29 de setembro de 2011

O PODER


O poder não é um objeto natural, uma coisa; é uma prática social e, como tal. constituída historicamente. Os poderes se exercem em níveis variados e em pontos diferentes da rede social e neste complexo os micro-poderes existem integrados ou não ao Estado. O aparelho de Estado é um instrumento específico de um sistema de poderes que não se encontra unicamente nele localizado, mas o ultrapassa e complementa. Os poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social. Funcionam como uma rede de dispositivos ou mecanismos a que nada ou ninguém escapa, a que não existe exterior possível, limites ou fronteiras. Rigorosamente falando, o poder não existe; existem sim práticas ou relações de poder. O que significa dizer que o poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona. E que funciona como uma maquinaria, como uma máquina social que não está situada em um lugar privilegiado ou exclusivo, mas se dissemina por toda a estrutura social. Não é um objeto, uma coisa, mas uma relação. Não se explica inteiramente o poder quando se procura caracterizá-lo por sua função repressiva. O que lhe interessa basicamente não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e sim gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades. Objetivo ao mesmo tempo econômico e político: aumento do efeito de seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, neutralização dos efeitos de contra-poder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente. Portanto, aumentar a utilidade econômica e diminuir os inconvenientes, os perigos políticos; aumentar a força econômica e diminuir a força política. O corpo só se torna força de trabalho quando trabalhado pelo sistema político de dominação característico do poder disciplinar.


Roberto Machado (Michel Foucault - Microfísica do Poder [introdução]; págs: 10, 12, 13, 14, 16, 17)

De fato, o poder em seu exercício vai muito mais longe, passa por canais muito mais sutis, é muito mais ambíguo, porque cada um de nós é, no fundo, titular de um certo poder e, por isso, veicula o poder. O poder não tem por função única reproduzir as relações de produção. As redes da dominação e os circuitos da exploração se recobrem, se apóiam e interferem uns nos outros, mas não coincidem. O poder não se dá, não se troca nem se retoma, mas se exerce, só existe em ação, como também da afirmação que o poder não é principalmente manutenção e reprodução das relações econômicas, mas acima de tudo uma relação de poder. Questão: se o poder se exerce, o que é este exercício? em que consiste, qual é sua mecânica?

O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles.


Michel Foucault (Microfísica do Poder; págs: 160, 175, 183)

26 de setembro de 2011

A GRAÇA NÃO É SUFICIENTE?


Se fundarmos nossa igreja teremos mais dinheiro que o chefe do tráfico e não teremos o incômodo da polícia no nosso calcanhar, nem andaremos com armas nem com gente violenta. Detesto violência, sou da paz. Quem quiser nos seguir e nos pagar dízimos farão livremente. Mas nosso apelo será irresistível. Já saquei como esses pastores da TV trabalham, imprimiremos o medo do inferno nas pessoas, focaremos a culpa pelos pecados. Todo mundo tem pecado. Mostraremos como somos poderosos contra satã.

Como as massas se deixam manipular barato. Tudo não passava de uma farsa, mas o povo acreditava. Por que acreditava tão fácil? Perguntava para si mesmo. "Seria o desespero para obter ajuda espiritual? Conseguir atalhos para vencer os mais terríveis dilemas da vida? Ou mesmo preguiça de pensar, de lutar, e de encarar suas responsabilidades?". Havia também empresários, profissionais liberais e gente de razoáveis posses. O que estariam fazendo no meio da multidão? Eram pessoas que procuram garantir sua prosperidade, que buscavam uma espécie de blindagem divina contra as bancarrotas, as tragédias, as catástrofes, a falência, a violência urbana, as doenças e tudo mais que saísse do seu controle e signifique perigo de perder a boa vida que levavam.

Teologias que exigem sacrifícios, penitências e flagelo. A graça de Jesus não é suficiente? Não foi ele quem fez o sacrifício definitivo?


Jansen Viana (Apenas um Carpinteiro; págs: 35, 74, 75 e 95)

A SÍNDROME DE CENSURAR

Em geral, o critério de julgamento utilizado por um líder já é o reflexo, ou tornar-se-á reflexo, do mesmo critério utilizado pelo seu grupo de convivência. A maldade sofrida por um líder no seu grupo de convivência parece não ser muito diferente dos sofrimentos ou constrangimentos que já provocou em outras pessoas.

