7 de fevereiro de 2015

A CRIATIVIDADE PRECISA DE VÍNCULOS, DE DESAFIOS, NÃO DE BARREIRAS BUROCRÁTICAS

A criatividade está muito mais ligada à capacidade de acolher e de elaborar estímulos do que aos recursos disponíveis, ou mesmo à ressonância que o encontro de duas ou três pessoas criativas pode produzir, quando se estimulam intelectual e reciprocamente com suas ideias. As condições ideais, na minha opinião, são ainda aquelas descritas por Platão em O Banquete: comodidade, um grupo de amigos criativos, paixão pela beleza e pela verdade, liderança carismática, tempo à disposição, sem a angústia de prazos ou vencimentos improrrogáveis. No final das contas, a felicidade consiste também no fato de não ter prazos a cumprir.

Domenico de Masi (O Ócio Criativo; págs: 237 e 238)

MENTAL

Joker (Joaquin Phoenix)
 
O homem é atividade: física ou cerebral. Quase sempre estas duas atividades são articuladas, com exceção de casos extremos, como, por exemplo, o de uma pessoa acorrentada ao leito por alguma enfermidade, mas que possua ainda a liberdade do uso das faculdades mentais ou, ao contrário, um lobotomizado que age só fisicamente. Mas são extremos teóricos. O homem se move e pensa o tempo todo, desde que nasce até a morte, de dia e de noite, acordado ou dormindo. No curso do tempo, porém, desativamos cada vez mais o corpo e ativamos sempre mais a mente. Não obstante, ainda levamos mais em consideração o cansaço, a doença, a beleza, as habilidades físicas, do que as habilidades e doenças mentais. Somos muito devotos do corpo, porque foi ele que nos salvou ao longo de milênios. Por isso descobrimos tardiamente a doença mental e algumas de suas terapias. Ainda hoje, se alguém está com febre é considerado doente, mas se está triste é considerado saudável. O tratamento psicanalítico ainda nos parece um luxo, enquanto o da pneumonia, uma necessidade.

Domenico de Masi (O Ócio Criativo; pág: 228)

TELETRABALHO

As empresas poderão aproveitar as vantagens de uma maior flexibilidade econômica (podendo empregar, com o teletrabalho, uma pessoa que está na mesma cidade ou outra do outro lado do mundo) e de uma maior flexibilidade organizacional. Poderão reduzir os custos de locação (em Milão, a IBM calcula que um único emprego implica um custo de 30 milhões de liras por ano, contando aluguel e as outras despesas) e os custos com o transporte dos funcionários, nos casos em que pagavam por ele. Poderão gozar de um incremento da produtividade e, em certos casos, também da motivação e da criatividade dos empregados.

As desvantagens em potencial derivam do fato que, como tudo isso altera a hierarquia empresarial, os quadros oferecem resistência: querem manter os subalternos sob controle, pois, de fato, com teletrabalho este controle é bem mais difícil de ser exercido, seja em termos de relação pessoal, seja do ponto de vista do processo de trabalho. O controle só pode ser feito com o produto acabado. Há o perigo de que diminua a identidade empresarial, isto é, que os empregados se sintam mais distantes e estranhos à empresa. Com efeito, os chefes de pessoal de empresas que adotaram o teletrabalho organizam festas, reuniões, mostras cinematográficas para reavivar nas pessoas o "espírito de empresa".

E quanto aos custos e vantagens sociais?

As vantagens para a sociedade serão as seguintes: o trabalho poderá ser difundido até em zonas isoladas, deprimidas ou periféricas. Haverá mais trabalho disponível para categorias que até o momento eram excluídas, como deficientes físicos ou idosos, e será possível descongestionar as áreas superpovoadas e sobretudo reduzir o tráfego e a poluição, além  da manutenção das ruas e estradas.

As desvantagens para a coletividade poderão ser: os custos com a infraestrutura, como instalação de cabos (mas em geral se usa o do telefone e toda casa tem um), a necessidade de conter as tarifas das comunicações e serviços e o possível surgimento de áreas de trabalho pouco protegidas, de trabalho informático não declarado ao fisco, que é bem mais fácil de ser controlado que o tradicional, aumentando a atomização social.

Domenico de Masi (O Ócio Criativo; págs: 223 e 224)

22 de janeiro de 2015

FELIZ ANIVERSÁRIO VELHO

Sempre vejo o correr de um dia como uma metáfora do ciclo de vida. Nascemos, somos gradações de luz e, invariavelmente, no melhor das hipóteses, o barco se coloca na rota crepuscular. Esse tempo nunca é o suficiente para tudo, não cabem todos os sonhos, nem a conclusão de todas as metas, talvez porque a vida não deva ser um ponto a se chegar, talvez seja somente um caminhar. Afinal, isso tudo, até onde conhecemos, é passageiro mesmo. Naquilo que transcende a mecânica da rotina estará o convite que fará a vida valer a pena no fim das contas. Hoje, sobretudo, me vejo como essa metáfora, o ciclo. Comemorar aniversário é, antes de tudo, lidar com essa efemeridade com alegria. Costumamos falar que estamos fazendo anos mas na verdade estamos nos desfazendo deles, dos anos que já se foram, comemoramos o passado, os anos que "faço" são os que já me desfiz, como diria Rubem Alves. Desfazer anos é um dos melhores lembretes de que a vida esta passando e fazer isso junto a balões e amigos é o que torna a comemoração algo bonito e significativo. Hoje celebro o passado e o presente do meu aniversário.

Diego Cosmo