17 de janeiro de 2013

A ÉTICA DOS HACKERS


Em 1984, o jornalista Steven Levy publicou Hackers: Heroes Of The Computer Revolution, que relatava a desgrenhada subcultura que não apenas criou o computador pessoal (e, eventualmente, a Internet), como também a identidade social única que o acompanhou. Ele relaciona sete princípios da "ética dos hackers"

01 - O acesso a computadores - e a qualquer coisa que possa ensinar algo sobre o funcionamento do mundo - deve ser irrestrito e total.
02 - Sempre se submeta ao Imperativo da Mão na Massa!
03 - Toda informação deve ser grátis.
04 - Não confie nas autoridades - promova a descentralização.
05 - Os hackers devem ser julgados por suas ações, não por critérios artificiais como diplomas, idade, raça ou posição.
06 - É possível criar arte e beleza em um computador.
07 - Os computadores podem mudar sua vida para melhor.

Chris Anderson (Free - O Futuro dos Preços; pág: 95)

Em memórias de Aaron Swartz

23 de dezembro de 2012

A ALMA QUER REENCONTRAR

O infantil não é o regressivo: é o eterno, o que sempre foi, o que sempre será, o objeto da saudade e da nostalgia, o objeto perdido que se espera reencontrar no futuro. (...) Uma conexão com a terminologia psicanalítica. A Feira das Utilidades é entidade consciente, regida pela razão instrumental, cujo objetivo é conhecer e dominar a "realidade" ("princípio da realidade"). A realidade exterior acontece dentro do tempo linear, histórico, que anda sempre para a frente, vetor que sai do passado e vai para o futuro. A Feira da Fruição, entretanto, é regida pelo tempo circular, que anda para trás, na busca dos objetos amados perdidos. Tempo da saudade. A alma não quer ir para a frente. A alma quer reencontrar, no futuro, aquilo que ela amou e perdeu, no passado. Para a alma, o que se espera, no futuro, é o reencontro do Paraíso Perdido. Relembro o curto verso de T.S. Eliot: "E o fim de todas as nossas explorações/ Será chegar ao lugar de onde saímos/ E conhecê-lo então pela primeira vez."

Rubem Alves (Variações Sobre o Prazer; págs: 107 e 108)

21 de dezembro de 2012

MEU ESBOÇO, MEU ROSTO

Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de habitações, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.

Jorge Luis Borges

O HOMEM DEVE REENCONTRAR O PARAÍSO

Será que Deus fica feliz quando vê os seres humanos sofrendo? A tradição cristã tem medo do prazer. Prazer é artifício do Diabo. Tanto assim que, para agradar a Deus, os fiéis se apressam a oferecer-lhe sofrimentos e renúncias, certos de que é o sofrimento dos homens que lhe causa prazer. Digo isso pelo fato de que os fiéis, ao fazerem promessas a Deus para obter seus favores, o que lhe oferecem são sempre objetos dolorosos. Nunca ouvi de um devoto que tivesse oferecido a Deus uma sonata de Mozart, um poema de Fernando Pessoa ou fazer amor. A igreja ensinou que o prazer é o ninho do pecado. Como se o mundo fosse um imenso jardim cheio de árvores com frutos doces e coloridos, com placas em todas elas dizendo: "Proibido". Horrorizam-se, portanto, com o prazer que aparece ligado às funções sexuais, o que faz com que os órgãos sexuais sejam usados como brinquedos prazerosos, sem nenhuma intenção reprodutora. Tratam de denunciá-lo, assim, como perigoso lugar de tentação e perdição, e chegam a afirmar que o pecado original foi uma relação sexual. Não lhes passa pela cabeça que, se Deus não desejava que houvesse sexo, não nos teria feito macho e fêmea, e nem teria colocado tanto prazer nas funções sexuais.

O poeta inglês William Blake disse isso num curtíssimo poema: "Fui andar pelo jardim do amor, e o que vi não era o esperado: encontrei, ao invés das flores, sepulturas e lápides frias espalhadas. Sacerdotes em vestes negras vigiavam e, com espinhos, os risos e as alegrias amarravam". Mas como me horroriza imaginar que Deus possa ser um ser narcísico que se considera o único objeto digno de fruição em todo o universo, tratei de encher a Feira da Fruição com uma infinidade de coisas boas. Pois acho que foi pensando no prazer e na alegria dos homens que Deus povoou o Paraíso com uma infinidade de coisas belas, perfumadas, musicais, delicadas e gostosas. Deus não se dá aos nossos sentidos. O que ele dá aos nossos sentidos é o Paraíso, o jardim.

A espiritualidade que nos ensinaram foi construída sobre a negação do prazer. O caminho da santidade é o caminho do sofrimento. Não conheço nenhum santo que tenha um rosto sorridente. Alegrando-se na contemplação das telas da Bíblia de Marc Chagall, o filósofo e poeta francês Gaston Bachelard proclamou a sua fé: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso".

Rubem Alves (Pimentas)