5 de fevereiro de 2016

DEFININDO A LUTA

Cus D'Amato e Mike Tyson

Na academia, Cus tinha algumas técnicas bem incomuns e pouco ortodoxas. Algumas pessoas riam do estilo que ele ensinava, mas era porque realmente não o entendiam. Chamavam esse estilo de "esconde-esconde". Era bastante voltado para a defesa. Você fica com as duas mãos em frente ao rosto, quase como se estivesse só se defendendo e esperando pelo momento certo. Suas mãos e cotovelos movimentam-se com você; então, quando o cara dá o soco, você o bloqueia ao mesmo tempo que avança, e aí contra-ataca.

A ofensiva de Cus começava com uma boa defesa. Achava de suma importância seu lutador não ser atingido. Para ensinar a desviar dos socos, usava um saco de pancada slip bag, um saco de lona cheio de areia, pendurado com uma corda. O objetivo era se movimentar em torno dele se esquivando, movendo a cabeça para evitar que batesse em você. Fiquei realmente bom nisso.

Depois, usamos uma coisa chamada Willie, em homenagem ao lutador Willie Pastrano. Era uma estrutura envolta por um colchão coberto de lona. Tinha um desenho de um torso sobre ele. O corpo estava dividido em diferentes zonas, e cada zona tinha um número associado a ela. Os números ímpares eram socos de mão esquerda, os números pares, de mão direita. Então, Cus punha uma fita cassete com ele falando as várias sequências de números. Aí, você ouvia "cinco, quatro" e imediatamente desferia um golpe de esquerda no corpo e um uppercut de direita no queixo. A ideia era que, quanto mais se repetisse essas ações em resposta aos números, mais elas se tornariam instintivas e automáticas e não seria possível pensar conscientemente nelas. Depois de um tempo, conseguiria dar socos com os olhos fechados.

Cus achava que os lutadores eram atingidos por golpes de direita porque ficavam parados e com as luvas muito baixas. Então, em ensinou a me movimentar em U, e não apenas para cima e para baixo. Ele me fazia ficar em movimento constante: para os lados, para a frente e para os lados e para a frente ao mesmo tempo. Quando eu estava golpeando, Cus acreditava que alcançaria o efeito máximo nos socos quando fizesse dois socos parecerem um. Quanto mais próximo conseguisse chegar desse efeito, maior seria a probabilidade de que a combinação de socos resultasse em nocaute.

Ainda que enfatizasse a defesa, Cus sabia que lutadores defensivos podiam ser entediantes.

Cus sempre dizia: "O boxe é entretenimento, logo, para ser bem sucedido, um lutador não deve apenas vencer, mas também vencer de forma empolgante. O boxeador deve dar socos com más intenções". Ele queria que eu fosse um contra-atacante agressivo, forçando meus adversários a golpear ou a correr. Cus estava sempre tentando manipular o adversário no ringue. Quando se fica escapando de seus golpes, eles ficam frustrados e perdem a confiança. E, então, estão perdidos. Esquive-se do soco e contra-ataque. Mova-se e bata ao mesmo tempo. Force a definição da luta. Ele achava que socos curtos poderiam ser mais fortes do que socos longos. Achava que socar forte não tinha nada a ver com alguma coisa física, tudo era emocional. Emoção controlada.

Mike Tyson (Mike Tyson: A Verdade Nua e Crua; págs: 56 e 57)

CONFIANÇA

Cus acreditava realmente que, em sua mente, é preciso ser o indivíduo almejado. Se quisesse ser o campeão mundial dos pesos-pesados, deveria começar a viver a vida de um campeão dos pesos-pesados. Eu tinha só 14 anos, mas acreditava de verdade na filosofia do Cus. Sempre treinando, pensando como um gladiador romano, em perpétuo estado de guerra em sua mente, mas no exterior aparentando estar calmo e relaxado. Ele estava praticando e me ensinando a lei da atração mesmo sem saber.

"Todos os dias, em todos os sentidos, vou ficar cada vez melhor". Cus disse que repetia essa frase quando teve catarata agressiva num olho e que ela o tinha feito melhorar. Ele me fez modificar as afirmações conforme minha própria situação. Então, ele me fazia dizer várias vezes durante todo o dia: "Eu sou o melhor lutador do mundo. Ninguém pode me derrotar. O melhor lutador do mundo. Ninguém pode me derrotar". Eu adorava fazer aquilo, adorava me ouvir falar de mim.

O objetivo de todas essas técnicas era aumentar a confiança do lutador. Confiança era tudo. Mas, para obter essa confiança, é preciso testar a si mesmo e se colocar na linha. A coisa não vem por osmose, do nada. Vem da mentalização constante e consistente, que ajuda a desenvolver a confiança que se deseja possuir.

