14 de novembro de 2013

SOCIEDADE DO CONSUMO VS. SOCIEDADE DO RESUMO

Longe de serem diametralmente opostos, são complementares e até consequentes. A revolução industrial aumentou, como nunca, o ritmo produtivo e suas escalas. Esta capacidade reduziu os custos, maximizou os lucros e potencializou os interesses dos donos da produção.

A regra foi: produzir - haverá quem compre.

Óbvio que não acabaria bem. Ainda mais com todos pensando da mesma maneira. As crises começaram a explodir em todo lugar. Afinal, para dar certo, a sociedade precisava mudar seu comportamento. Ao final da crise, o capitalismo estava mais forte do que nunca e encontrara um oponente a altura, seu anteposto: o socialismo. Cada qual partiu em sua jornada de catequização. O capitalismo com seu valor de consumo associado à liberdade. O socialismo nos valores, não de igualdade, mas do poder nas mãos das classes menos favorecidas. O resto é história.

O valor de consumo ganhou ainda mais força depois da Segunda Guerra. Já não era o capitalismo que era pregado pelo mundo, mas o “american way of life”. A liberdade mais do que nunca associada à liberdade de consumo, áreas como marketing e branding, que sequer existiam pouco antes, tinham total importância para as empresas: agregar valor ao consumo. Assim, o consumo passou a ganhar outras associações, além da famigerada liberdade: status, beleza, conquistas, sucesso, satisfação,
felicidade.

Consumir, consumir, consumir. O que era um comportamento, tornou-se valor. Tudo passar a ser “consumível”. Do sanduíche ao amigo. Tornou-se uma necessidade. A boa e velha imprensa já não atendia a demanda insana de leitores que queriam consumir informação. Por isso, os veículos de massa ampliaram suas forças e invadiram o ar. Rádio e TV, de antenas aos satélites. Mesmo assim, parecia pouco para uma sociedade que demonstrava não se satisfazer nunca, mesmo com mais jornais que fora possível um ser humano ler. É mais importante consumir informção e o mundo se encheu de informação por todos os lados.

A regra tornou-se SINTETIZAR.

Marcas resumidas a um desenho ou cor. Cartas chegando instantaneamente na tela. Fotos ganhando muito mais destaques, resumos antes da leitura. Notícias de há pouco, agora. Pobre celulose. Jamais seria capaz de acompanhar consumo tão insano que se alastra como uma praga, infectando tudo, como um parasita que necessita se propagar qualquer que seja a maneira, os memes de Richar Dawkins (O GENE EGOISTA, 1976).

O imprevisto mais previsível nasceu: tanto consumo precisaria sair de alguma forma e o receptor não se satisfazia mais com seu status e transformou-se em emissor. Milhões de blogs explodindo. O consumo ganhou tanto valor social que ser consumido passou a ser um novo valor. Falar para ser consumido. Mais uma vez o parasita mostrava suas garras e pelo excesso dos que queriam ser consumidos. Fernando Pessoa tornaria a regra assim:

Sintetizar é preciso. Viver não.

Jornais reduziram seu volume de textos, ampliaram títulos e fotos, fortaleceram resumos. Blogs se tornaram menores (“ninguém tem tempo para ler muita coisa na internet”) - criou-se uma nova convenção social. De consumo e resumo os jovens se comunicavam de forma cada vez mais dinâmica, celuares em mãos, SMS. A internet cada vez mais móvel. Outdoors, leituras em 5 segundos; banners de internet, interatividade em 3 segundos; Google, uma página em branco buscando em 0,2 segundo; Longos vídeos de 2 minutos. O resultado não poderia ser outro: sintetizar os blogs, tweets. O resumo forçado, limitado a 140 caracteres (um SMS). Pobre iludidos, pensando que venceriam com serviçõs que não limitariam o usuário, mas o usuário QUERIA limites. Havia muita informação sendo produzida e recebida. As “rédeas” funcionavam como um grito de socorro. Resumir para consumir ainda mais.

Em resumo, a próxima regra está cada vez às beiras: uma imagem vale mais que mil palavras.

Muito mais síntese expressa. Este caminho já começou. Buscadores limpos como o Google, mas tornando-se cada vez mais visual. Google Imagens buscando muito mais visualmente, mosaicos. Prepara-se para um futuro ainda mais visual. E só começou.

