14 de abril de 2016

O CICLO

Houve uma sucessão de mídias abertas e otimistas, mas cada qual, na devida época, tornou-se fechada e controlada por indústrias. Em sua época, cada uma dessas invenções - que deveriam ser o ápice de todas as demais - passou por uma fase de novidade revolucionária e utopismo juvenil: todas iriam mudar nossas vidas, sem dúvida, mas não a natureza de nossa existência. Seja qual for a transformação social que qualquer uma delas possa ter causado, no fim, todas ocuparam seu devido lugar na manutenção da estrutura social em que vivemos, desde a Revolução Industrial. Ou seja, todas se tornaram uma nova indústria altamente centralizada e integrada. Sem exceção, as admiráveis novas tecnologias do século XX - que partiam de uma proposta de uso livre, para o bem de novas invenções e da expressão individual - acabaram se transformando em monstrengos industriais, nos gigantes da "antiga mídia" do século XX que controlariam o fluxo e a natureza dos conteúdos por razões estritamente comerciais.

A história mostra também que qualquer sistema fechado por um longo período torna-se maduro para um surto de criatividade: com o tempo, uma indústria fechada pode se abrir e se renovar, fazendo com que novas possibilidades técnicas e formas de expressão se integrem ao meio antes que o empenho para fechar o sistema também comecem a atuar. A oscilação das indústrias da informação entre posturas posturas abertas e fechadas é um fenômeno tão típico que eu dei um nome a esse processo: "o Ciclo".

Nos momentos específicos e decisivos em que um meio se abre e se fecha. Há um padrão observável. A cada par de décadas, surge uma nova tecnologia da comunicação, cheia de promessas e possibilidades brilhantes. Ela inspira uma geração inteira a sonhar com uma sociedade melhor, com novos modos de expressão, formas alternativas de jornalismo. Porém, cada nova tecnologia acaba sempre por revelar seus pontos fracos, seus caprichos e limitações. Do ponto de vista da indústria, uma invenção pode inspirar outras insatisfações: uma ameaça aos rendimentos dos canais de informação existente, e que a nova tecnologia torna menos essenciais, se não obsoletos. Quando esses problemas atingem uma massa crítica, tornando evidente a possível queda de ganhos substanciais, a mão invisível do mercado acena com um grande magnata como Vail (ou um bando deles), que promete um regime mais organizado e eficiente, a fim de melhorar a vida de todos os usuários. De hábito aliado ao governo federal, esse tipo de magnata é especial, pois define um novo tipo de indústria, integrado e centralizado. Ao oferecer um produto melhor ou mais seguro, o magnata alardeia uma idade de ouro na vida da nova tecnologia. No cerne da ideia jaz uma aprimorada máquina para prover um retorno estável do capital. Em troca de manter a hora exata de partida dos trens (arriscando uma comparação extrema), ele ganha certo controle sobre o potencial da mídia, de possibilitar a expressão individual e a inovação técnica - controle com o qual os inventores jamais sonharam, mas que é necessário para sua autopreservação, assim como dos lucros decorrentes da centralização. Isso também é o Ciclo. O Ciclo é impulsionado por inovações diruptivas que destronam indústrias até então vicejantes, levam poderes dominantes à falência e mudam o mundo. Essas inovações são extremamente raras, mas são elas que fazem o Ciclo se mover.

Se quisermos definir o quanto qualquer indústria é "aberta", devemos começar com uma cifra: o custo da entrada. Com isso estamos nos referindo apenas ao custo monetário para entrar no negócio com uma possibilidade razoável de chegar aos consumidores. Estará em torno de 100 dólares? Mil dólares? Ou estará mais próximo de 1 bilhão? [quanto maior for o custo da entrada, menos ideias serão difundidas152] Seja qual for a magnitude, definitivamente, é este número que determina se a indústria é aberta ou fechada. A mudança de uma fase industrial aberta para uma mercado fechado costumam ter início quando os interesses do capital vislumbram o potencial para aumentar imensamente o lucro com o monopólio, ou quando exige mais segurança para seus investimentos.


Tim Wu (Impérios da Comunicação; págs: 12, 13, 17, 29, 60, 65 e 152)

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