19 de maio de 2016

SOBRE O CONTRASSENSO DE GRITAR POR DEMOCRACIA NUM TOM DE INTOLERÂNCIA

Por: Diego Cosmo

O povo não é uma pessoa, não é composta somente pelos desfavoráveis e nem só pelos abastados. É mais do que uma coletividade, esta mais para uma rede de redes, o que torna a questão da representatividade bem complexa, o que acaba por apontar que nossos supostos representantes nunca serão, de fato, expressão fiel do povo como um todo. Logo, toda política é resultado de uma tensão de forças. E no fundo é sobre isso que temos que saber lidar sem corromper direitos ou deveres no que tange a nossa atuação política. Um exercício que podemos começar a fazermos em termo de análise rápida é procurar os aspectos em que podemos nos ver refletido em quem elegemos, ou seja, o que, de certa forma, é representado da nossa sociedade e cultura neles, já que estamos falando de representatividade.

A boa hospitalidade brasileira? Um ledo engano. Os indicadores de violência que o digam. Até podemos ser simpáticos e amáveis desde que se trate de quem gostamos ou com quem nos simpatizamos. Embora parecemos ser entusiastas da diversidade diante da mistura de nossas raízes e do espírito carnavalesco, nossa leitura parece se dar de forma binária. O diferente não nos diz respeito e logo é oposição. Nos vangloriamos de nossa riqueza cultural e tamanho como nação mas parece que nos simpatizamos ainda mais com a ideia de que melhor mesmo é que cada um fique no seu quadrado.

Se valer da influência como meio de ganhar vantagem ou ajudar seu amigo. Não soa estranho, não é? Afinal, é comum vermos isso em muitas camadas. Todo favoritismo visto, demasiadamente, no cenário político não é outra coisa muito diferente do resultado e extensão dessa lógica. A oligarquia é a projeção prática desse caráter tão comum. Sejamos francos. Não temos senso democrático, na verdade, nos falta o essencial para o funcionamento de uma lógica democrática: a tolerância e isso exige um jogo de cintura mais complexo do que sambar. Vemos esse deficit em como nos comportamos nas filas, no famoso jeitinho brasileiro, no trânsito, na família, no nível do debate com quem não pensa igual e na seletividade de quem escutamos ou criticamos, afinal, o divergente só fala "bobagem". A exemplo, o "bela, recatada e do lar" vindo de quem não se gosta é protesto mas "grelo duro" de quem é amado releva-se facilmente. Aplaudimos até cuspida na cara, mas desde que seja em que não nos identificamos. No contrário nos revoltaríamos munido com um milhão de discursos. Há uma clara defesa dos interesses que partem somente do umbigo. Falta uma real visão universal sobre a justiça, uma visão mais inclusiva que não se limite apenas a ser proclamada nos discursos que vemos com maior frequência nos movimentos feministas, de raça ou gênero. Até porque os direitos humanos não dizem somente respeito a um atributo de alguém, como sua cor ou sexo, isso seria nos apequenarmos demais. É preciso abraçarmos totalmente o ideal da democracia se a quisermos de verdade. Antes tais direitos existem pela condição existencial que nos percebemos. Todo o merecimento ao respeito e a dignidade sobretudo se devem pelo simples fato de sermos o que somos em termos existenciais. Os direitos humanos não são nada menos que a pedra fundamental da democracia.

É importante tocar que a democracia nunca agradará a todos, não é necessariamente um mar de rosas visto que implica a convivência e aceitação dos diferentes em vários aspectos e seus esforços prescindem de medidas que busquem o equilíbrio. Ela nem mesmo, necessariamente, deve representar a voz da maioria, a democracia em si é antes um princípio e como tal é um fim em si mesmo, logo constituído fundamentalmente de um traço imparcial. Basta imaginar o quão "democrático" seria se a maioria apoia-se, por exemplo, o fim da liberdade de expressão ou a exclusão de quem fizesse parte de alguma minoria, tal medida seria democrática?

Dado as discrepâncias no que toca a desigualdade presente é inevitável haver perdas e ganhos para uns e outros quando se trata de gerar justiça. Remédios não são doces. Vale ressaltar que a diferença em si não é um problema, afinal, somos diferentes uns dos outros. O desafio se dá na justeza dos pontos de partida, já os de chegada naturalmente podem ser diferentes. As diferenças que são extremas em relação ao que corresponde a oportunidades básicas bem como a mínima dignidade apontam um quadro gritantemente injusto, basta ver indicativos ou gráficos que mostrem os quadros econômicos, sociais, sobre felicidade etc dos países para compreender que o mundo de fato não é justo. Se é que restam dúvidas ainda. Como tudo que pode ser piorado, pode ser melhorado também, com a injustiça não é diferente e a democracia, necessariamente, combate esse mal. Portanto, se quisermos mudanças que comecemos, efetivamente, a sermos, de fato, democráticos.

Nenhum comentário: