3 de agosto de 2011

A CORRUPÇÃO DO PROTESTANTISMO DIANTE DO CAPITALISMO

Banksy

A análise de Weber não busca estabelecer uma relação causal entre o espírito do protestantismo e o espírito do capitalismo, mas antes, a relação funcional do primeiro em relação ao segundo: o espírito protestante é estruturalmente semelhante ao espírito do capitalismo e por isso mesmo adaptado a ele e adequado à sua expansão. Ora, na medida em que o mundo ocidental se rege pela lógica do capitalismo, podemos concluir que o protestantismo se sente em casa neste mundo, enquanto o catolicismo se descobre como exilado. A ideologia protestante unifica a liberdade do indivíduo, a democracia liberal e o progresso econômico como expressões do espírito do protestantismo. Em resumo: o mundo moderno é um fruto do protestantismo.

O espírito do protestantismo é o espírito de revolta contra todas as ordens institucionalizadas. A Reforma sacralizou a consciência e dessacralizou o mundo. E ao fazer isso a consciência se descobriu sem um lar. A civilização já não tem uma dimensão de profundidade sacral. O sagrado é substituído pelo útil. Não sendo o espelho do divino, mas um simples produto da atividade humana, o mundo já não se presta como ponto de referência para as exigências religiosas da alma. Destituído de sua aura divina, dessacralizado e desencantado, resta o mundo como simples matéria-prima para a atividade dos homens. A reverência à ordem civilizatória é substituída por uma atitude de orgulhosa rebelião contra ela. A grande conquista protestante, sacralizar a personalidade, tem como seu reverso a secularização do mundo, que agora não mais pode ser gozado misticamente como o ventre divino. O mundo não se constrói sobre o sagrado. Ele é fruto do utilitarismo. E com o utilitarismo surge a possibilidade permanente de anomia. E isso porque num mundo em que todas as coisas são medidas em termos de utilidade o próprio homem se sente sempre na iminência de perder-se, com a perda da sua utilidade.

A reforma é o início da incredulidade moderna e a chave para se compreender todos os fenômenos monstruosos dos tempos modernos. No espírito do protestantismo, portanto, estão presentes as causas da desintegração da civilização ocidental.

Weber concorda em que existe uma grande afinidade entre o espírito do protestantismo e o espírito da modernidade. Mas a modernidade, representada pela lógica capitalista e pelas tendências à racionalização do comportamento e à burocratização, longe de ser uma expressão de liberdade e dos ideais democráticos, representa exatamente o seu oposto. O ideal democrático fala de uma organização política que não é imposta verticalmente de cima para baixo. Sua intenção é articular uma ordem que exprima as tendências sociais presentes nas bases humanas da sociedade. Uma sociedade democrática, assim, deveria ser uma objetivação da liberdade, uma expressão e um instrumento da "razão" imanente nos cidadãos como indivíduos.

Existe uma oposição absoluta entre, de um lado, liberdade e carisma e, de outro, as necessidades funcionais de disciplina e organização exigidos por uma sociedade comprometida com o progresso e o crescimento econômico. "Ou modernidade ou liberdade. As duas não podem ser afirmadas ao mesmo tempo". As exigências funcionais do sistema de produção - exatamente o sistema que é o fundamento do progresso - não podem permitir o comportamento individualmente diferenciado, seja ele determinado por exigências do organismo, seja ele determinado por valores pessoais divergentes. Em outras palavras: na medida em que o espírito protestante se ajusta à ética de disciplina e asceticismo do sistema de produção capitalista, torna-se impossível continuar a manter os ideais individualistas, libertários, críticos, que encontramos nos momentos iniciais da Reforma. Se, nas suas origens, o protestantismo foi um protesto da consciência contra as imposições de certo sistema; se ele proclamou a prioridade da "graça" sobre a "lei"; se ele afirmava que a pessoa, em decorrência da sua ligação direta com Deus, devia ser o pólo axiológico para a denúncia profética de todos os sistemas que pretendiam transformar a pessoa em função - o fato histórico, entretanto, é que a ligação do protestantismo com o progresso abortou os seus ideais fundadores.


Rubem Alves (Dogmatismo e Tolerância; págs: 90, 91, 92, 93, 94 e 95)

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