19 de abril de 2016

O BURACO DO CIRCO É MAIS EMBAIXO

Por: Diego Cosmo
Pawel Kuczynski

As definições "esquerda" e "direita" são tão representativas quanto "masculino" e "feminino". Não há em ambos os conceitos um guia definitivo para se seguir uma real coerência do termo, existem identificações, esteriótipos mal feitos, diga-se de passagem. Tais definições já não abarcam a realidade como a temos percebido. Num mundo que se mostra cada vez mais diversificado, a expressividade humana exige mais fôlego diante do seu potencial, voltar a lógica binária medieval é um verdadeiro soco no estômago. Um retrocesso.

Em meio a tanta polarização surge a energia do atrito entre o violão e o herói. A tensão política/emocional deseja uma resposta pragmática. Constroem-se muros com espinhos que é para não ficarem em cima. Não há espaço para ambiguidades, qualquer expressão que lembre o oposto é uma traição passível de pedras. Apoiar determinada ação de um lado significa necessariamente ser contra o outro lado e na iminência de um ataque, numa rua sem saída, a lei da sobrevivência convoca o canto da chinela. Em toda essa cortina de fumaça estabelece-se assim as fronteiras. É a mais absurda materialização do velho "nós contra eles". E como tal, seguem também a natureza das concepções acerca dos temas discutidos em relação à tal postura política, a base, a teoria que teoricamente justifica. A intolerância não apenas evidencia as partes diferentes como também acentua suas posturas dando contornos mais claros e força na defesa das bandeiras, tornando-nos mais extremistas, um verdadeiro convite ao fanatismo. A intolerância uma hora impera e junto às suas implicações radicais colhemos os frutos da violência.

A verdade é que está tudo tão ruim que já não resta boa solução nenhuma. Independente dos novos rumos, já perdemos como um todo. A poesia se arrebentou outra vez e convocadas são às pedras. O estrago foi feito. As mais diversas incompetências mostradas da nossa classe política revelam a debilitada democracia que temos e que estamos construindo, expõem diversos déficits necessários a uma estrutura justa, como também uma, no mínimo, constrangedora falsa representatividade. Partidos que longe de expressarem algum ideal, visam, antes de qualquer coisa, a busca por algum poder e nossa política têm se resumido a isso, no qual os conceitos de "esquerda", "direita", "baixo", "cima" já não passam de meras ferramentas retóricas. Mas como tudo que tá ruim pode piorar... É lamentável um processo tão traumático como o impeachment estar se dando dessa forma. Embora mais traumático ainda seja o preço a ser pago pelo sangue de muitos. Pra piorar tudo, a cereja do bolo é a presidenta não estar caindo por mãos limpas, pelos crimes cometidos mas através do poder de seres execráveis, enferrujadas engrenagens de um diabolismo que rege todo um sistema que vem escancarando a podridão que vem de dentro dele.

Mas os nossos problemas como país vão muito além do que um punhado de magnatas podem fazer. Além de nossa insensibilidade diante do absurdo, caímos no conto do vigário que nos faz, apesar de tudo, sermos separados, polarizados e da pior forma possível, destilando ódio a torto e a direito/esquerdo. Enquanto isso nunca foi solução para uma sociedade mais justa. Ficam-se os dois lados numa insanidade de um patriotismo sem sentido, que só serve para nutrir um senso humanitário mais pobre. Nosso problema é ter uma cultura política que gerou e continua a reinventar incansavelmente a reprodução do teatro de horrores que sempre estamos a ver. Nosso problema é termos feito uma separação grotesca da nossa casa e da rua que compartilhamos, um favoritismo descabido diante dos nossos mais chegados. Do mesmo modo que a incompetência da igreja em se manter atualizada e relevante para a vida fez germinar a semente do ateísmo, a eclosão que vemos de nossa política, o seu ruir de dentro para fora, igualmente, se deu por si mesmo e com isso, também, uma descrença generalizada em sua proposta.


* Período do início do processo de impeachment da Dilma Rousseff

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