26 de maio de 2010

E ENQUANTO VIVERMOS...

Por: Diego Cosmo
Enquanto vivermos, sorriremos quando der.
Enquanto vivermos, mudaremos o que for preciso.
Enquanto vivermos, reescreveremos nossa história.
Enquanto vivermos, abraçaremos o outro.
Enquanto vivermos, consertaremos o erro.
Enquanto vivermos, tentaremos o acerto.
Enquanto vivermos, iremos farrear com os amigos.
Enquanto vivermos, sofreremos pelos pecados.
Enquanto vivermos, seremos absurdamente livres.
Enquanto vivermos, choraremos as perdas.
Enquanto vivermos, nos humanizaremos.
Enquanto vivermos, celebraremos a natureza.
Enquanto vivermos, nos apaixonaremos.
Enquanto vivermos, amaremos.
Enquanto vivermos, haverá esperança.
Enquanto vivermos, nos conscientizaremos da cruel fragilidade da vida.
Enquanto vivermos, apesar das trevas, deveremos apostar na oportunidade de que enquanto vivermos, demasiadamente vivamos!

24 de maio de 2010

18 de maio de 2010

EM LOUVOR AOS PECADORES


Em grande parte, depois de conviver por décadas com gente santa, só fui conhecer Jesus pessoalmente através dos pecadores. Não fui encontrá-lo na igreja, onde insistíamos que ele morava e onde falávamos metade do tempo sobre ele. Na igreja encontrei meus amigos mais bem-intencionados, muitos deles assustadoramente queridos e carentes, mas oprimidos como eu debaixo de um sistema fundamentado em medo e desejo. Por mais que eu simpatizasse com o calor da instituição e com o mérito das boas intenções, nada eu testemunhava ou vivia da satisfação inerente, a generosidade, a paixão e a terrível liberdade que os evangelhos atribuíam ao Filho do Homem. Cantávamos, chorávamos e nos abraçávamos debaixo do mesmo teto piedoso, mas ali não estava o espírito de Jesus.

Como eu suspeitava, os pecadores não se entregam como nós na igreja a pecados mesquinhos como a hipocrisia, a mentira e o orgulho; abrem eles mão desses amadorismos e tratam da coisa em si, da sem-vergonhice mais vital, sensorial e carnal - sexo, drogas e rock 'n' roll. Não esperava encontrar entre os pecadores, e pela primeira vez na vida, a terna experiência do espírito de Jesus. Não em mim. Neles. Os evangelhos atribuem ao Filho do Homem tremendas paixões, vitalidade, generosidade e independência; o livro de Atos e as cartas falam de cristãos que "tinham tudo em comum" e "eram de um só coração". Em seus momentos mais idealistas Jesus fala em amar os inimigos, dar a outra face, emprestar sem esperar receber de volta, oferecer um banquete a quem não tem como retribuir. Paulo descreve um mundo sem preconceito de sexo, raça ou classe social. João garante que Deus é amor, e que o amor abre mão de qualquer traço de temor. Paradoxalmente, este mundo definido em termos positivos poucos cristãos chegam em qualquer medida a experimentar. Escolhemos nos definir não por essas qualidades afirmativas - aquilo que o apóstolo chama de "Fruto do Espírito" - mas pelo que é negativo e paralisante e opressor contra os outros e nós mesmos: a culpa, a mesquinhez, a repressão, a neurose, a negação, o niilismo. O mundo em que todos se aceitam e se amam, embora faça parte da nossa pregação nominal, nos é aterrorizante por natureza. Tudo em nossa postura batalha contra ele. A "gloriosa liberdade dos filhos de Deus" não nos interessa. Alguém me dê depressa um líder carismático e um rol muito claro de mandamentos - é só o que pedimos.

