9 de junho de 2020

CURRAL ELEITORAL

Pawel Kuczynski

É claro que o Partido se vangloriava de ter libertado os proletas da escravidão. Antes da Revolução eles eram oprimidos de maneira revoltante pelos capitalistas. Passavam fome, eram açoitados. Mas, ao mesmo tempo, fiel aos princípios do duplipensamento, o Partido ensinava que os proletas eram inferiores naturais que deviam ser mantidos dominados, como os animais, mediante a aplicação de umas poucas regras simples. Na realidade pouco se sabia sobre os proletas. Não era necessário saber grande coisa. Desde que continuassem trabalhando e procriando, suas outras atividades careciam de importância.

Nasciam, cresciam pelas sarjetas, começavam a trabalhar aos doze anos, aos trinta chegavam à meia-idade, em geral morriam aos sessenta. Trabalho físico pesado, cuidados com a casa e os filhos, disputas menores com os vizinhos, filmes, futebol, cerveja e, antes de mais nada, jogos de azar, preenchiam o horizonte de suas mentes. Não era difícil mantê-los sob controle. Alguns representantes da Polícia das Ideias circulavam entre eles, espalhando boatos falsos e identificando e eliminando os raros indivíduos considerados capazes de vir a ser perigosos; mas não era feita nenhuma tentativa no sentido de doutriná-los com a ideologia do Partido. Não era desejável que os proletas tivessem ideias políticas sólidas. Deles só se exigia um patriotismo primitivo, que podia ser invocado sempre que fosse necessário fazê-los aceitar horários de trabalho mais longos ou rações mais reduzidas.

George Orwell (1984; págs: 90 e 91)

5 de junho de 2020

MINISTÉRIO DA VERDADE


Se o Partido era capaz de meter a mão no passado e afirmar que esta ou aquela ocorrência jamais acontecera - sem dúvida isso era mais aterrorizante do que a mera tortura ou a morte. (...) E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido - se todos os registros contassem a mesma história -, a mentira tornava-se história e virava verdade. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.” (...) Tudo o que fosse verdade agora fora verdade desde sempre, a vida toda. Muito simples.

E, em lugares indeterminados, totalmente anônimas, havia as cabeças dirigentes que coordenavam todo aquele esforço e estabeleciam as diretrizes políticas que tornavam necessário que este fragmento do passado fosse preservado, aquele adulterado e aquele outro destituído de toda e qualquer existência. E, no fim das contas, o Departamento de Documentação não passava de um ramo do Ministério da Verdade cuja função primeira não era reconstruir o passado e sim abastecer os cidadãos da Oceânia com jornais, filmes, livros escolares, programas de televisão, peças dramáticas, romances - com todo tipo imaginável de informação, ensino ou entretenimento, de estátuas a slogans, de poemas líricos a tratados de biologia, de cartilhas de ortografia a dicionários de Novafala. E ao ministério cabia não apenas suprir as inúmeras necessidades do Partido como também reproduzir toda essa operação num nível inferior, em benefício do proletariado. Havia uma série de departamentos dedicados especificamente à literatura, à música, ao teatro e ao entretenimento proletário em geral. Ali eram produzidos jornais populares contendo apenas e tão somente esportes, crimes e astrologia, romances sem a menor qualidade, curtos e sensacionalistas, filmes com cenas e mais cenas de sexo, e canções sentimentais compostas de forma totalmente mecânica por uma modalidade especial de caleidoscópio conhecida como versificador. (...) Noite e dia as teletelas massacravam os ouvidos das pessoas com estatísticas que provavam que hoje a população tinha mais comida, mais roupa, melhores casas, melhores opções de lazer - que vivia mais, trabalhava menos, era mais alta, mais saudável, mais forte, mais feliz, mais inteligente, mais culta do que as pessoas de cinquenta anos antes. (...) Tudo que fosse grande e portentoso, se tivesse uma aparência razoavelmente nova, recebia de forma automática o carimbo de obra posterior à Revolução, ao passo que todas as coisas que evidentemente datavam de épocas anteriores eram atribuídas a um período indistinto denominado Idade Média. Os séculos de capitalismo, dizia-se, não haviam produzido nada de valor.
 
(...) O membro do Partido, tal como o proletário, tolera as condições vigentes em parte porque não dispõe de termos de comparação. Deve ser afastado do passado, assim como deve ser afastado de países estrangeiros, porque é necessário que acredite que está em melhor situação do que seus antepassados e de que o padrão médio de conforto material aumenta ininterruptamente. Mas, de longe, a razão mais importante para que se reajuste o passado é a necessidade de salvaguardar a infalibilidade do Partido. Não se trata apenas de atualizar constantemente discursos, estatísticas e registros de todo tipo para provar que as previsões do Partido se confirmam em todos os casos. Trata-se também de não admitir em hipótese nenhuma a ocorrência de alterações na doutrina ou alinhamento político. Porque mudar de opinião, ou mesmo de atitude política, é uma confissão de fraqueza. Se, por exemplo, a Eurásia ou a Lestásia (conforme o caso) for o inimigo de hoje, então é necessário que esse país sempre tenha sido o inimigo. E se os fatos atestarem algo diferente, então é preciso alterar os fatos. Dessa forma, a história é constantemente reescrita. Essa falsificação diária do passado, levada a efeito pelo Ministério da Verdade, é tão necessária para a estabilidade do regime quanto o trabalho de repressão e espionagem realizado pelo Ministério do Amor. A mutabilidade do passado é o ponto central da doutrina do Socing. Afirma-se que os fatos passados não têm existência objetiva e que sobrevivem apenas em registros escritos e nas memórias humanas. O passado é tudo aquilo a respeito do que há coincidência entre registros e memórias. Considerando que o Partido mantém absoluto controle sobre todos os registros e sobre todas as mentes de seus membros, decorre que o passado é tudo aquilo que o partido decide que ele seja.

