28 de março de 2016

A EDUCAÇÃO

O conhecimento só se inicia quando o familiar deixa de ser familiar; quando nos espantamos diante dele; quando ele se transforma num enigma. As coisas não são assombrosas para todos. Só para aqueles que aprenderam a ver. A visão tem que ser aprendida. Os olhos precisam ser educados. (Quem disser que o ensino se mede pelo número de horas-aula é um idiota). O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem ordenar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender à exigência da comunidade científica internacional de publish or perish. Eu acho que o objetivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar. Porque é com o pensamento que se faz um povo.

Os vestibulares, todos eles, se concentram no conhecimento das eventuais ferramentas do pensamento, e de tal maneira enchem o tempo e a cabeça dos adolescentes e jovens com tal conhecimento - pois é o único conhecimento que pode ser medido de forma quantitativa - que não sobra tempo para a educação da sensibilidade. Se os jovens não gostam de ler, se não desenvolvem a sua sensibilidade para as artes, se não ficam fascinados com a variedade da cultura humana, se não insensíveis à beleza da natureza, a culpa não é deles. Desde cedo os vestibulares lhes ensinaram que a única coisa importante são as ferramentas.


Rubem Alves (Por Uma Educação Romântica; págs: 78, 106, 107, 184 e 193)

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