Em geral, quando alguém julga severamente, está punindo seu próprio erro ou fraqueza em potencial, tomando o outro como bode expiatório do mal que, em potencial, está dentro de si mesmo. Cada dia mais eu me convenço de que os líderes afetados pela "síndrome de censurar", invariavelmente, ou tiveram comportamentos desajustados dos quais se reprimem e vivem punindo outros com base na projeção da natureza pecaminosa que ainda os acompanha, ou então vivem passíveis e vulneráveis aos erros que condenam. O hipócrita não consegue enxergar que de fato a severidade que utiliza com o outro é decorrente do mal que se aloja na sua própria natureza.

"Portanto és indesculpável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas; porque no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas" (Rm 2.1).


Carlos Queiroz (Ser é o Bastante; 180, 181 e 183)

25 de setembro de 2011

FIDELIDADE AO EVANGELHO

A fidelidade consiste em nosso grau de conformidade com os dogmas de uma igreja que também deve se ocupar de buscar novas respostas às novas perguntas, em lugar de se ancilosar no passado em nome da perfeição? É fidelidade o que damos quando, pretendendo ser fiéis, nos negamos a refletir junto com o restante do mundo sobre as questões que determinarão o futuro da vida neste planeta e a autenticidade da vida nesta igreja, tais como: o aborto, a eutanásia, o armamentismo nuclear, o papado, a colegialidade, o sexismo e uma ciência desenfreada, como se Jesus não tivesse pensando a partir de uma perspectiva nova nos leprosos e no pecado, nas mulheres e na vida, nos sacerdotes e no povo, em Deus e nos fariseus?

Muito pelo contrário. Não é a nenhuma instituição, por muito elevados que sejam seus objetivos, que devemos ser fiéis. A fidelidade, pura e simplesmente, busca passo a passo, lugar a lugar e projeto a projeto, unicamente a vontade de Deus e a apaixonada presença do Evangelho em um mundo que se sente mais confortável com credos do que com a religião, que está mais familiarizado com a igreja do que com Cristo, mais comprometido com a caridade do que com a justiça, mais involucrado na opressão do que na igualdade, mais dedicado a manter a fé de nossos pais proscrevendo os pronomes femininos dos textos sagrados do que a libertar o ímpeto da Boa Nova. Realmente, devemos analisar cuidadosamente a que somos fiéis, a fim de que a fidelidade não seja a nossa ruína.

Joan Chittister


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 64 e 65)

Encontrar clareza e tomar as decisões justas, descobrindo o sentido autêntico da Verdade que leva em seu seio, é antes de tudo tarefa da igreja toda, como comunidade viva e corpo organizado. Aí se enraíza justamente o ponto decisivo: a verdade revelada está na igreja, cristalizada como escrito na Bíblia e encarnada nas diversas formas da tradição. E isto implica que ela está sempre "situada" em contextos concretos e "mediada" por densas camadas de idéias, usos e até abusos culturais. É preciso, portanto, trazê-la à atualidade de cada geração e de cada época, de sorte que fique livre de falsos vínculos e que, dizendo o mesmo, o diga de outra maneira: só poderá manter a fidelidade encarando os riscos da mudança. Justamente seu caráter contextual obriga a compreender que sua intenção profunda deve ser retraduzida em cada etapa histórica ou forma cultural, conscientes de que "o apego às formas de expressão tradicionais levou, com maior frequência, à heresia e não à ortodoxia."


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 149, 150 e 169)

24 de setembro de 2011

QUANDO ACREDITAMOS NA MENTIRA

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu (...)
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e
Perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi no espelho,
Já tinha envelhecido.


Álvaro de Campos

22 de setembro de 2011

CASAMENTO


Para vós invoco os prazeres que voam nos ventos e as alegrias que moram nas cores: beleza, harmonia, encantamento, magia, mistério, poesia: que essas potências divinas lhes façam companhia. Que o sorriso de um seja, para o outro, festa, fartura, mel, peixe assado no fogo, coco maduro na praia, onda salgado do mar... Que as palavras do outro sejam tecido branco, vestido transparente de alegria, a ser despido por sutil encantamento. E que no final das contas e no começo dos contos, em nome do nome não dito, bem-dito, em nome de todos os nomes ausentes e nostalgias presentes, de ágape e filia, amizade e amor, em nome do nome sagrado, do pão partido e do vinho bebido, sejam felizes os dois, hoje, amanhã e depois...


