25 de agosto de 2016

SER O MELHOR NA IMPERFEIÇÃO

Por: Diego Cosmo

A vida por si só não tem sentido, não tem porque a liberdade que nos resta ainda é de tal tamanho que nos convida a pintarmos esse quadro existencial, o que nem sempre é fácil de se fazer com coragem. Nos inclinamos para um misticismo que infantiliza. A criança vítima de bala perdida e aquela grana que achamos no chão da rua parece ser o tipo de coisa que tende a sabotar nossa cosmovisão quando nos fazem achar que o simples acaso é, na verdade, obra de algo sobrenatural. Talvez, o sentido da vida se construa naquelas coisas que nos fazem esquecer da própria vida, na medida que vamos nos encaixando no mundo, nos conhecendo e nos encontrando melhor, tudo ao nosso próprio tempo. É complicado, nascemos num mundo já pronto em vários departamentos, apresentam-se, então, a nós vários pacotes que pretendem responder e resolver questões que dizem respeito a ordenação da nossa realidade. O que nem sempre dá certo. Todo mundo é um mundo. Quando não mais encontramos amparo nas perspectivas é que as coisas começam a se degringolar de vez. Quando vemos a promessa da religião falhar ao se resumir a uma liturgia que se volta somente a uma promessa pós-túmulo ignorando uma fé como fonte de coragem existencial, quando a decepção se instala nos nossos relacionamentos, amigos, familiares ou conosco mesmo. A descrença nos presenteia com algo além da frustração, diante do modus operandi esgotado, ela nos pergunta: "E, agora?". Dai, ajuda, o esforço de se pôr numa visão panorâmica da vida. No conflito, crise, o exercício de se abordar outros ângulos da situação pode nos levar a umas divagações que em determinado momento podemos nos flagrar nos questionando algo como: "Será preciso tomar banho depois da morte?". E então, já nem mais fará sentido o mal-estar anterior. Eis a louvável arte de não levar a vida tão a sério.

A verdade é que podemos ter bons e concretos motivos para sermos tanto otimistas quanto pessimistas diante da vida. Verdade seja dita, há toda sorte de maldade e bondade acontecendo arbitrariamente a todo momento/lugar e estamos a mercê de tudo isso porque, simplesmente, estamos no mundo. É... Nossa liberdade é uma só. A começar por não escolhermos nascer, como se não bastasse, não escolhemos de quem seremos filho, em que meio cultural cresceremos, local etc. O que por si só já preestabelece uma série de variáveis. Enfim. Bobagens à parte. As vezes somos vítima de nossos próprios erros ou do acaso mesmo e são nessas horas que teremos a oportunidade, não de se evitar completamente o mal, mas de sermos os melhores imperfeitos em frente a esse caráter contingencial da vida. Nunca teremos um controle total da realidade à nossa volta mas podemos fazer muito dentro do que está ao nosso alcance. A ansiedade na expectativa nasce de nossa incapacidade de controlar o futuro e se a ansiedade não colabora, é um tosco contra-senso nos preocuparmos com algo para além do presente num estado de espírito que só faz atrapalhar. Desnecessário. Um bom remédio para a frustração é simples, é sermos o melhor que podemos ser, se mesmo assim não conseguirmos obter determinado fim, não há muito com o que se frustrar, diante dessa realidade momentânea há uma prova lógica de que nunca conseguiríamos chegar ao desejado naquela ocasião específica, só haverá dúvidas caso não dermos o melhor de nós mesmo, aí sim, haveria espaço para se questionar: "E SE eu tivesse me esforçado mais?". Como quase tudo, não há certezas, há possibilidades e quanto a possibilidade, do presente pra frente, podemos influenciar. Por fim, desse ponto de vista, o martírio não faz tanto sentido, a não ser que fosse possível alterar o passado, então, como tal impossibilidade se faz, no máximo, podemos ressignificá-lo no presente transformando-o numa nova forma de ver e encarar as coisas. Do contrário, seria necessário um otimismo metafísico digno de arrancar um sorriso do Schopenhauer. Tudo conta. Uma série de incontáveis fatores corroboram para um determinado fim, se todas as variáveis e possíveis escolhas te fizeram amargar, imaginar outra realidade presente é o mesmo que desejar uma outra vida, seria o mesmo que ignorar todos os acontecimentos que levaram tua vida àquele ponto, tanto tuas ações como as do externo que influíram nas tuas, inclusive, poderia resultar numa realidade bem pior ou mesmo melhor que a sua agora (entender isso faz parte do esforço de aceitar seu tempo no mundo). Nunca vai dar pra saber, cada vida é e se dá de forma única. Além da morte, problemas em geral é a outra certeza que podemos ter em vida, se antes era uma machadada pelas costas, hoje temos uma epidemia de depressão e câncer, o mundo muda e com isso surgem novos problemas, além de benefícios também, claro. Não sou contra o luto ou anti-dor, longe disso, é natural e importante que elas existam e sejam expressadas e devidamente vividas, o verdadeiro problema ainda não está aí mas naquela velha dicotomia, pessimismo ou otimismo, nisso reside uma alternativa que podemos tocar. Temos a capacidade de ampliarmos a nossa realidade. As coisas não são, necessariamente, aquilo em sua objetividade, o que vale é como a enxergamos, o mundo se resume ao que ele nos parece ser. Ou seja, a imaginação cria a realidade. Basta vermos as lágrimas ao assistirmos um filme, o filme é só um filme, já as lágrimas são reais.

Mas já que estamos aqui e conscientes, o que importa é o daqui pra frente. Afinal, temos só uma vida, uma chance. No final, é bom que o saldo seja positivo. Mais importante que qualquer outra realização, seja profissional ou de consumo, é o que você faz de si mesmo como homem ou mulher, que vivências carregará, que frutos as prioridades que escolheu no correr da vida darão, ao esvair das faculdades isso é o que vai lhe restar no fim da vida. Suas memórias. Vale lembrar que seu mundo pode mesmo ter uma duração curta mas esse mesmo mundo pode dar muitas voltas, mais do que imagina nossa vã filosofia... Até ao ponto de percebermos mais gêmeos a cada esquina. Beba com moderação. Antes do tal sucesso que o status quo prega, fazer a vida valer a pena é o que importa. Bom... Mas viver como se fosse o último dia não dá certo, até soa legal embora seja uma possibilidade porém é muito improvável e contar os dias assim me parece ser exacerbadamente inconsequente mas o princípio é válido. Um equilíbrio disso com algum senso de durabilidade talvez possa fazer os seus dias valerem a pena todo dia. O que já é muita coisa, não?

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