9 de agosto de 2016

ESTE VIL CABARÉ


Há uma lâmpada quebrada pra cada coração na Broadway... A vida é um jogo cheio de luzes que podem ser quebradas. Você recebe fantasias e um resumo da peça... ...Depois é largado pra improvisar neste vil cabaré. Não mais gatinhos sendo acariciados. Só mandados, formulários, memorandos e ordens de despejo... Há sexo, morte e sujeira humana, tudo por dez centavos. Os trens, pelo menos, saem na hora certa... Mas não vão a lugar algum. Diante de suas responsabilidades, seja de costas ou de joelhos, há senhoras que simplesmente gelam e não ousam partir... Viúvas que se recusam a chorar vestirão ligas e gravatas-borboletas e aprenderão a levantar bem as pernas neste vil cabaré. Finalmente o show de 1998! Balé no palco ardente. O documentário visto na tela rasgada... O poema aterrador rabiscado na página amassada! Há o policial de alma honesta que conhece a cabeça de quem está no timão. Ele resmunga e enche seu cachimbo com um sentimento de intranquilidade. Em seguida, revista rapidamente os restos rotos de uma impressão digital ou mancha escarlate e empenha-se em ignorar os grilhões que o acorrentam... ...Enquanto seu mestre, em trevas próximas, inspeciona as mãos com olhos brutais que jamais fitaram as coxas de uma amante, mas que esganaram a garganta de uma nação. Ele anseia, em seus sonhos secretos, o áspero abraço de máquinas cruéis, mas sua amante não é o que parece e ela não deixará bilhetes. Finalmente, o show de 1998! A tragédia! A grande ópera barata! Suspense sem esperança! A aquarela na galeria inundada. Há a jovem que quer, mas não pede. Ela está desesperada pelo amor de seu pai. Acredita que a mão sob a luva pode ser a que precisa segurar. Embora duvide da moralidade de seu anfitrião, ela decide que será mais feliz na terra do faça o que quiser do que se jogada ao relento. Mas o pano de fundo se rasga, os cenários desaparecem e o elenco é devorado pela peça. Há um assassino na matinê. Há cadáveres na plateia. Os produtores e atores também não estão certos se o show terminou. Com olhares oblíquos, eles esperam suas deixas... ...Mas a máscara apenas sorri. Finalmente, o show de 1998! A música-tema que ninguém conta! O balé do toque de recolher! A divina comédia. Os olhos de marionetes estranguladas por suas cordas! Há emoções e calafrios, mulheres em abundância. Há marchinhas e surpresas! Há de tudo para todos os gostos. Reserve sua poltrona! Há perversos e danosos... ...Judeus... ...Ou crioulos... ...Neste carnaval de bastardos. Este vil cabaré!

Alan Moore e David Lloyd (V de Vingança; págs: 91, 92, 93, 94 e 95)

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