29 de janeiro de 2010

LONGE VÃO OS DIAS



Longe vão os dias de casa cheia, de gente repartindo o mesmo espaço vital – o mesmo quarto, o mesmo guarda-roupa, a mesma televisão. Levantou-se uma geração que não sabe o que é fila para usar o banheiro, esperar todo mundo para sentar-se à mesa, exigir a divisão milimétrica do último pedaço do bolo. Não conhece a experiência de conviver com alguém de idade na mesma casa.

Pensando em retrospecto, ter vários filhos implicava muitos riscos - muitas variáveis para controlar e muitas provisões para acumular para o futuro. Era economicamente arriscado em muitos sentidos, e tornou-se ainda mais quando o padrão de vida aceitável a ser sustentado foi alçado artificialmente. Mas a vitalidade daquela casa e de outras casas repletas que conheci me leva a lamentar de coração a extinção do gênero.

Quem não esteve numa casa repleta não tem como saber o que é sentir-se acolhido. Quem tem todo o espaço para si acaba privado de descobrir que o mais precioso é o espaço preenchido ao seu redor.


Paulo Brabo (A Bacia das Almas; págs: 312 e 313)

Nenhum comentário: