24 de março de 2016

A ORIGEM DAS RELIGIÕES


Estamos tão acostumados com uma visão sobrenaturalista da religião, que a tendência espontânea leva a considerá-la como algo literalmente "caído do céu". Tendência favorecida pela propensão do religioso a se constituir em um mundo à parte, distinto da vida cotidiana e sempre tentado a perder todo contato com ela. Não obstante, por pouco que se observe, se notará que as religiões não caem do céu, mas nascem da terra. Em sua realidade histórica são produtos estritamente culturais: como a poesia, a filosofia e a ciência. Tudo o que é autenticamente religioso é sempre uma resposta a perguntas muito concretas. Resposta específica, caracterizada por sua relação a Deus; mas resposta verdadeiramente humana, obtida no esforço de homens e mulheres por encontrar sentido para perguntas que afetam real e profundamente suas vidas e que, por isso, preocupam ou podem preocupar a todos. Para comprová-lo, basta tomar nas mãos a bíblia ou qualquer outro texto religioso: aparecem como livros com todas as marcas da nossa mais normal humanidade. Um texto religioso é uma interpretação humana da realidade: da realidade comum, a única que existe e na qual todos e todas vivemos.

O que a caracteriza não é uma origem milagrosa, estranha ou fora dos procedimentos "naturais", mas a convicção de que a dimensão empírica e imediatamente mundana não esgota o todo da realidade. Não crê possível uma compreensão adequada da mesma, se não for incluindo outra realidade distinta, a Divina, que a sustenta e transcende e à qual ela está apontando por determinadas características, como podem ser a contingência do universo ou o protesto humano contra a morte, a injustiça ou o sem-sentido. Deus se converte assim na chave para obter uma compreensão "última" da realidade. Entretanto, entendamos bem: atendendo à estrutura interna e à gênesis íntima dessa convicção, não se vê assim a realidade porque se crê em Deus; mas o contrário: porque se vê assim a realidade, nasce a fé em Deus. Assim nascem e se desenvolvem as tradições religiosas, que, em geral, se cristalizam em livros sagrados: em escrituras que se consideram "reveladas" ou "inspiradas".


Andrés Torres Queiruga (Fim do Cristianismo Pré-Moderno; págs: 228 e 229)

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