Entre os pecadores encontrei um universo livre da superficialidade de igreja e da irrelevância burguesa da faculdade. Aqui estava um mundo que escolhia se definir, na prática e não a partir de qualquer discurso ou demagogia, pela aceitação e pelo amor. Aqui estava gente que tinha tudo em comum, até mesmo - onde está, Mamom, a tua vitória? - o dinheiro. Gente que ignorava rótulos de classe, sexo e conta bancária para se tratar como gente no sentido mais fundamental da coisa. Gente que se recusava a ser manipulada pelo desejo e pelo temor, e o fazia entregando-se a um e mandando às favas o outro. A comunhão que experimentam, descobri, não tem limites; sua generosidade, que não espera recompensa que não o instante, não tem paralelo. Os pecadores abrem suas portas uns aos outros a qualquer momento do dia ou da noite; repartem sua droga, seu dinheiro, sua casa e seu pão sem nenhum trâmite ou transação, seja com um irmão importuno seja com o desconhecido em que acabam de tropeçar. Emprestam, terrivelmente, sem esperar receber de volta. Carregam quem precisa ser carregado, descolam um trampo para quem precisa, tiram a camisa para quem vomitou na roupa, emprestam a chave do carro para quem não tem onde fumar, providenciam o apartamento de alguém na praia para o que foi expulso de casa, repartem sem chiar ou cobrem o tanque de gasolina. Trabalham tanto para os outros quanto para si, acolhem com graça incondicional; são compassivos até para com os que não o toleram, longânimos com os que todos já decidiram ser melhor rejeitar. Convivem sem traumas com a consciência, apavorante para nós, de que não são melhores que ninguém.

Entre os pecadores não transita apenas a legitimidade de quem se recusa a ter o que esconder; rola, senhoras e senhores, um amor - e tão forte que lança fora todo o medo. São gente boa no sentido afirmativo da coisa. Gente sensualista, mas raras vezes desonesta. Autoindulgente, mas sempre generosa. Pecadora, mas não proselitista. Matam-se, mas o que fazem pelos outros é só resgatar. Morrem, mas abraçados. Não é difícil entender porque Jesus curtia tanto a companhia dos pecadores e não escondia seu orgulho em associar-se a eles. A integridade existe e a verdadeira comunhão não é uma impossibilidade: os pecadores legítimos não as desconhecem. Louvados sejam nas alturas os grandes pecadores, porque uma porção fundamental de Jesus sobrevive na Terra apenas através deles.


Paulo Brabo (A Bacia das Almas; págs: 147, 148, 149 e 150)

9 de maio de 2010

CARTA DE ANDRÉIA

- A oração não é para convencer Deus a se mexer, e sim, para mudar a nós mesmos, e nos empurrar a fazer o que é necessário. Orar pelo fim da corrupção no Brasil não vai adiantar, se não fazemos nada contra isso na prática.

- Por que não existe amor, sem liberdade

- Sim, tem muitas pessoas que nunca fizeram nada para procurar doenças, e morrem de câncer, mas aí é contingência da vida, nosso DNA pode ter falhas que provocam o aparecimento de câncer, nossa comida tem produtos químicos cancerígenos que muitas vezes nem sabemos, o ar que respiramos está cheio de poluentes também cancerígenos.

- Queremos que Deus faça o que Ele ordenou que nós fizéssemos.

- O amor de Deus é vivo, está em nós e precisa ser movimentado por nós. Se não fazemos nem o que poderíamos estar fazendo, podemos acusar Deus e exigir intervenção sobrenatural?

- Se Deus tem um propósito para a vida de cada um de nós, esse propósito certamente tem a ver com expressar amor pelas pessoas.

- Cada um tem o Deus que merece. Tem gente que precisa de um Deus malvado e tirano para andar na linha, tem outras pessoas que são de bom caráter naturalmente, então não conseguem ver Deus dessa forma castigadora e vingativa. E teologias diferentes, muitas vezes são apenas pedaços de um mesmo grande todo, do qual cada um consegue ver só uma parte.

