5 de fevereiro de 2014

MAS O ENSINO ERA TÃO CLARO

– Mas o ensino era tão simples e claro – disse Belzebu, ainda relutando em acreditar que seus servos tivessem feito o que não lhe ocorrera fazer. – Era impossível interpretá-lo de forma errada. “Façais aos outros o que quereis que vos façam!” Como distorcer isso?

– Bem, aconselhados por mim eles utilizaram diversos métodos – respondeu o diabo de capa. – Os homens contam a história de um mágico bom que salvou uma pessoa de um mágico perverso transformando a pessoa num minúsculo grão de trigo; o mágico mau, tendo se transformando num galo, estava prestes a bicar o grãozinho, mas o mágico bom esvaziou uma saca de trigo sobre ele. O mágico mau não tinha como comer todo o trigo, pelo que não conseguiu encontrar o único grão que desejava. Foi isto que a conselho meu fizeram com o ensino daquele que ensinava que a lei consiste em fazer aos outros o que desejamos que façam a nós. Eles aceitaram sessenta e seis livros diferentes como sendo a exposição sagrada da lei de Deus, e declararam que cada palavra desses livros era produção de Deus, o Espírito Santo. Sobre o simples e facilmente compreensível eles derramaram tamanha coleção de verdades pseudo-sacras que tornou-se impossível, por um lado, aceitá-las todas, e por outro encontrar entre elas a única verdade necessária para o homem.

– Este foi o primeiro método. O segundo, que usaram com sucesso por mais de mil anos, consistiu simplesmente em matar e queimar qualquer pessoa que desejasse revelar a verdade. Este método está entrando agora em desuso, mas eles não o abandonam por completo; embora não queimem os que expõem a verdade, caluniam-nos e envenenam as suas vidas de tal forma que são poucos os que arriscam desmascará-los.

– Este foi o segundo método. O terceiro é que, sustentando serem eles mesmos a Igreja e portanto infalíveis, eles ensinam simplesmente, e quando lhes convém, o contrário do que dizem as Escrituras, deixando para seus discípulos extraírem eles mesmos, a partir dessas contradições, o que puderem e o que lhes agrade. Por exemplo, se as Escrituras dizem: “A ninguém na terra chameis de vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo”, eles dizem: “Nós apenas somos os pais, e nós apenas somos os mestres dos homens”. Foi dito: “Tu, quando orares, faze-o em oculto, e Deus te ouvirá”, mas eles ensinam que os homens devem orar em igrejas, na companhia de outros, com cântico e música. As Escrituras dizem: “De maneira nenhuma jureis”, mas eles afirmam que é necessário jurar obediência implícita às autoridades qualquer que seja a demanda delas. Foi dito: “Não matarás”, mas eles ensinam que podemos e devemos matar, em conformidade com a lei. Foi dito: “Meu ensino é espírito e vida. Alimentai-vos dele como que de pão”, mas eles ensinam que se pedacinhos de pão forem molhados em vinho e certas palavras forem proferidas sobre eles, esses pedacinhos de pão tornam-se carne e o vinho torna-se sangue, e que comer este pão e beber este vinho é muito proveitoso para a salvação da alma. As pessoas acreditam nisso e comem obedientemente esses bocados molhados de pão, e depois quando caem nas nossas mãos ficam perplexos de que os bocados não os tenham ajudado.

E o diabo de capa, rolando os olhos e virando as órbitas para cima, sorriu de orelha a orelha.

– Isso é excelente – disse Belzebu, e sorriu. E todos os diabos caíram na risada.

Paulo Brabo

31 de dezembro de 2013

PRESSUPOSTOS TEOLÓGICOS

Os pressupostos talvez sejam pras ideias, o que os genes são para o organismo. Isto é, podem explicar muita coisa, e na construção de uma teologia não é diferente. Nossas formulações referentes à Deus partem de nós mesmos, e de quem mais poderia partir, né? Numa lógica semelhante, Deus nos fez a sua imagem e semelhança, assim como nós também o criamos a nossa imagem e semelhança. O problema é quando Deus é dado a mistérios.. Isso abre espaço de criação para uma variação infinita de Deus, ou Deuses, porque uma vez que somos diferentes, teremos nossas próprias crenças, e as crenças como matéria-prima da realidade é o mesmo que, entre outras coisas, abrir uma caixa de pandora. Resultado: alguns têm um Deus que ama mandar pessoas para o inferno, e outros um Deus que ama incondicionalmente e jamais faria isso.

As religiões por trás disso tudo, carregam uma arrogância típica da crença, o que é problemático. É arrogância porque a crença se fecha em si mesmo num grau que torna qualquer ecumenismo inviável, geralmente, não há humildade nas convicções. Crença é um bicho muito certo de si. Como disse Elienai Cabral Jr: "O texto frio da lei é fluente no simulacro da moral. A letra grafada e morta não vasculha corações nem pergunta por afetos, não ilumina interioridades nem chora misérias, mata."

