18 de maio de 2010

EM LOUVOR AOS PECADORES


Em grande parte, depois de conviver por décadas com gente santa, só fui conhecer Jesus pessoalmente através dos pecadores. Não fui encontrá-lo na igreja, onde insistíamos que ele morava e onde falávamos metade do tempo sobre ele. Na igreja encontrei meus amigos mais bem-intencionados, muitos deles assustadoramente queridos e carentes, mas oprimidos como eu debaixo de um sistema fundamentado em medo e desejo. Por mais que eu simpatizasse com o calor da instituição e com o mérito das boas intenções, nada eu testemunhava ou vivia da satisfação inerente, a generosidade, a paixão e a terrível liberdade que os evangelhos atribuíam ao Filho do Homem. Cantávamos, chorávamos e nos abraçávamos debaixo do mesmo teto piedoso, mas ali não estava o espírito de Jesus.

Como eu suspeitava, os pecadores não se entregam como nós na igreja a pecados mesquinhos como a hipocrisia, a mentira e o orgulho; abrem eles mão desses amadorismos e tratam da coisa em si, da sem-vergonhice mais vital, sensorial e carnal - sexo, drogas e rock 'n' roll. Não esperava encontrar entre os pecadores, e pela primeira vez na vida, a terna experiência do espírito de Jesus. Não em mim. Neles. Os evangelhos atribuem ao Filho do Homem tremendas paixões, vitalidade, generosidade e independência; o livro de Atos e as cartas falam de cristãos que "tinham tudo em comum" e "eram de um só coração". Em seus momentos mais idealistas Jesus fala em amar os inimigos, dar a outra face, emprestar sem esperar receber de volta, oferecer um banquete a quem não tem como retribuir. Paulo descreve um mundo sem preconceito de sexo, raça ou classe social. João garante que Deus é amor, e que o amor abre mão de qualquer traço de temor. Paradoxalmente, este mundo definido em termos positivos poucos cristãos chegam em qualquer medida a experimentar. Escolhemos nos definir não por essas qualidades afirmativas - aquilo que o apóstolo chama de "Fruto do Espírito" - mas pelo que é negativo e paralisante e opressor contra os outros e nós mesmos: a culpa, a mesquinhez, a repressão, a neurose, a negação, o niilismo. O mundo em que todos se aceitam e se amam, embora faça parte da nossa pregação nominal, nos é aterrorizante por natureza. Tudo em nossa postura batalha contra ele. A "gloriosa liberdade dos filhos de Deus" não nos interessa. Alguém me dê depressa um líder carismático e um rol muito claro de mandamentos - é só o que pedimos.

Entre os pecadores encontrei um universo livre da superficialidade de igreja e da irrelevância burguesa da faculdade. Aqui estava um mundo que escolhia se definir, na prática e não a partir de qualquer discurso ou demagogia, pela aceitação e pelo amor. Aqui estava gente que tinha tudo em comum, até mesmo - onde está, Mamom, a tua vitória? - o dinheiro. Gente que ignorava rótulos de classe, sexo e conta bancária para se tratar como gente no sentido mais fundamental da coisa. Gente que se recusava a ser manipulada pelo desejo e pelo temor, e o fazia entregando-se a um e mandando às favas o outro. A comunhão que experimentam, descobri, não tem limites; sua generosidade, que não espera recompensa que não o instante, não tem paralelo. Os pecadores abrem suas portas uns aos outros a qualquer momento do dia ou da noite; repartem sua droga, seu dinheiro, sua casa e seu pão sem nenhum trâmite ou transação, seja com um irmão importuno seja com o desconhecido em que acabam de tropeçar. Emprestam, terrivelmente, sem esperar receber de volta. Carregam quem precisa ser carregado, descolam um trampo para quem precisa, tiram a camisa para quem vomitou na roupa, emprestam a chave do carro para quem não tem onde fumar, providenciam o apartamento de alguém na praia para o que foi expulso de casa, repartem sem chiar ou cobrem o tanque de gasolina. Trabalham tanto para os outros quanto para si, acolhem com graça incondicional; são compassivos até para com os que não o toleram, longânimos com os que todos já decidiram ser melhor rejeitar. Convivem sem traumas com a consciência, apavorante para nós, de que não são melhores que ninguém.

Entre os pecadores não transita apenas a legitimidade de quem se recusa a ter o que esconder; rola, senhoras e senhores, um amor - e tão forte que lança fora todo o medo. São gente boa no sentido afirmativo da coisa. Gente sensualista, mas raras vezes desonesta. Autoindulgente, mas sempre generosa. Pecadora, mas não proselitista. Matam-se, mas o que fazem pelos outros é só resgatar. Morrem, mas abraçados. Não é difícil entender porque Jesus curtia tanto a companhia dos pecadores e não escondia seu orgulho em associar-se a eles. A integridade existe e a verdadeira comunhão não é uma impossibilidade: os pecadores legítimos não as desconhecem. Louvados sejam nas alturas os grandes pecadores, porque uma porção fundamental de Jesus sobrevive na Terra apenas através deles.


Paulo Brabo (A Bacia das Almas; págs: 147, 148, 149 e 150)

4 comentários:

Facundo disse...

Eita que esse Paulo Brabo tá virando o profeta dos MMIS (Movimento dos Molestados por Igrejas Sacanas). Pobre Rubem Alvez, perdeu a majestade! kkkkkkkkkkk

Só uma ressalva, num tá faltando alguém nessa mesa não?

:-P

abraço cara!

Diego Cosmo disse...

hehehe! Boa idéia! Apoio esse movimento aí xD embora eu não tenha permitido que eu fosse muito molestado por ela mas conheço gente que ainda é e foi...

Rapaz... nessa mesa falta e já tem muita gente mas aqui é que nem a topique 05, sempre cabe mais um hehe

abraço meu brother

Lucas Queiroz disse...

Ei mah, virou santo foi ?! hehe
Nao anda mais na roda dos pecadores .. rsrs
Aparece aew valeu !

Vitoria Esewer disse...

Pelo menos metade da minha família precisava ler isso...