16 de junho de 2015

DIANTE DA CONDIÇÃO HUMANA, AVANTE!

Por: Diego Cosmo

Primeiramente gostaria de dizer que somos incompetentes na arte de viver, no contrário, não sentiríamos tantos remorsos em causas que estão e dizem ao nosso próprio respeito. Todo medo que se preze é um lembrete, no mínimo, um conselho, é bom fazermos bom uso. Conscientes disso e da ignorância sobre o futuro e da morte, o medo se mostra com significativo sentido e importância, desde que nos impulsione. No mais, verdade seja dita, nos flagramos quase que diariamente sendo bons pessimistas por termos medo sobre o que julgamos não conhecer... Se não conheço, como sentir medo ou coragem? Então, avante!

"O mundo das relações, devido ao amor, precisa de liberdade, e essa liberdade produz contingência. Portanto, acidentes, percalços, incidentes, fazem parte da condição humana. O contrário seria absoluta segurança. Sem a ameaça do sofrimento, sem a possibilidade da morte prematura, não enfrentaríamos ameaça de espécie alguma. Acontece que a ausência da contingência nos desumanizaria. A consciência do risco de adoecer e a imprevisibilidade da morte súbita, embora angustiantes, são o preço que pagamos por nossa humanidade. Jesus encarnou a compaixão de Deus, (compadecer significa sofrer junto), para nos mostrar que Deus sabe do risco de viver. Ele reconhece que mal e bem acontecerão no espaço da liberdade, por isso, oferece o ombro e as lágrimas. Deus não deseja que nossa vida se perca no inferno da dor." "Qualquer desastre revela a inutilidade de pensar que o exercício correto da religião ou a capacidade tecnológica bastam para anular a contingência. A vida será sempre imprecisa e efêmera. Diante da possibilidade do sofrimento, aprendamos a chorar com os que choram." (Ricardo Gondim)

O mundo jaz na imperfeição porque a liberdade também, em certo grau, existe e é inerente a natureza de qualquer existencialismo que venhamos a adotar e liberdade sem pluralismo não é liberdade, estamos presos a nossa consciência, o último refúgio de qualquer esforço. Mas tudo tem limite, inclusive a liberdade. Duma perspectiva teológica, Deus é amor, e então fomos feitos a imagem e semelhança Dele. Entretanto houve uma espécie de necessidade de criação (se não, não teria criação) e criou-se o mundo no qual o mal e a dor seriam inevitáveis, a começar pelo fato de que o mundo não seria habitado por deuses mas por seres que são, supostamente, somente semelhantes a deuses. (Se é que um mundo de deuses seria perfeito...) Ensaiamos amar porque estamos para a vida como o voo está para o pássaro.

A pergunta que nos cabe fazer não é por que não há intervenções positivas nos desastres do dia-a-dia mas antes por que o mundo existe mesmo sendo inevitável o sofrimento ou até mesmo porque nós queremos ter filhos? A comparação pode parecer desajustada de início mas se somos filhos/consequência de algo, supostamente nossas motivações para criarmos descendentes podem ser semelhantes as causas que estão ligadas as nossas origens. Segundo um dos mais relevantes registros de conhecimento religioso (judaico-cristão) da história, conhecido pelo nome de Bíblia, diz: "O verbo se fez carne". Que pelo que tudo indica, se materializa na pessoa de Jesus Cristo, que foi filho de pessoas. Uma teoria é pensar nossa vontade/interesse em ter filhos na perspectiva de um princípio darwiniano de perpetuação da espécie, talvez (que ironia) poderíamos tentar compreender esse ato da criação da perspectiva darwiniana...

Essa questão nos remete a repensar o que significa a presença de Deus em nossa realidade, quais as implicações de tal suposto relacionamento? Imediatamente tornamos a reflexão precária visto que comparamos, naturalmente, o mundo a partir do nosso ser, assim relativizando tudo, então surge todo um conflito quando tentamos explicar o amor de Deus, pois a forma que expressamos o amor, na maioria das vezes, é conflituosa, a manifestação desse sentimento é marcado por variações de caráter humano, é impossível compreender um Deus plenamente em nossa condição, esse fato faz de toda teologia algo tosco, de toda tentativa de enquadrá-lo em algo frágil.

Variadas vezes pensamos num mundo perfeito, um mundo em que não existiria o que não queremos que exista, mas se sofrimento é o que não desejamos, esse fato torna a questão do mal mais enxuta posto que algo que é indesejado por mim pode ser desejado por outro, fazendo assim do sofrimento no mundo algo relativo... Se a dor, o mal ou o sofrimento variam de cultura à cultura, pessoa pra pessoa, para um mundo em que julgaríamos perfeito, tal sem violência, dor de cotovelo ou morte, para os que presam a liberdade, já não seria um mundo perfeito e isso já colocaria em xeque-mate a ideia do "mundo sem sofrimento". Porque a força universal que "evitaria" tudo o que julgamos ruim limitaria as ações humanas como um todo em vários lugares, ou seja, quando falamos de um mundo perfeito na realidade não sabemos da magnitude do que estamos falando... Portanto creio que o paraíso proclamado na maioria dos ambientes religiosos ou de forma comumente discusado seja uma teoria de natureza puramente utópica já que é, em última análise, um discurso, contraditória, de um mundo perfeito enquanto mundo.

A criação em si já expressa algo sobre imperfeição, a qualquer criação que seja é implicado, antes de mais nada, uma necessidade de criar, assim vem a probabilidade de erros na criação e assim o surgimento do sofrimento como consequência paradoxal de uma ação amorosa, dado que partindo do pressuposto de que em nosso ato de gerar vida humana, tal ação esteja calcado em intenções amorosas. Liberdade e amor são tão intrínsecos que se imaginarmos um mundo perfeito necessitaríamos de um Deus que sempre estivesse intervindo para o bom andamento de nossas causas, nessa realidade, o livre-arbítrio e consequentemente o amor não existiriam. Em frente a essa nova empreitada, tendo como ponto de partida o que venho tentando descrever, resta crer que o paraíso se torne algo mais próximo se vivermos sem esperar intervenções divinas, aceitando as contingências da vida como simplesmente frutos de nossas ações e do modo como existimos. Vivermos de modo como se Deus não existisse seria a realização máxima de um pai que ver seus filhos andarem com as próprias pernas, é o caminho mais digno ao paraíso.

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