Tenho visto, em várias igrejas, um Deus claramente sádico. Sádico porque os membros mais representantes/fervorosos dessas comunidades, fazem coisas estranhas para seu Deus, a começar por sacrifícios envolvendo algum tipo de abstinência (não transar), ou dor (orar de joelhos) etc. Como se Deus ficasse feliz ao ver algum tipo de sofrimento.. Se Deus é amor, é de se esperar que ficasse mais feliz ao ver beleza. Eu também, como Rubem Alves: "Nunca ouvi de um devoto que tivesse oferecido a Deus uma sonata de Mozart ou um poema de Fernando Pessoa." É estranho que num espaço que fala-se tanto de Amor, tenha surgido uma espiritualidade tão calcada na negação do prazer e em sua, muitas vezes, demonização. Qual o sentido por trás disso, se boa parte da religião se presta ao esforço do homem em dar sentido a vida? Inclusive, falando em vida.. É irônico tanta ênfase dada ao pós-túmulo. Basicamente, numa dinâmica: Céu (recompensa/créditos) e inferno (castigo/débitos), e que configuram a base das liturgias tão presentes nos cultos. No final das contas, o medo, claro, é o principal fator que impulsiona a maioria dos crentes. Nas palavras de Napoleão Bonaparte: "duas alavancas movem o homem: interesse e medo."

As especulações a respeito da morte são, não mínimo, curiosas. Até onde entendi, para os cristãos, a morte é um caminho que se bifurca entre céu e inferno. Obviamente, assim espero, a expectativa para os cristãos é de que irão para o céu, afinal, para que serviria tanto trabalho: jejuns, leitura da Bíblia, orações etc...? Mas, se o céu implica em ter uma vida melhor, por que não procurar uma forma de encurtar o caminho? Até mesmo porque as expectativas de vida aqui só aumentam.. Há quem por muito menos, um punhado de virgens, por exemplo, instala bombas no corpo e "tchau e bença".. Isso que é acreditar no seu "Deus".. Enfim, o que parece, é que os cristãos "acreditam" nessa dicotomia céu/inferno somente até onde lhes convém.

"Minha fé não é aquilo em que acredito. Minha fé não está naquilo em que acredito, e nem poderia estar. Minha fé não é adequadamente expressa por aquilo em que acredito, e nem poderia ser. Toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião, a crença é confortadora, a pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura. Não tenho como recomendar a crença; sua única façanha é nos reunir em agremiações, cada uma crendo-se mais notável que a outra e chamando seu próprio ambiente corporativo de espiritualidade. Não tenho como endossar a crença; não devo dar a entender que a espiritualidade pode ser adequadamente transmitida através de argumentos e explicações. Minha espiritualidade não deve ser vivida ou expressa de forma menos revolucionária." (Paulo Brabo)

Fui criado em berço protestante e cresci também sob a catequização a que muitos são envolvidos desde muito cedo. Mas quando me perguntam se acredito em Deus, num primeiro momento é embaraçoso porque nunca sei a que deus a pergunta se trata, meu Deus certamente não é o mesmo que o seu. "Meu céu não é igual ao seu. Nem poderia ser. Nossas saudades são diferentes.", disse Rubem Alves. Depois penso no que Miguel de Unamuno falou: "Acreditar em Deus é, antes de mais nada e principalmente, querer que ele exista." Não sei também qual é o Deus que a maioria das pessoas anseiam que exista. Então é isso, Shakespeare já dizia: "Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."

Diego Cosmo

28 de novembro de 2013

HYPE-CYCLE

"Depois do período de decepção, cada tecnologia acaba alcançando o seu real papel no espectro tecnológico - sem ser solução para tudo, mas tendo sua finalidade específica - e, nesse momento de maturidade, alcança sua real importância no cenário mercadológico."

Martha Gabriel (Marketing na Era Digital; pág: 116)

A INTERNET DAS COISAS

Os termos web 1.0, 2.0 e 3.0 estão mais relacionados à mudança no comportamento dos usuários  web do que as tecnologias que proporcionaram essas mudanças.

A web 1.0 é a web estática, onde as pessoas apenas navegam e consomem informações. A web 2.0 é a web da participação, onde as pessoas usam a web como plataforma para todo tipo de interação: blogs, videos, fotos, redes sociais. A web 2.0 é o que chamamos de computação em nuvem - os aplicativos (como GMail, redes sociais, etc.) ficam na internet (nuvem de computadores) acessados por meio de computadores com conexão on-line. Hoje, a predominância de informações na web é documentada. Em breve, devido aos sensores do tipo RFID e as tags como os QRcodes, qualquer coisa poderá fazer parte da internet, não apenas documentos. Assim, pessoas, animais, objetos, lugares ou absolutamente qualquer coisa mesmo poderá ser parte da web.

Passamos da web estática para a web dinâmica. Da web da leitura para a web da participação. Da web uma via para a web de duas mãos. Da web de páginas para a web como plataforma. Da web de reação para a web de participação. Da web discurso para a web conversação. E estamos caminhando para a web da interação, a web semântica, a internet das coisas.

Martha Gabriel (Marketing na Era Digital; págs: 78 e 79)