24 de dezembro de 2015

A REVOLUÇÃO DOS TEMPORARIAMENTE DIFERENTES

Por: Diego Cosmo

O ato de reproduzir permeia grande parte de nossas expressões, admitamos ou não, inventar não é corriqueiro, reproduzimos ideias, sistemas, ações etc. Ainda "somos como nossos pais" em vários aspectos e o "passado é uma roupa que não nos serve mais". Ao assumirmos bandeiras cridas como válidas para um futuro mundo melhor é necessário ver e rever a estrutura contemporânea. Imitá-lo, mesmo que de viés diferenciado, não é nada revolucionário, e o que fizeram os que acreditaram não ser bom uma revolução na história para nos impulsionar ao passo seguinte? São os que ainda hoje engessam processos. O passo seguinte é a evolução, não necessariamente o melhor ou pior, afinal, quem saberá dizer o que é melhor ou pior pra mim ou pra você?

O fato é que nunca reproduziremos a mesma coisa para sempre, o que prova que algo muda nesse mundo, se é que precisamos ainda ressalvar que o mundo muda. Porque não entender que tais mudanças são projeções de nossa natureza, já que nós somos o mundo. Todos mudamos e as implicações disso recaem numa questão famosa chamada "diversidade". Compreender humanamente tal característica de nossa dinâmica existencial resolveria os problemas que dizem respeito as nossas divergências como preferências sexuais, ideológicas, culturais etc. O que, por "acaso", amadureceria os debates, visto que o ato da aceitação exclui os atos violentos. Impossível falar de diversidade sem falar de identidade porque difícil seria haver diversidade se todos tivessem a mesma identidade. O diferente é fruto das inúmeras potencialidades, podemos até classificar como isso ou aquilo, mas quando a questão se trata de expressão humana, o ato de definir sempre será um limite imposto, esquerda, direita, cristianismo, budismo, GLS, LGBT etc... Os mais diferentes alfabetos nunca serão o suficientes para abarcar toda a potencialidade ou expressividade humana. Tais bandeiras não deveriam ser levantadas como grito de guerra, como é comum vermos por ai. Ser é o bastante, ser humano, que é o que todos somos. Atribuir títulos, classificar e tudo isso que fazemos, é bom, desde que seja produtivo, quando não, é porque já está ultrapassado e serve só aos que tem a ganhar com o status quo.

Que lições podemos tirar da efemeridade que permeia não só nossas faculdades mentais como também até mesmo a própria vida? Tolerância. Tolerar é sensibilidade, saber que tudo é passageiro já deveria, ao meu ver, ser fonte inesgotável de sensibilidade mas nem todos vivem diariamente com a consciência da morte, somente com a sombra, embora estejam vivos... Quer dizer, há um certo "cruz-credo" quando o assunto é mencionado, o que indica que parecemos ser pessimistas quanto o pós morte, enfim... Sensibilidade não é ser "fofo" mas, sim, ser consciente.

Saímos cada vez mais de um mundo preto no branco em que as fronteiras eram muito bem definidas. Hoje, o fato de haver, por exemplo, negros que são contra cotas raciais ou mulheres que não se identificam com o feminismo, posicionamentos tais que são contrários aos antes esperados de ambos os públicos expõe um esborramento de fronteiras característico da contemporaneidade no qual o intitulamento exacerbado não tem sido o suficiente para definir e responder essas questões. O esforço para a definição do que quer que seja, mesmo não sendo conveniente, parece mostrar os últimos esforços de sobrevivência de uma determinada lógica, como uma presa encurralada no qual a última atitude que resta é lutar ferozmente para sobreviver. Semelhança encontramos em muitos movimentos de questões identitárias, mais do que qualquer outra coisa, procuram se manter existentes apesar do caráter ultrapassado da causa que defendem.

Esforçamo-nos para nos definir como isso ou aquilo, criamos teologias que procuram enquadrar Deus de alguma forma, construímos deuses para servir nossos egos, nos dispomos a definir os outros com certos pressupostos. O desconhecido/diferente ainda é um incomodo para muitos, diante da crueza e da falta de sentido da vida buscamos dar sentido a tudo e enganamo-nos ao apequenarmos o mundo ao nos resumir a poucas facetas. As históricas e comuns discrepâncias entre o discurso e a prática parecem nos revelar a existência dos diversos eus em um só. Por fim, não aceitar a multiplicidade de si e dos outros é negar a própria natureza.

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