23 de março de 2016

JEJUM E DISCIPLINA

O jejum pode nos ajudar a discernir os alimentos materiais e imateriais que exercem controle sobre nossos apetites. Se não temos controle sobre o que comemos, provavelmente não teremos controle também sobre outras áreas da vida. O jejum, tudo indica, exerce esse papel espiritual de diagnosticar o campo dos desejos, dos sentimentos. Assim, o jejum pode ser também um eficiente instrumento para o discípulo aprender a controlar seus apetites. Quem controla a quantidade, a frequência da alimentação e o tipo de comida, tem mais probabilidade de controlar outras áreas da vida. O jejum é, portanto, uma disciplina primária, um passo inicial afim de que o discípulo adquira habilidade suficiente para gerenciar outros desejos, desde os mais lascivos a até mesmo os mais nobres.

Quando Jesus adverte seus discípulos a praticarem a oração e o jejum, a fim de não caírem em tentação, não está indicando um passo de mágica para se vencer a tentação. Está, sim, indicando o jejum como um exercício que condiciona o discípulo a ter domínio sobre as tentações, palavras, reações inconsequentes ou desejos prejudiciais à vida. Pensando nessa direção, reservar momentos de jejum significa abster-se não somente de comida, mas também de palavras, desejos, condicionamentos de todo tipo de ativismo. É acolhimento ao deserto, ao silêncio da alma, ao despojamento máximo. O jejum é um caminho de prato vazio, é a caminhada sem alforjes e sandálias, uma quebra de rotina. Neste sentido, jejuar é disciplinar cotidianamente a vida a manter-se num estado de total dependência de Deus; por isso os pobres de espírito vivem disciplinadamente em permanente jejum de tudo.


Carlos Queiroz (Ser é o Bastante; pág: 160)

Viver tudo "a partir de Deus". Tal atitude significa dar literalmente a volta em todos os nossos hábitos mentais e vivenciais, os quais, de modo quase irremissível, situam em nós a iniciativa, enquanto colocam Deus "lá em cima", de onde - talvez à força de invocações e sacrifícios - pode nos dar uma mão de vez em quando. É se aperceber, no final das contas, de que Deus é sempre o primeiro e que o nosso papel é secundá-lo, deixando-nos ser e salvar por Ele, pois o máximo e o melhor a que podemos aspirar, o que conseguimos nos melhores momentos, é colaborar com Ele.


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; pág: 139)

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