13 de novembro de 2013

A PERFEITA IMPERFEIÇÃO

A perfeição é um conceito abstrato e relativo, o perfeito pra mim, pode não ser pra outro. Então, se o mundo fosse perfeito pra mim, seria imperfeito pra outro, o que resultaria numa redução drástica - do tamanho que um mundo de uma só pessoa pode ter. Não haveria qualquer divergência ou conflito com o que eu julgasse ser um mundo perfeito. Todo o progresso tecnológico e intelectual seriam assustadoramente reduzidos ao que a ausência da pluralidade podem alcançar. Todos os eventos estariam necessariamente submetidos às minhas expectativas, uma vez que poderiam gerar frustração, caso me surpreendessem negativamente. Não haveriam surpresas e nem novidades, pois já estaria tudo perfeito, não haveria a possibilidade de aprender aquelas coisas que só se aprendem com as frustrações e os riscos. Portanto, no principio, aparentemente, fomos salvos da perfeição sem nem mesmo sabermos que a perfeição consiste em toda essa imperfeição.

Diego Cosmo

12 de outubro de 2013

AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO

Quando o filósofo talmúdico Rabi Hillel foi desafiado por um possível convertido a explicar o ensinamento de Deus enquanto pudesse se sustentar numa perna só, ele ofereceu o "amar o próximo como a si mesmo" como a única resposta, embora complete, que encerra a totalidade dos mandamentos divinos. Aceitar esse preceito é um ato de fé; um ato decisivo, pelo qual o ser humano rompe a couraça dos impulsos, ímpetos e predileções "naturais", assume uma posição que se afasta da natureza, que é contrária a esta, e se torna o ser "não natural" que, diferentemente das feras (e, na realidade, dos anjos, como apontou Aristóteles), os seres humanos são. Aceitar o preceito do amor ao próximo é o ato de origem da humanidade. (...) Também é a passagem decisiva do instinto de sobrevivência para a moralidade. (...) Torna a sobrevivência humana diferente daquela de qualquer outra criatura viva.

Zigmunt Bauman (Amor líquido; págs: 98 e 99)

RELACIONAMENTO DE BOLSO

Uma relação de bolso bem sucedida, diz Jarvie, é doce e de curta duração. Podemos supor que seja doce porque tem curta duração, e que sua doçura se abrigue precisamente naquela reconfortante consciência de que você não precisa sair do seu caminho nem se desdobrar para mantê-la intacta por um tempo maior. De fato, você não precisa fazer nada para aproveitá-la. Uma "relação de bolso" é a encarnação da instantaneidade e da disponibilidade. (...).

Primeira condição: deve-se entrar no relacionamento plenamente consciente e totalmente sóbrio. Lembre-se: nada de "amor à primeira vista" aqui. Nada de apaixonar-se... Nada daquela súbita torrente de emoções que nos deixa sem fôlego e com o coração aos pulos. Nem as emoções que chamamos de "amor" nem aquelas que sobriamente descrevemos como "desejo". Não se deixe dominar nem arrebatar, e acima de tudo não deixe que lhe arranquem das mãos a calculadora. E não se permita tomar o motivo da relação em que você está para entrar por aquilo que ele não é e nem deve ser. A conveniência é a única coisa que conta, e isso é algo para uma cabeça fria, não para um coração quente (muito menos superaquecido). Quanto menor a hipoteca, menos inseguro você vai se sentir quando for exposto às flutuações do mercado imobiliário futuro; quanto menos investir no relacionamento, menos inseguro vai se sentir quando for exposto às flutuações de suas emoções futuras.

Segunda condição: mantenha-o do jeito que é. Lembre-se de que não é preciso muito tempo para que a conveniência se converta no seu oposto. Assim, não deixe o relacionamento escapar à supervisão do chefe, não lhe permita desenvolver sua lógica própria e, especialmente, adquirir direitos de propriedade - não deixe que caia do bolso, que é seu lugar. Fique alerta. Não durma no ponto. Observe atentamente até mesmo as menores mudanças naquilo que Jarvie chama de "subcorrentes emocionais" (obviamente, as emoções tendem a se transformar em "subcorrentes" quando deixadas livres das amarras do cálculo). Se notar alguma coisa que você não negociou e para a qual não liga, saiba que "é hora de seguir adiante". É o tráfego que sustenta todo o prazer. Mantenha o bolso livre e preparado. Logo vai precisar pôr alguma coisa nele e - cruze os dedos - você vai conseguir...

Zigmunt Bauman (Amor Líquido; págs: 36 e 37)