George Orwell (1984; págs: 47, 57, 58, 94, 120, 250 e 251)

3 de junho de 2020

A VANTAGEM DA VELHICE

Se perguntar pra todo mundo, a maioria vai dizer que preferia ser jovem de novo. Os jovens são fortes, têm saúde pra dar e vender. Quando chega na minha idade, a pessoa tá sempre com algum problema. Os meus pés me matam e a minha bexiga está que é uma desgraça. Tenho de levantar seis, sete vezes à noite. Por outro lado, ficar velho tem muita vantagem. A gente não se preocupa tanto. Não quer mais saber de mulher, e isso é um troço fantástico.

George Orwell (1984; págs: 113 e 114)

20 de maio de 2020

A AUSÊNCIA ME FAZ CÚMPLICE?

É razoável a indignação com o governo atual. Basta o mínimo de bom senso para reconhecer os inúmeros absurdos que vemos nos noticiários. Mas há um equívoco na afirmação de que quem votou 17 é responsável pelas medidas tomadas pelo governo, o votos são apostas, assim como o voto de confiança. Equívoco maior, é reconhecer os que optaram por não se posicionar, isto é, as pessoas que não assumiram uma postura favorável a nenhum dos espectros políticos, como apoiadores do governo atual. Nas eleições de 2018 assumi tal postura, não vi outra alternativa melhor do que me juntar aos "isentões". Mas pra piorar, se na narrativa da oposição, o termo "fascista" foi a bola da vez. Calhou de colocar os que não se posicionaram também como fascistas.. O irônico aqui é o combate ao "fascismo" de modo autoritário, numa tentativa claramente coercitiva diante da liberdade de votar ou não. Desenhando seria: "você tem o direito de votar como quiser, desde que seja no meu candidato, do contrário, tentaremos manchar a sua reputação. Será atacado socialmente."

Esse julgamento só parece expor uma percepção alienada das relações de causa e efeito ao simplificar a questão nessa resolução que coloca neutralidade e cumplicidade como sinônimos. Mas há um apelo retórico no velho discurso "nós contra eles". É atraente a possibilidade de aliviar a consciência apontando "culpados", de pintar de forma caricata e tosca a visão de mundo do outro e, então, sentir-se superior em relação a quem não compactua com nossos valores. Enfim, afaga a alma dos convictos de estarem do lado certo da história.

Não faz sentido julgar todos que votaram num determinado candidato como coautores da gestão do mesmo junto à sua equipe, isso é acreditar na utopia democrática de que o poder realmente emana do povo, para o bem ou para o mal. O poder nunca fica em muitas mãos. As pessoas votam pelos mais variados motivos, do simples ir com a cara do candidato à identificação partidária em meio a ressentimentos, experiências passadas, tradição, paixões, pressões sociais etc, tendo como pano de fundo o investimento milionário por trás do marketing político, entre outras variáveis. O voto representa a síntese de um conjunto de causas complexas dentro de um contexto, o que torna improvável haver na representação de um mero voto (muito menos na ausência), a real coerência com o que de fato acontece dentro do governo. Portanto, não colocaria tudo na conta até mesmo da parcela da sociedade que vota, a responsabilidade das principais ações governamentais. Há muitas outras forças envolvidas.

A que mais conclusões chegaríamos se levássemos a sério a dinâmica binária "nós contra eles"? Seria, por exemplo, concluir que o povo alemão é culpada pelo holocausto? (ou um punhado de fanáticos?); que todos os muçulmanos são culpados pelo terrorismo? (ou um punhado de extremistas?); e quanto aos pais que passaram a vida lutando para dar o melhor aos filhos, para, então, constatarem que estes se tornaram criminosos? Nesses casos - que não são raros - seria justo culpar os pais pelas decisões que tomaram na criação dos filhos? Seria verdade que esses pais carregam o sangue que o filho derramou, como se tivessem derramado juntos?

A lógica "nós contra eles" pode ser sutilmente danosa. Também serve aos que desqualificam a classe política por inteira baseado nas maçãs podres. Apesar destes serem, provavelmente, a maioria mesmo.. É uma forma de responsabilizar "eles" por tudo e todos. Aqui há um risco nas consequências que tal postura enseja, que é descaracterizar o indivíduo como ator político, o diluindo no todo. Se um evento é resultado de d'Eles, não há como responsabilizar indivíduos, logo você relativiza as ações individuais.

Compreender a ausência de posicionamento político ou silêncio como ato de apoio é tão injusto quanto considerar aqueles que foram indiferentes diante das articulações de Martin Luther King Jr. ou Gandhi como opositores de suas causas. Assim como não faz sentido atribuir a quem se calou diante da luta pela melhoria da sociedade, os créditos da vitória. Afinal, se ausentaram, para o bem ou para mal. O que não dá pra fugir, independentemente da postura política, são as consequências dos que se propõe a entrar na disputa e vencem, como disse Arnold Toynbee: "O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam." O preço da ausência é ficar, em maior grau, a mercê do que vier. Platão é ainda mais apocalíptico ao dizer que "o preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior."

Diego Cosmo