9 de setembro de 2015

COMO MORRER NUM DIA E RESSURGIR NO OUTRO

"Eu [João Augusto Valente, o Guga] sabia que eles não tinham outro jeito de pagar e falei que não daria nem um centavo de desconto. Deu certo. Peguei esse dinheiro que recebemos integralmente e saí pagando todo mundo com 50% de desconto", conta ele. "Ou seja, morremos num dia e ressurgimos no dia seguinte."


João Wady Cury (Enquanto Eles Choram, Eu Vendo Lenços; pág: 79)

AMORTECEDORES MONROE E A MARILYN

Em uma campanha para os amortecedores Monroe - nada a ver com a atriz, please - o texto era algo de fato inovador e provocativo. Mostrava a analogia e as diferenças entre os dois, alternando imagens da atriz e do amortecedor: famosos no mundo inteiro, como são bons de curvas e de retas, ambos são o sonho dos mecânicos; depois, as diferenças entre os dois, pedações de mau caminho (ela) e bom caminho (ele), todo mundo vibra com ela, mas ninguém vibra com ele. E fecha com a frase: "Amortecedores Monroe, uma segurança para sua família. Marilyn, um perigo para sua família."


João Wady Cury (Enquanto Eles Choram, Eu Vendo Lenços; págs: 67 e 68)

"CABELOS DE GISELE"

A campanha criada para Pantene tinha uma pegada que deixou o marketing da Procter feliz com o que viu: "Cabelos de Gisele". A partir de um símbolo da mulher hipoteticamente ideal, rica e bem-sucedida, a modelo Gisele Bundchen representava tudo o que as mulheres gostariam de ser - e, claro, também o que as mulheres gostariam de ter: os cabelos da Gisele. O termo aparecia em pesquisas e principalmente em um mapeamento nas redes sociais realizado pela Africa durante as primeiras semanas da concorrência.


João Wady Cury (Enquanto Eles Choram, Eu Vendo Lenços; pág: 60)

O PULO DO GATO DE NIZAN GUANAES E O EFEITO-CASCATA

O verdadeiro produto que Nizan Guanaes entrega, além da propaganda comezinha, é uma grande repercussão editorial de suas campanhas na mídia, articuladas por uma equipe própria de divulgação para uma rede de veículos, jornalistas e blogueiros - sempre os mesmos, ávidos por publicar qualquer coisa que se refira a ele ou as empresas de seu grupo. É o seu pulo do gato.

Tudo começa na chave-mestra criada para disseminar a informação: um modelo existente há pelo menos vinte anos e que segue o mesmo ritual para que se obtenha o efeito-cascata. Inicia-se nas colunas sociais de publicações diárias na grande imprensa e nos veículos de entretenimento, de jornais diários a blogs de grande audiência, assinados por colunistas nos grandes portais, sites de celebridades - todos eles capazes de espalhar a informação rapidamente para um segundo nível, as páginas das redes sociais. São utilizados microblogs, como o twitter, e redes de relacionamento, como o facebook, e daí parte-se para blogs pessoais de profissionais que cobrem o mercado publicitário ou trabalham em agências e seguem até as páginas de personalidades envolvidas nas campanhas publicitárias, seus assessores e grupos de fãs organizados em clubes ou redes sociais.

O tratamento dado ao primeiro time de jornalistas, aqueles que serão fundamentais para que se obtenha o efeito desejado, é simples: oferecer permanentemente, com exclusividade, uma série de mimos, se podem ser chamados assim. Entrevistas exclusivas com Nizan e alguns executivos-chave do grupo, como seu sócio João Augusto Valente, convites para as melhores festas da cidade ou mesmo no Brasil, passagem e estadia internacionais para cobrir de festivais de publicidade ao Carnaval na Bahia e no Rio de Janeiro. Ou simplesmente ouvir - e publicar, claro - algo especial que seja dito por Nizan em um paraíso tropical como Saint Barth - a paradisíaca Saint Barthélemy, no mar do Caribe - Paris ou Nova York.

Certamente, tudo isso faz com que os poucos eleitos - jornalistas, tuiteiros ou blogueiros, alguns já se considerando em grau de celebridade - se sintam integrantes do círculo íntimo de um poder aparentemente cheio de glamour, no qual pululam atores globais, músicos, esportistas e apresentadores da TV. Ou seja, o mundo das celebridades. É esse o ponto em que a propaganda criada por Nizan Guanaes e sua equipe se concentra, como forma de turbinar o velho anúncio e transformá-lo em algo que, hoje, no mundo da informação que corre nos trilhos do sistema binário, se torne ainda mais rápido e ganhe ares de importância, apesar de descartável e irrelevante.


João Wady Cury (Enquanto Eles Choram, Eu Vendo Lenços; págs: 49, 51 e 52)

PLANO BRASIL NOVO OU PLANO COLLOR

Para as pessoas, o resumo do plano era o seguinte: a moeda mudaria de nome, de Cruzado Novo para Cruzeiro, haveria congelamento de preços e salários [que acabou por derrubar a atividade industrial e comercial] e, a partir daquela data, todo brasileiro, independentemente do valor que sua conta corrente registrasse, só poderia dispor de Cz$ 50.000 (cinquenta mil cruzeiros) - o restante do dinheiro seria confiscado pelo governo e somente retornaria à conta do vivente 18 meses após aquela data. A ideia era reter o dinheiro, baixar o consumo mecanicamente ao enxugar a economia e o dinheiro que circulava e, com isso, deter a inflação. Tinha lógica. Uma lógica primária. Sim, mas só no papel. Na prática, jogou o país novamente de joelhos.