- Creio que a fé pode realizar coisas como curas, mas em casos bastante específicos, e pode também ajudar as pessoas a encararem a vida de uma forma mais positiva; assim como ver os outros como imagem de Deus nos torna pessoas mais compassivas, pacientes. Mas tudo necessita ser treinado, exercitado. É uma escolha diária.


Andréia

7 de maio de 2010

A FAIXA PRETA


Para obter uma faixa preta não é fácil, mas vale a pena. Pode levar um ano; pode levar dez anos. Talvez você nunca a consiga. Quando se compreende que ela não é tão importante quanto a prática em si, provavelmente está se aproximando do nível de faixa preta. Quando você compreende que não importa quanto tempo ou quão duro você treine e que há uma vida inteira de estudo e prática à sua frente até a morte, você provavelmente está chegando perto da faixa preta. Seja qual for o nível que você obtenha, se você achar que "merece" uma faixa preta ou se achar que você agora é "bom o suficiente" para ser um faixa preta, estará fora do caminho e sem dúvida, muito distante de alcançá-la. Treine duro, seja humilde, não se exiba diante do seu mestre ou de outros alunos, não reclame de nenhum encargo e dê o seu melhor em tudo na sua vida. Este é o significado de ser um faixa preta. Ser auto-confiante demais, exibir suas habilidades, ser competitivo, desprezar os outros, demonstrar falta de respeito e escolher aquilo que faz ou não faz (acreditando que alguns trabalhos são indignos de você) caracterizam o aluno que nunca obterá a faixa preta. Aquilo que vestem ao redor da cintura não passa de uma peça de comércio comprada por uns poucos dólares em alguma loja de artigos para artes marciais. A verdadeira faixa preta, usada por um verdadeiro possuidor, é a faixa branca do principiante, tingida de preto pela cor do seu sangue e do seu suor.

Seu treinamento inicial é muito importante: ele determina como você finalmente será como um faixa preta. Em meus muitos anos de ensino, notei que os alunos que estão apenas preocupados em obter a faixa preta desanimam facilmente, assim que percebem que é mais difícil do que esperavam. Alunos que vêm apenas pela prática, sem preocupações com nível ou promoção, sempre se saem bem, não são oprimidos por objetivos superficiais ou irreais. Há uma história famosa sobre Yagyu Matajuro, que era filho da famosa família Yagyu de espadachins so século XVII, no Japão feudal. Ele foi expulso de casa por falta de potencial e de talento e buscou a instrução do mestre Tsukahara Bokuden, na esperança de dominar a arte da espada e reaver a sua posição na família. Em sua entrevista inicial, Matajuro perguntou a Tsukahara, "quanto tempo levará para dominar a espada?" Bokuden respondeu, "oh, cerca de cinco anos se você treinar muito duro." "se eu treinar duas vezes mais duro, quanto tempo levará?" perguntou Matajuro. "nesse caso, dez anos", replicou Bokuden.

Você deve compreender também que embora preencha todos os requisitos, o número certo de técnicas, todas as formalidades, e tenha acumulado o número apropriado de horas de treino, pode ainda não estar qualificado para ser um faixa preta. Obtê-la não é uma entidade quantitativa que se possa medir ou pesar como comprar feijão no mercado. Sua faixa preta está relacionada com você enquanto pessoa, como você se conduz dentro e fora do dojo, sua atitude para com o seu mestre e para com os colegas, seus objetivos na vida, como você lida com os obstáculos em sua vida e como persevera no treinamento são todas condições importantes para a obtenção da faixa preta. Ao mesmo tempo, você se torna um modelo para outros alunos e finalmente alcança o status de professor ou instrutor assistente. No dojo, suas responsabilidades são maiores do que as dos alunos regulares e você é responsável por muito, muito mais do que os estudantes juniores.

