17 de março de 2016

ÉS TU, BRASIL BRASILEIRO

Por: Diego Cosmo
Operários (Tarsila do Amaral)

A conduta para com a sociedade é, dentre outras coisas, uma expressão de posicionamento moral além de atuação política. Do óleo que se joga na pia da cozinha da sua casa ao lixo que jogamos na lixeira da rua, ou não, e o tratamento pessoal para com o outro vão além da mera cortesia, ao menos, deveria ir. Os discursos sugerem revelar o que justifica tais condutas, que é o que faz o mundo girar: as ideias por trás e entre discursos e práticas.

BERÇO ESPLÊNDIDO

Parece haver na mentalidade de boa parte da sociedade brasileira uma energia a mais para reivindicar os seus direitos e um esforço a menos para gritar, também, seus deveres e quanto aos direitos dos outros então... O que por si só parece revelar uma genuína arrogância. Ok. Na verdade, brasileiro parece não querer igualdade, quer única e exclusivamente os seus direitos garantidos, o resto é resto. Mas se é verdade que nosso caráter começa a se formar desde muito cedo, podemos perceber que em momentos chaves da nossa interminável formação como indivíduos, nos contentamos em passar na média na escola, a ter um desempenho medíocre e nem arrumamos nossas próprias bagunças, quer dizer, temos assistência dos pais fazendo pouco ou quase nada e por fim caminhamos para um simples egoísmo visto que tal característica conspira a favor duma perda de tato em frente a convivência social, ao não reconhecimento do próximo, fruto de tal desdobramento, afinal, o mundo nos "deve" algo. Num futuro não muito distante, vitimismo ou não, caso até mesmo venham a sofrer algo, o que não é novidade desde que o mundo é mundo, querem que a sociedade os paguem também. Como se sofrimento e frustração nos dessem mais direitos que o restante. A uma ideia subjetiva de que sempre iremos merecer algo a mais pelo caráter contingencial da vida que nos desfavorece mas má sorte vai além de política.. Eu teria cuidado em se aliar a uma administração que pareça representativa por levantar bandeiras carregadas de discursos empáticos, isso não necessariamente forma cidadãos mas dá votos e todos aplaudem tanto que se dão por satisfeito, enquanto discurso e pratica podem ser como óleo e água.

DOS FILHOS DESTE SOLO ÉS MÃE GENTIL

Fora a "gentileza da mãe", já que tal gesto implica quase que em uma constrangedora nobreza de espírito, seria uma comparação injusta a se fazer a respeito do governo brasileiro. E entre tantos filhos há, no mínimo uma certeza, muita confusão. Como ninguém que se pretenda a ser mãe quer perder seus filhos, resta na figura do Estado como toda boa mãe, se virar para manter os cabrestos dos seus pequenos, pequenos porque necessariamente toda mãe deve ser maior que seus filhotes e o Estado se agiganta. Tudo que é muito pesado perde a agilidade, a gravidade não perdoa, a velhice que o diga. Perde-se a eficiência política em nome de projetos de curto prazo, os ciclos de articulações políticas funcionam em torno dos períodos eleitorais, o que expõe o tópico de número um; entrar ou continuar no jogo. No desenrolar dessa lógica há a pressa, é preciso consertar logo, não há interesse e nem inteligência para prevenir, não se pensa realmente no futuro, não se ensina a pescar, ganhar independência do Estado apequena-o e o futuro nesse jogo é a próxima eleição, tudo é pra já, já que o prazo é curto. Afinal, o carnaval nos ensina que o que importa mesmo é a festa, o lixo que fica depois de tudo, há quem limpe. Filhos é o que não faltam.

A sombra da cultura atinge e se revela em vários aspectos dos relacionamentos. O status quo tende a se perpetuar e a reproduzir os valores que o fazem resistir em frente as irremediáveis mudanças. Brasileiro, metido que é, criou o capitalismo tupiniquim, o do "sabe com quem tá falando?", e os contatos passam a ser mais importantes do que qualquer competência profissional, sacrifica-se a eficiência em nome da perpetuação do poder. E poder se dá em ambientes que não valorizam a clareza, respiram melhor em ambientes regidos por sistematizações. Daí, então, a famosa burocracia brasileira, criamos, isso sim com eficiência, um eficiente acelerador de corrupções. Uma terra fértil para frutos podres. Até que mais uma predestinada bolha exploda e sejamos forçados a atualizar o software, racionalizarmos as irracionalidades de um sistema pretenso infinito num mundo finito visando reorganizar com um novo design as mesmas tensões presentes.