Curiosamente, a ação de Collor foi justamente a acusação pública que o próprio presidente eleito fizera a Luiz Inácio Lula da Silva durante o segundo turno da campanha naquela eleição de 1989. No fim, foi Collor quem sequestrou a poupança.


João Wady Cury (Enquanto Eles Choram, Eu Vendo Lenços; págs: 48 e 78)

FATALISMO PSICOPATA

Por: Diego Cosmo

Devo confessar... É incabível entender as mazelas do mundo, como qualquer outros acontecimentos, como cumpridoras de destinos traçados que estão até mesmo para além de nosso campo de ação. É de uma, no mínimo, insensibilidade grotesca, ver em quem foi assassinato por engano, nas crianças estupradas, nos mortos por assalto, nos acidentes e nas demais infinitas formas de dor, na qual estamos a mercê, uma lógica, uma justificativa sobrenatural que nem sequer temos, necessariamente, consciência. Acreditar que o desenrolar da história tem um sentido/destino pré-estabelecido ou pronto é uma covarde e exacerbada tentativa de fazer o mundo fazer total sentido. Na realidade, compreender o mundo dessa forma é justamente tirá-lo completamente o sentido, existencialmente falando, pois, assim, nos assumimos como apenas meios para que uma determina história (a da humanidade) se cumpra como, supostamente, já está determinada. Qualquer ideia fatalista trás em si uma crueldade sem tamanho e é psicopática em frente a realidade como a vivemos. Se fossemos delinear uma persona para tal fatalismo, só seria possível desenharmos um ser completamente conformado com o andar dos fatos, tranquilo e indiferente com o que quer que acontecesse ao seu redor e no mundo, porque reconheceria nos acontecimentos nada mais do que o justo para que determinado fim fosse um dia vingado. Se tudo o que acontece, acontece porque tem que acontecer, só me resta aceitar as coisas como elas são... Para a liberdade ser experimentada, antes de tudo, é preciso coragem. Aceitar que há um lado cru, imperfeito e débil na natureza humana é um passo.

FOTO ANTIGA

Por: Diego Cosmo

O tempo mexe muito comigo todos os dias. Tenho no ato de ver fotos antigas uma experiência nostálgica sem tamanho, para além do espaço-tempo como o pude sentir, me consumo num misterioso sentimento de luto. Ensaio um nó na garganta enquanto sinto o lado feroz do tempo, é também quando percebo com uma consciência agoniante o quanto o tempo é o que me resta desde que nasci. Costumo pensar que o tempo é relativo, e é, mas costuma me fugir justamente a parte mais palpável, um lado que só é possível sentir ao olhar para trás: o real e irremediável esvair da vida. Ver uma foto antiga é me deparar com um espectro que me espia durante o tempo todo, sussurra, convida ao passado de uma forma irresistível como o canto da sereia, se fosse possível iria com a maior das vontades visitar nem que fosse por um segundo, aproveitar esse passado com uma vivacidade pulsante, não tenho dúvidas de que olharia para o mundo de uma forma indescritível, o contemplaria de modo que nem me reconheceria e isso é curioso... Se ver no passado é um eterno caso de amor em todos os conceitos já intelectualizado pelos pensadores.

Ao sentir tudo isso, parece um esboço do fim a me acenar, facilmente a perco de vista, são apenas lapsos de uma, ainda, ilusão. Ainda há, teoricamente, pela frente, muita estrada, porém já ficam os sussurros a me convidar diariamente ao bom combate, até lá, naveguemos. Um dia serei e me resumirei apenas e somente a uma foto antiga vista por desconhecidos que, como eu, terão o mesmo destino. Portanto, que o sorriso não seja sem graça... A vida demanda coragem, a fé é opcional.

X!

PLANO DE INTERNACIONALIZAÇÃO DO GRUPO ABC (2014)

Nizan e seus sócios estruturaram em 2014 um novo projeto de internacionalização. Decidiram não começar pelos Estados Unidos, mas sim botar o pé definitivamente na América Latina. "Teríamos duas maneiras de crescer. A primeira seria sair com nossa marca para expandi-la nos Estados Unidos e na Europa, o que daria um caráter de start-up para um grupo de dez anos de vida, ou seja, bem mais complicado, porque teríamos que entender a cultura do país", explica Valente. A outra seria fazer uma série de aquisições na América Latina, com quem o ABC tem muito mais afinidades e conhecimento de mercado. Descartada a Argentina por conta da crise pela qual passam as empresas de mídia, como o Clarín, e decidiu-se focar, já a partir de 2014, em três países: México, Chile e Colômbia.


João Wady Cury (Enquanto Eles Choram, Eu Vendo Lenços; pág: 43)