11 de maio de 2016

DISTRIBUIÇÃO DE RISCO E SUCESSO

Quando se trata de um produto de entretenimento - se comparado com meias ou cervejas, digamos -, vende-se algo de que as pessoas não precisam; elas devem desejar. Estão dispostas a investir tempo e dinheiro - noventa minutos num filme, 25 dólares num livro - sem a menor certeza de satisfação ou sobre o efeito desejado. O resultado é que qualquer livro, filme ou programa de TV é lançado em meio à incômoda sensação de que pode ser um fracasso total e absoluto. Essa incerteza e a variação da demanda no cerne da indústria de entretenimento levaram a uma ampla gama de contramedidas. Como veremos, a estrutura da indústria de entretenimento não faz sentido se não entendermos as maneiras de administrar o risco. Esse espectro, que vai do óbvio - apostar em astros conhecidos ou em diretores (em geral, nos astros) e nas continuações (sequências de sucessos passados, na esperança de que o raio caia duas vezes no mesmo lugar) - a sistemas de certa forma esotéricos de administração financeira e conta conjunta, tem o objetivo de distribuir sucessos e fracassos num orçamento abrangente. Todas essas técnicas têm em comum a forma como acabam alterando a face da cultura americana e da cultura global.

Como dissemos, discos, programas de TV, livros e noticiários estão todos sujeitos à vicissitudes das indústrias que precisam "acertar na mosca". Reunir um grupo de empresas de mídia é uma forma de partilhar os riscos e benefícios em diversas plataformas, como um romance best-seller que ajuda a equilibrar um fiasco cinematográfico, para chegar a um fluxo estável de rendimentos. Mas, para se defender de bombas da magnitude de O portal do paraíso, o truque de Ross foi bancar as incertezas dos produtos de entretenimento como um todo com fontes de rendimentos mais confiáveis. O guarda-chuva da Warner Communications abrigava não apenas filmes e música, mas também estacionamentos, aluguel de carros e agências funerárias (o antigo negócio de Ross).


Tim Wu (Impérios da Comunicação; págs: 266, 267 e 269)

Ao aumentar o número de seus integrantes, esses grupos de animais não só dividem a atenção dos inimigos como também reduzem, significativamente, a probabilidade de que cada membro individual se transforme na refeição do dia. A longo prazo, essa estratégia distribuída de administração de riscos aumenta a chance de perpetuação da espécies que vivem a rotina de ser sempre a caça, todos os dias de sua existência.

Quando um conselheiro financeiro nos aconselha a distribuir nossas economias entre diferentes investimentos (caderneta de poupança, imóveis, certificados bancários, ações, ouro etc.), ele está se valendo da mesma estratégia de redução de riscos utilizada por um bando de capivaras; a distribuição do montante total por múltiplos investimentos evita que a queda brusca do valor de um deles (digamos, o do mercado de ações) arruíne seu cliente. Algo a ser evitado a todo custo, pois cliente falido não paga comissões a conselheiros!


Miguel Nicolelis (Muito Além do Nosso Eu; pags: 44 e 45)

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