3 de março de 2015

O TEMPO ATEMPORAL

O tempo do relógio da era industrial está sendo gradualmente substituído pelo que conceituei como tempo atemporal: o tipo de tempo que acontece quando, há uma pertubação sistêmica na ordem sequencial das práticas sociais desempenhadas no âmbito de um determinado contexto, como a sociedade em rede. Encontrei pela primeira vez os traços do tempo atemporal ao analisar as operações das redes financeiras. Mas ele também apareceu em uma ampla gama de áreas sociais, toda vez que a sequência temporal era cancelada ou ofuscada. Podemos ver isso na tentativa de controlar o relógio biológico do corpo humano por meio da capacidade da ciência médica de permitir que uma mulher conceba uma criança na idade que escolher, superando os limites de sua idade fértil biologicamente programada. Ou no trabalho profissional, com o fim de percursos previsíveis de carreira, o desenvolvimento de tempo flexível e o fim da separação entre jornada de trabalho, tempo pessoal e tempo familiar, como na penetração de todo o tempo/espaço por dispositivos de comunicação sem fio que confundem diferentes práticas em um quadro temporal simultâneo por meio do hábito maciço da realização simultânea de múltiplas tarefas.

Como as organizações continuam a se basear no relógio, mas as pessoas estão flexibilizando cada vez mais seu tempo e se deslocando entre diferentes regimes temporais, a realização simultânea de múltiplas tarefas por meio da aceleração proporcionada pela tecnologia resume a tendência para atingir o tempo atemporal: a prática social cujo objetivo é negar a sequência para nos instalar na simultaneidade perene e na ubiquidade simultânea.

O tempo atemporal é isso: não se trata da única forma de tempo, mas é o tempo do poder na sociedade em rede, assim como foi o tempo dos poderosos quando eles estabeleceram o calendário, inclusive o ano que marcou o início do tempo na Antiguidade.


Manuel Castells (A Era da Informação: A Sociedade em Rede, págs: 26 e 27)

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