Cus costumava dizer que o motivo para as pessoas serem melhores era o fato de sempre olharem para si mesmas de modo grandioso.

Mike Tyson (Mike Tyson: A Verdade Nua e Crua; págs: 47, 48 e 496)

RELAXE ATÉ SE VER OLHANDO PARA SI MESMO

Mike Tyson e Cus D'Amato

O cara perguntou se ele queria um segundo assalto, e Cus disse que ia tentar. Foi lá, e, de repente, sua mente se separou do seu corpo. Ele estava se observando a distância. Os socos que lhe acertavam pareciam vindos de longe. Ele mais os percebia pela mente do que os sentia fisicamente.

Cus me disse que, para ser um grande lutador, é preciso sair da sua mente. Ele me fazia sentar e dizia: "Transcenda. Tenha foco. Relaxe até se ver olhando para si mesmo. E me avise quando chegar lá". Aquilo foi muito importante para mim. Geralmente sou muito levado pelo emocional. Mais tarde, percebi que se não me separasse dos meus sentimentos dentro do ringue iria afundar. Podia acertar um cara com um soco forte e, em seguida, ficar com medo se ele não caísse.

Mike Tyson (Mike Tyson: A Verdade Nua e Crua; pág: 47)

MEDO

Muhammad Ali

"Se não tiver o guerreiro espiritual dentro de você, nunca será um lutador. Não importa quão grande e forte seja."

"O medo é o maior obstáculo para a aprendizagem, mas também é seu melhor amigo. O medo é como o fogo: se aprender a controlá-lo, o fará trabalhar para você. Se não aprender a controlá-lo, ele vai destruir você e tudo ao seu redor. Como uma bola de neve numa colina, você pode pegá-la e arremessá-la, ou fazer o que quiser com ela antes que comece a rolar, mas, a partir do momento que ela rolar colina abaixo e se tornar enorme, vai esmagar e matar você. Portanto, jamais permita que o medo se desenvolva e aumente sem controle, porque, se não fizer isso, não vai ser capaz de atingir seu objetivo ou salvar sua vida."

"Pense numa corça atravessando um campo aberto. Ao se aproximar da floresta, de repente, seu instinto lhe diz que existe perigo, pode haver um leão ali. Assim que isso acontece, a natureza aciona seu modo de sobrevivência, em que as glândulas suprarrenais injetam adrenalina na corrente sanguínea, fazendo o coração bater mais rápido, o que permite ao corpo realizar proezas extraordinárias de agilidade e força. Se normalmente a corça pode saltar a 5 metros de distância, a adrenalina permite que o primeiro salto seja de 12 ou 15 metros, o suficiente para escapar do perigo iminente. Com o ser humano não é diferente. Quando confrontado com uma situação de intimidação ou medo de se ferir, a adrenalina acelera o coração. Sob a influência das glândulas suprarrenais, as pessoas podem realizar proezas extraordinárias de força."

"Acha que sabe a diferença entre um herói e um covarde, Mike? Bem, não há diferença alguma entre um herói e um covarde naquilo que sentem. É o que fazem que os torna diferentes. O herói e o covarde sentem exatamente a mesma coisa, mas é preciso ter a disciplina para fazer o que um herói faz e para evitar fazer o que o covarde faz."

"Sua mente não é sua amiga, Mike. Espero que saiba disso. Você tem de lutar com sua mente, controlá-la, colocá-la em seu devido lugar. Tem de controlar suas emoções. A fadiga no ringue é 90% psicológica. É apenas a desculpa de um homem que quer desistir. Na noite antes de uma luta, você não vai dormir. Não se preocupe, o outro cara também não. Você vai para a pesagem, ele vai parecer muito maior e mais calmo do que você, mas por dentro ele está com medo. Sua imaginação vai conferir a ele habilidades que ele não tem. Lembre-se, o movimento alivia a tensão. No momento em que o sino toca e vocês entram em contato um com o outro, de repente seu adversário parece uma pessoa qualquer, porque agora a sua imaginação se dissipou. A luta em si é a única realidade que importa. Você tem de aprender a impor sua vontade e a assumir o controle sobre essa realidade."

Cus conversava comigo sobre a importância de agir de forma intuitiva e impessoal e de uma maneira relaxada, evitando que todas as minhas emoções e sentimentos bloqueassem o que eu sabia intuitivamente.

Mike Tyson (Mike Tyson: A Verdade Nua e Crua; págs: 45 e 46)