23 de março de 2016

DEUS É DO MUNDO

Não é verdade que "Deus esteja no céu e tu na terra". Ao contrário, Deus está sempre aqui entre nós: no homem e na mulher, na terra e na história. Deus não tem de vir ao mundo, porque já está desde sempre em sua raiz mais profunda e originária; não tem de intervir, pois é sua própria ação que está sustentando e pro-movendo tudo; não acode e intervém quando é chamado, porque é Ele quem, desde sempre, está convocando e solicitando nossa colaboração. Deus age criando e sustentando, "fazendo com que façamos" ou, melhor, possibilitando e animando para que façamos. Ele não nos tira a responsabilidade. Quem trabalha sempre é Deus, quem pode ficar na passividade ou resistir somos nós. Positivamente, parte do respeito à iniciativa absoluta do Deus criador, assim como do reconhecimento de seu amor incondicional e de sua bondade sem medida nem discriminação de nenhum tipo. A um Deus pai-mãe, que desde sempre outra coisa não busca senão nossa plenitude e salvação, é óbvio que não tem sentido procurar informar, convencer ou despertar a compaixão; ao contrário, todo o nosso esforço há de se concentrar em deixar-nos iluminar, guiar e convencer por Ele. Não seria objetivamente ofensivo querer recordar a Deus que na África alguns de seus filhos estão passando fome e suplicar-lhe, então, que tenha piedade deles? Sim, porque a situação é exatamente a contrária: é Deus quem, antes de ninguém e com maior compaixão do que ninguém, "escuta os gemidos" dos que sofrem (Ex 2,24); é Ele quem suscita em nós a consciência e o desejo de ajudá-los (cf. Ex 3,7-11); é Ele quem - isto, sim - diz a cada um de nós: "Escuta e tem piedade" de teus irmãos, que são meus filhos, e cujos gritos são meus gritos. Afinal, "informar" Deus iria contra sua onisciência; mas procurar "despertar sua compaixão" nega a primazia de sua salvação e lesiona o próprio coração de sua bondade.

Na vivência comum e concreta, no modo de pregar, rezar ou celebrar a liturgia, e mesmo no modo de fazer teologia, tudo procede como se nós, os humanos, fôssemos os ativos e os preocupados, os que têm de conquistar a salvação. Conquistá-la diante de um Deus "no céu", que teoricamente nos ama, mas que na efetividade vivencial permanece, ao contrário, passivo até que consigamos movê-lo com nossas súplicas, conquistá-lo com nossas obras e sacrifícios, obter seu perdão com nossas penitências e até mesmo acalmá-lo com a ajuda de nossos intercessores. Por isso, ele também manda e proíbe, premia e castiga, reserva para si um espaço de nossa vida - o "sagrado" - e nos deixa o resto - o "profano".


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 16, 17, 30, 35, 93, 94 e 95)

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