28 de setembro de 2010

A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE


Devemos caminhar de olhos abertos em direção a essa armadilha, com coragem, mas com pouca esperança para nós mesmos. Pois, meus senhores, pode muito bem acontecer que literalmente tombemos numa batalha negra longe das terras viventes, de modo que mesmo se Barad-dûr for destruída não viveremos para ver uma nova era. Mas considero que esta é nossa tarefa. E isso é melhor do que perecer, de qualquer forma - como certamente acontecerá, se ficarmos aqui parados - e saber na hora de nossa morte que não vai haver uma nova era.

J.R.R. Tolkien (O Senhor Dos Anéis; pág: 932)

12 de agosto de 2010

A PIEDADE PERVERTIDA

O louvorzão, assim como as vigílias e as reuniões de oração, e até mesmo o mais simples culto de domingo, muitas vezes não passam de um tipo de superstição que beira a feitiçaria, uma vez que ele é realizado com o intuito de "forçar" uma ação benévola da parte de Deus, como se o culto e o louvor fossem um "sacrifício", como os antigos sacrifícios pagãos. Neste caso, não temos mais liturgias, mas sim teurgias, nas quais procura-se manipular o poder de Deus.

Ricardo Quadros Gouvêa (A Piedade Pervertida)

6 de agosto de 2010

A SOMBRA VAI RECUAR, E A PAZ VOLTARÁ

É uma lástima a loucura destes dias! - disse Legolas. - Todos aqui são inimigos do único Inimigo, e mesmo assim devo andar como um cego, enquanto o sol alegra a floresta sob as folhas douradas! - Pode ser loucura - disse Haldir. - Mas na verdade o poder do Senhor do Escuro nunca se manifestou tão claramente como na hostilidade que divide todos aqueles que ainda se opõem a ele. (...) Que não ousamos arriscar a segurança de nossa terra confiando demais nos outros. Vivemos atualmente numa ilha rodeada de perigos, e nossas mãos tocam com mais freqüência os arcos que as harpas. (...) O mundo está cheio de perigos, mas ainda há muita coisa bonita, e embora atualmente o amor e a tristeza estejam misturados em todas as terras, talvez o primeiro ainda cresça com mais força. - Existem alguns entre nós que cantam que a Sombra vai recuar, e a paz voltará. Mesmo assim, não acredito que o mundo à nossa volta possa ser o mesmo de antigamente, ou mesmo que a luz do sol possa bilhar com a mesma intensidade. Receio que aos elfos restará, na melhor das hipóteses, uma trégua durante a qual poderão passar para o mar sem serem molestados e deixar a Terra-média para sempre. Sinto por Lothlórien, que tanto amo! A vida seria pobre numa terra onde não nascesse algum mallorn. Mas se existem pés de mallorn do outro lado do Grande Mar, ninguém nunca comentou.

J.J.R. Tolkien (O Senhor Dos Anéis; págs: 362 e 363)

18 de julho de 2010

"DEVER"

- Doutor Breuer, essa hora foi curta demais. Estou ávida por mais um pouco de seu tempo. Posso caminhar com o senhor de volta ao hotel?

O convite impressionou Breuer pela ousadia e masculinidade; entretanto, dos lábios dela, soava como normal, não afetado - a forma natural como as pessoas deveriam conversar e viver. Se uma mulher aprecia a companhia de um homem, por que não lhe dar o braço e pedir para andar com ele? Contudo, que outra mulher sua conhecida teria proferido essas palavras? Estava diante de uma espécie diferente de mulher. Aquela mulher era livre!

- Jamais lastimei tanto declinar um convite - disse Breuer, puxando o braço dela para mais perto dele -, mas é hora de voltar, e voltar sozinho. Minha adorável mas preocupada esposa estará esperando na janela e é meu dever mostrar-me sensível aos sentimentos dela.

- É claro, mas - ela puxou o braço para ficar face a face com ele, auto-contida, vigorosa como um homem - para mim a palavra "dever" é pesada e opressiva. Reduzi meus deveres a apenas um: perpetuar minha liberdade. O casamento e seu séquito de possessão e ciúme escravizam o espírito. Eles jamais me dominarão. Espero, doutor Breuer, que chegue o tempo em que nem o homem nem a mulher sejam tiranizados pelas fraquezas mútuas.

Irvin D. Yalom (Quando Nietzsche Chorou; págs: 22 e 23)