Treinar nada tem a ver com ranks ou faixas, troféus ou distintivos. Arte marcial não é simplesmente brincar com as nossas fantasias. Ela se relaciona com a própria vida e a morte, não somente a forma como nos protegemos em uma situação crítica, letal, mas também como protegemos as vidas dos outros. Você não pode ser outra pessoa, não importando se é um astro do cinema, um grande professor ou um multimilionário. Você deve se tornar você mesmo, seu self verdadeiro. Uma pessoal normal vive apenas 50% ou talvez 80% da sua vida, sem nunca saber quem ela é. Um artista marcial vive 100% da sua vida e se torna impecável. É isto o que o verdadeiro faixa preta deve compreender dentro de si mesmo, ele não é ninguém a não ser ele mesmo, e sua prática o conduz a iluminação para dentro da sua verdadeira identidade, seu self real, Esta é a essência de treinar artes marciais.

Para obter a faixa preta, primeiramente pense em perdê-la, não em ganhá-la. Sawaki Kodo, um mestre zen, sempre dizia, "ganhar é sofrer, a perda é iluminação." Se alguém perguntar a diferença entre os artistas marciais das gerações anteriores e aqueles da atualidade, eu resumiria desta forma: os artistas marciais das gerações passadas viam o treinamento como uma "perda". Interromperam tudo por sua arte e por sua prática, deixaram suas famílias, trabalho, segurança, fama, dinheiro, tudo, para se aperfeiçoarem. Hoje pensamos apenas sobre ganhos, "quero isto, quero aquilo." Queremos praticar artes marciais mas também queremos dinheiro, um bom carro, fama, telefones portáteis e tudo aquilo que todo o mundo tem. Shajyamuni Buddha deixou seu reino, seus palácios, uma bela esposa e tudo o mais para finalmente buscar a iluminação. O primeiro estudante de Boddhidharma, considerado o fundador do Kung Fu Shaolin, cortou fora seu braço esquerdo para estudar com seu mestre, Não temos que tomar medidas drásticas, como essa, para aprender artes marciais hoje, mas não devemos esquecer o espírito e a determinação dos grandes mestres do passado.

Quando o estudante vê o seu treino do ponto de vista da perda ao invés do ganho, ele se aproxima do espírito da maestria e verdadeiramente se torna merecedor de uma faixa preta. Somente quando você finalmente pára de pensar em graus, faixas, troféus, fama, dinheiro e na maestria em si mesma, você obterá aquilo que é realmente importante no treinamento. Seja humilde, seja gentil. Cuide dos outros e coloque todos à sua frente. Estudar artes marciais é estudar a si próprio, sua própria identidade, nada tem a ver com grau. Um grande mestre zen disse certa vez: "estudar o zen é esquecê-lo. Esquecer o zen é compreender todas as coisas."


Sensei Wagner Bull
www.aikikai.org.br

* Foto em homenagem ao tetra-campeão mundial de TaeKwon-Do I.T.F David Kerr
* Entrevista com David Kerr

3 de maio de 2010

DESENRAIZAR-SE

Atlas


O novo santo, propuseram [Simone] Weil e [Dietrich] Bonhoeffer em vidas e vocabulários distintos, teria que abrir mão do conforto de todos os rótulos, até mesmo do que lhe seria mais caro, o do próprio cristianismo. Em seu prefácio a Waiting for God, Leslie A. Fiedler explica assim essa terrível posição:

"Associar-se ao contexto de uma religião particular, sentia ela, teria por um lado exposto Weil ao que ela chamava de "patriotismo eclesiástico", com a conseqüente cegueira para as falhas do seu próprio grupo e as virtudes dos outros; por outro, teria separado Weil da condição dos seres comuns aqui embaixo, que permanecemos todos "alienados, sem raízes, em exílio". O mais terrível dos crimes é colaborar com o desenraizamento de outras pessoas num mundo já por si mesmo alienado; porém a maior das virtudes é desenraizar-se por amor ao próximo e a Deus. "É necessário desenraizar-se," escreve Weil. "corte a árvore, faça dela uma cruz e carregue-a para sempre".


Paulo Brabo (A Bacia das Almas; pág: 301)