Rubem Alves (Retratos de Amor; págs: 44 e 45)

VONTADE DE POTÊNCIA

A juventude não é um período de tempo. É um estado de espírito, um resultado da vontade, uma qualidade da imaginação, uma vitória da coragem sobre a timidez, do gosto pela aventura sobre o amor ao conforto. Um homem não precisa ficar velho porque viveu um determinado número de anos. Os anos podem enrugar a sua pele, mas o desertar dos ideais enruga a alma. As preocupações, os medos, as dúvidas e o desespero são os inimigos que devagar nos fazem prostrar em direção à terra e transformam-nos em poeira antes da morte. A sua vontade permanece jovem enquanto você está aberto para o que é belo, bom e grande; receptivo para as mensagens de outros homens e mulheres, da natureza e de Deus. Se um dia você se tornar amargo, pessimista e consumido pelo desespero, Deus tenha piedade da sua alma de velho.


Gen. Douglas MacArthur

20 de setembro de 2011

NO FINAL A GRAÇA TRARÁ A LUZ

No último julgamento Cristo nos dirá: Vinde, vós também! Vinde, bêbados! Vinde, vacilantes! Vinde, filhos do o próbrio! E dir-nos-á: "Seres vis, vós que sois à imagem da besta e trazem a sua marca, vinde porém da mesma forma, vós também! E os sábios e prudentes dirão: Senhor, porque os acolhes? E ele dirá: Se os acolho, homens sábios, se os acolho, homens prudentes, é porque nenhum deles foi jamais julgado digno. E ele estenderá os seus braços, e cairemos a seus pés, e choraremos e soluçaremos, e então compreenderemos tudo, compreenderemos o evangelho da graça! Senhor, venha o teu Reino!


Fiódor Dostoiévski

O REINO DE DEUS


O Reino de Deus é uma realidade íntima. Jesus disse: "O Reino de Deus está dentro de vós". Buscá-lo é, portanto, um exercício de devoção espiritual, marcado pela comunhão com Deus, através do reconhecimento daquilo que Ele é, através da oração, contemplação, confissão, acolhimento do amor e da graça divina. Buscar o Reino é manter o bem como paradigma interior. Buscar o Reino é cultivar e viver todas as bem-aventuranças como condição primária, como estado íntimo dos limpos de coração.

Os valores e princípios do Reino são uma realidade possível. Portanto, buscar o Reino é buscar a concretização de sua realidade pelo testemunho, proclamação e atos de justiça dos discípulos. Buscar o Reino de Deus é praticar boas obras a fim de que Deus seja glorificado. É confrontar o mal e todos os poderes satânicos para que o reino se aproxime cada vez mais. É manter a esperança de que o Reino de Deus virá em toda a sua plenitude. Assim, buscá-lo é manter a fome e a sede para que a justiça corra como um rio e a paz se instaure para sempre.

Aos que buscam o Reino de Deus e a sua justiça, "todas estas coisas serão acrescentadas". O texto refere-se a "estas coisas", e não a todas as coisas que queremos. E o que será acrescentado? O suprimento necessário a uma vida digna. Assim, "todas estas coisas" não são todas as coisas que almejam os de mentalidade materialista. São as coisas essenciais a uma vida digna, e aqueles concernentes às realidades e esperanças do Reino de Deus.


Carlos Queiroz (Ser é o Bastante; págs: 174 e 175)

A CRUZ


Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós! (Mt 5.10-12)

A paz assimilada e assumida pelo discípulo é resultante da sua fome e sede de justiça. Daí a possibilidade de ser perseguido e sofrer por causa da justiça. Num mundo de injustiça e crueldade, a perseguição é algo inevitável para os discípulos de Jesus.


Carlos Queiroz (Ser é o Bastante; págs: 107 e 110)

8 de setembro de 2011

SEPARAÇÃO CRIATIVA


Se meu filho explode e avisa que não me ama, não irei castigá-lo ou obrigarei que ele desminta na minha frente. Não o puxarei pelos braços, não responderei para procurar um pai diferente, não subirei no púlpito e ordenarei maldições. Tem a liberdade para me odiar. Eu sei que ele me ama. Eu sei que ele me quer.

A sabedoria não está em evitar o sofrimento, e sim em não fugir dele. Já observei casamentos desfeitos porque um falou para o outro que acabou e não voltava mais. E nenhum dos dois cedeu e insistiu e perguntou de novo. Passaram a história inteira para provar o que ele ou ela desperdiçou e o dano irreparável de suas frases. Enterremos logo nossas maldades para velar as injúrias. É só oferecer ao nosso par a mesma capacidade que termos de nos perdoar. Desapareceria metade dos problemas. Os inimigos são netos de nossas teimosias.

