9 de junho de 2016

PRA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR

Gosto muito, para minha vergonha, do jeitão do brasileiro (digo “jeitão” no esforço de evitar abstrações ainda maiores, abominações como “povo brasileiro”). Não quero defender e não tenho como justificar o nosso desempenho econômico e político, mas não são esses, deixo logo claro, os quesitos que levo em conta na minha avaliação.

Devo admitir, por outro lado, que não há como separar uma coisa da outra: é nosso jeitão como povo que determina em última instância a natureza – peculiar, para dizer pouco – do nosso desempenho econômico e político. Não vou dizer que para se produzir um país verdadeiramente bem-sucedido nas arenas econômica e financeira requer-se um povo tão insuportável quanto o norte-americano – mas, pensando bem, acabei de dizer. Para se gerar um país improvável como o Brasil, um imenso e sublimado Portugal, um gigante marginal, pacato, generoso, reflexivo e submisso, requer-se um povo tão absurdo e tão impagável quanto o nosso.

No desenrolar do enredo étnico, nos anais da destilação dos povos, o brasileiro é talvez o resultado mais prodigioso. Por todos os testemunhos que contam (o meu), o mais inclassificável, mais redundante e subutilizado; ao mesmo tempo o mais e o menos presunçoso de todos.

O paradoxo está em que somos um dos povos menos proeminentes da história. Deixamos, em quinhentos anos, pegada nenhuma que não seja de chuteira. Nenhuma bandeira fincada, nenhum número importante, nenhum nome de destaque, nenhuma causa exageradamente meritória, nenhuma revolução de monta, nem um conflito que mereça lugar nas crônicas do futuro. Mais ou menos como Portugal na periferia da Europa, passamos nossa história sem quaisquer ocorrências especiais, à margem do que acontece no resto mundo – porque, por definição, nada acontece no Brasil. Se acontece, foi fora daqui.

Somos uma nação de voyeurs, um dos povos mais bem informados do mundo, mas residentes no mirante dos fatos alheios, sobrevivendo com injeções regulares de cinema e noticiários estrangeiros. Como o Popular da crônica de Veríssimo, somos o curioso que aparece em segundo plano quando alguém está dando uma entrevista na rua a um repórter de televisão. É sempre “o outro” que opina, não a gente: como diz o outro. Somos meros observadores desinteressados no meio dessa confusão.

Assistimos com perplexidade ao desfile de problemas internacionais, na bem-intencionada tentativa de compreender o que na nossa ótica faz pouco ou nenhum sentido. Pois, aparentemente, nenhum dos conflitos que impulsionam as agendas internacionais nos movem ou nos dizem respeito: o partidarismo, o fanatismo religioso, a ambição territorial, a devoção a idéias, as obsessões éticas. Nenhum desse motores nos motiva ou nos faz seguir adiante. Somos literalmente hours-concours, fora da competição – cem milhões de personagens complexos perdidos num enredo sem conflito, reclinados com enfado e alguma volúpia na proverbial mas apropriada imagem do berço esplêndido. Eternamente.

Sem virtude, mas também sem ambição. Talvez estejamos nos preservando para um momento em que nossos recursos especiais sejam realmente necessários. Como o personagem de Chico Buarque, passamos pela vida nos reservando para ocasião oportuna.

Quem me vê sempre parado, distante,
garante que eu não sei sambar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo,
escutando, não posso falar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando,
pisando, pensando que eu vou aturar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida
duvida que eu vá revidar
Tô me guardando prá quando o carnaval chegar.


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