9 de março de 2016

OBSOLESCÊNCIA DO SUPERFICIAL

Quando tudo parece estar em ordem, quando as famílias se reúnem em torno da mesa para jantar, o fantasma da Superclasse aparece, vendendo sonhos impossíveis: luxo, beleza, poder. E a família se desagrega. O pai passa horas em claro em trabalho extra para poder comprar o novo modelo de tênis para o filho, ou ele será olhado na escola como um marginal. A esposa chora em silêncio porque suas amigas vestem roupas de marca, e ela não tem dinheiro. Os adolescentes, em vez de conhecerem os verdadeiros valores da fé e da esperança, sonham em virar artistas. As moças do interior perdem a identidade própria, começam a considerar a possibilidade de ir para a cidade grande e aceitar qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, desde que possam ter determinada jóia. Um mundo que devia caminhar em direção à justiça passa a girar em torno da matéria, que em seis meses já não serve para nada, precisa ser renovada, e só assim o circo pode continuar mantendo no topo do mundo aquelas criaturas desprezíveis que agora se encontram em Cannes.


Paulo Coelho (O Vencedor Está Só; pág: 23)

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