Castigamos com silêncio quem temos certeza de que nos ama: torturamos com silêncio quem temos certeza de que nos ama: somos indiferentes a quem temos certeza de que nos ama. Por uma palavra dita na dificuldade absoluta de comunicação. Não vale o que foi vivido antes, será enviado um boleto bancário de um grito, de um palavrão, de uma observação injusta. A cobrança será eterna quando seu significado era provisório, próprio do desabafo, de um momento infeliz.

Não conheço dor que não seja desajeitada; ela vai declarar do jeito errado e do modo errado. Por que não desculpar? Terapeutas conhecem o assunto a fundo. Toda discussão é um desespero e não podem sair agrados e elogios. Mesmo assim, fazemos de conta que é difamação e desrespeito. Mais fácil odiar do que continuar trabalhando as próprias limitações. O boicote é uma forma de educar pelo sacrifício. A pior forma. É ficar preocupado em honrar o castigo. É preparar uma vingança ao invés de se distanciar um pouco para entender o que gerou a discórdia.

Trata-se ainda de um sacrifício mútuo, os dois vão perder a possibilidade de criar uma intimidade maior e mais generosa. Aquele que atacou pedia ajuda. E atacou, pois não sabia justamente pedir ajuda. Preocupados em nos defender, não alcançamos o apelo e retribuímos o inferno. A palavra engana. A palavra manda embora e o corpo pede um abraço. Há de se procurar o gesto. O que me interessa é o gesto, o resto da palavra. A origem. Se aquilo foi feito para permanecer mais perto.

É na briga que mostramos nossa criatividade. Poderemos repetir os clichês: desaparecer para impor uma lição ou aparecer com namorado/namorada para humilhar ou fingir que nada sente. Poderemos repetir as convenções, defender o orgulho acima de tudo, nos preocupar com a honra mais do que com a relação, chamar de preguiça a falta de cuidado com o que foi dito, reclamar responsabilidade, impor ao outro severidade de nossos princípios para mostrar o quanto somos nobres, coerentes e firmes.

Ou poderemos contrariar as expectativas com um talento incomum ao humor e ao entendimento. Só um debate tem tréplica. O diálogo não conta o tempo nem limita o direito de falar. Se a separação depende de motivos, a reconciliação é muito melhor, não precisa delas. Amor não dá a última chance, dá chance sempre. O capricho é cuidar do erro. Não há capricho sem usar a borracha e reescrever de novo.


Fabrício Carpinejar (Mulher Perdigueira; págs: 322, 323 e 324)

MEU DEUS CHORA COMIGO

Ter um deus forte é saber que, se ele tivesse querido, ele teria evitado a morte. Se não evitou é porque não quis. Ora, se foi ele quem matou, ele não pode estar sofrendo. Está é feliz, por ter feito o que queria. Assim, ele é culpado da minha dor. Eu e ele estamos muito distantes, infinitamente distantes. Como poderia amá-lo - um deus assim tão cruel? Mas se ele é um deus fraco, isso quer dizer que não foi ele quem ordenou - ele não pôde evitar. Um deus fraco pode chorar comigo. Ele até se desculpa: "Não foi possível evitá-lo. Eu bem que tentei. Veja só estas feridas no meu corpo: elas provam que me esforcei..." Ele chora comigo. Assim, nós dois, eu e o meu deus, choramos juntos. E por isso nos amamos.


Rubem Alves (Navegando; pág: 111)

5 de setembro de 2011

O JARDIM


Quero também ter a felicidade de poder conversar com meus amigos sobre a minha morte. Um dos grandes sofrimentos dos que estão morrendo é perceber que não há ninguém que os acompanhe até a beira do abismo. Eles falam sobre a morte e os outros logo desconversam. "bobagem, você logo estará bom..." E eles então se calam, mergulham no silêncio e na solidão, para não incomodar os vivos. Só lhes resta caminhar sozinhos para o fim. Seria tão mais bonito uma conversa assim: "Ah, vamos sentir muito sua falta. Pode ficar tranqüilo: cuidarei do seu jardim. As coisas que você amou, depois de sua partida, vão se transformar em sacramentos: sinais da sua ausência. Você estará sempre nelas..." Aí os dois se dariam as mãos e chorariam pela tristeza da partida e pela alegria de uma amizade assim tão sincera.


Rubem Alves (Navegando; págs: 28 e 29)