a fé em Deus. Assim nascem e se desenvolvem as tradições religiosas, que, em geral, se cristalizam em livros sagrados: em escrituras que se consideram "reveladas" ou "inspiradas".

Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 228 e 229)