POVO HERÓICO

Dada às várias opiniões que antes caladas se expressam e emergem repentina e massivamente, pelas novas formas de comunicação, revela-se uma certa polarização, o que por sua vez fragiliza o todo. A infeliz falta de senso de comunidade tem se revelado também em certos protestos, como alunos de faculdade pública impedindo o acesso de outros alunos da mesma faculdade à biblioteca, depreciação de ônibus e espaços públicos ou obstrução das vias urbanas automotivas. Quer dizer, até onde a ganância de impor nossas crenças prejudicará a construção da sociedade?

Como todo exagero tende a desembocar num fanatismo, difícil esperar algo puramente positivo até mesmo de movimentos no qual preconceito, intolerância e repressão são os alvos a serem combatidos. O problema é quando qualquer coisa é racionalizada para se configurar como preconceito, machismo ou homofobia. É nesse ponto que as fronteiras dos direitos são esquecidas. Quem reivindica tende a usar mais os pulmões e não escutar o diferente, como se ser diferente não tornasse necessariamente o outro também um diferente, logo, apenas ambas as partes iguais em suas disparidades.

A conotação da expressão é para onde os olhos da sensibilidade deveriam voltar-se, ela é a grande questão, visto que o significado é relativo. Afinal, pegar um fato isolado não é a maneira mais inteligente de se chegar a uma conclusão. Imagine, então, concluir sobre o caráter de alguém através de uma única expressão. Se externalizam determinado gesto ou palavreado, rapidamente são incluídos num determinado estereótipo, esforço tal, diga-se de passagem, que só ajuda a redução do caráter humana. Os mais reativos ao ouvir alguém ser chamado, por exemplo, de "viado" intitulam pejorativamente quem o chamou, mesmo que não o conheçam, mesmo que ele esteja se referindo a um amigo. Há uma falha de julgamento, em reconhecer a relatividade das conotações, a lente do radical não enxerga variáveis. Da mesma forma outras expressões como: "nega" ou "preta" são igualmente difamados em determinados contextos. Dada a ferocidade de certas reações da parte de quem reclama, o ato de levantar as suas bandeiras de guerra, parece ser antes de qualquer coisa, mais um desabafo interno do que uma racionalidade que supõe-se que um movimento deva ter. Não há problema em desabafar, só não parece razoável destilar classificações danosas aos outros por questões pessoais.

Daí o dito, que se tornou popular, "mimimi" que num primeiro momento, não é necessariamente ruim, visto que a completa indiferença é pior do que uma sensibilidade exacerbada. Entretanto, esse "mimimismo" como se tem mostrado atenta contra a autocrítica e uma leitura racional das situações. Criou-se uma cegueira em meio a toda essa presente vista grossa das mínimas expressividades e até mesmo falar de comportamento tem sido motivo de conflito ou tensão, o que soa absurdo visto o emergir de uma intolerância generalizada dos opostos, chegamos a um nível em que todos querem definir o que todos podem ou não podem ser, não pode ser homossexual, não pode ser homofóbico, não pode ser feminista, não pode ser machista. Há quem queira interferir diretamente no direito de mulheres terem filhos, há quem difame o outro por comprar um vestido rosa para seu bebê do sexo feminino, há quem demonize o sexo alheio, entre muitas outras ocasiões. Tudo isso parece não passar de mesquinhas incomodações, dado a irrelevância de tais questões para o bom funcionamento do mundo. Tudo se resume a interesses ideológicos sem ideologia a origem de grande parte dos conflitos.

Prezando pela liberdade, todos nós podemos ser qualquer coisa, inclusive podemos ser as pessoas mais repugnantes, temos essa liberdade e devemos mantê-la, podemos ser contra ou a favor de qualquer coisa, o problema não se encontra aí, a grosso modo, até mesmo podemos amar matar pessoas que isso não será um problema, o verdadeiro problema será matar pessoas. Então, até lá, jogo de cintura...

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