14 de abril de 2016

OS INVENTORES ARTESÃOS E A INJUSTIÇA DO DESCRÉDITO NA HISTÓRIA OFICIAL

Até as invenções mais surpreendentes costumam ser descobertas simultâneas de duas ou mais pessoas. Justiça seja feita, o telefone não foi criado por uma pessoa só. Assim, o que chamamos de invenção, embora não seja fácil, simplesmente acontece quando o desenvolvimento tecnológico chega a um ponto no qual o passo seguinte se torna acessível para muitos. Na época de Bell, outros já haviam inventado a fiação e o telégrafo, descoberto a eletricidade e os princípios básicos da acústica. Coube a Bell montar as peças: não foi uma coisa à toa, mas também nada sobre-humano. Nesse sentido, os inventores são mais artesões que milagreiros.

Se você não for um historiador do cinema, provavelmente não sabe quem inventou o cinema, pelo menos não da mesma forma como sabe quem inventou o telefone ou a lâmpada elétrica. Essa ignorância geralmente é sinal de que o inventor foi de algum modo comprado ou suprimido, ou não conseguiu fundar sua própria indústria, como Alexander Bell. São os investidores e os inventores que decidem como será o nosso futuro, e o que chamamos de genialidade poderia se mais bem-definido como esperteza misturada a capital.

"O inventor fica com a experiência, o capitalista fica com a invenção"

Com o passar dos anos, os fundadores do sistema comercial começaram a atribuir a si mesmo, e não aos amadores, os créditos pela criação do rádio nos Estados Unidos. Sarnoff, como presidente da RCA e fundador da NBC, tornou-se o magnata decisivo do setor no país. Os diletantes amadores e os inventores como Lee De Forest - ou até a AT&T, aliás - foram varridos da história oficial, pois Sarnoff procedeu como os antigos imperadores chineses, que reescreviam a história assim que chegavam ao poder, para provar que sempre haviam tido o mandato do céu.

Baird havia demonstrado a primeira televisão mecânica em 1926; Charles Francis Jenkins começou a transmissão em 1928; Farnsworth patenteou a TV eletrônica em 1930, dando início às transmissões experimentais em 1936; e a BBC criava programas de alta qualidade desde meados dos anos 1930. Mesmo assim, em 1939, Sarnoff resolveu sequestrar a narrativa, reescrevendo a história oficial tal como o público a entenderia. Não fez menção à história dos inventores. Em vez disso, falou:

É com um sentimento de humildade que chego a este instante para anunciar o nascimento, neste país, de uma nova arte, tão importante em suas implicações que deve afetar toda a sociedade. A televisão é uma arte que brilha como uma tocha de esperança em um mundo conturbado. É uma força criativa que precisamos aprender a utilizar para o benefício da humanidade. ...Agora, senhoras e senhores, nós acrescentamos imagem ao som!


Tim Wu (Impérios da Comunicação; págs: 26, 27, 79, 105, 177 e 185)

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