19 de fevereiro de 2015

FALANDO DE SEXO

Mas por que uma democracia permite o uso da força do governo para barrar a enunciação de palavras para duas atividades  - sexo e excreção - que não fazem mal a ninguém e são parte inescapável da condição humana?

Há muita coisa em jogo no sexo, como exploração, doença, ilegitimidade, incesto, ciúme, violência conjugal, traição, abandono, hostilidades, violência infantil e estupro. Esses perigos existem há muito tempo e deixaram sua marca em nossos costumes e em nossas emoções. Pensar sobre sexo costuma ser pesado, não é uma coisa fácil. As palavras para o sexo podem ser ainda mais delicadas, porque, além de evocar os pensamentos carregados, implicam o compartilhamento desses pensamentos entre duas pessoas.  

Ainda mais aguçado que os conflitos sexuais entre jovens e mais velhos e entre indivíduos e a sociedade é o conflito entre homens e mulheres. Somos mamíferos, herdamos a assimetria que marca a classe: em todo ato reprodutivo, as fêmeas ficam comprometidas com longos períodos de gestação e lactação, enquanto os machos só precisam de uns poucos minutos de cópula. O macho pode ter uma prole maior se cruzar com várias fêmeas, enquanto a fêmea não vai ter uma prole maior se cruzar com vários machos - embora seus filhotes tenham um melhor desenvolvimento se ela escolher um parceiro disposto a investir neles ou que possa dotá-los de bons genes. Não surpreende que em todas as culturas os homens corram mais atrás de sexo, estejam mais dispostos a fazer sexo sem compromisso e sejam mais propensos a seduzir, enganar ou coagir para conseguir sexo. Sem levar em conta outras circunstâncias, o sexo sem compromisso favorece os homens, tanto genética quanto emocionalmente. Era de esperar que a fala descompromissada sobre sexo mostrasse a mesma assimetria, e é o que acontece. Os homens falam mais palavrão, na média, e muitos tabuísmos sexuais dão a sensação de ser especialmente degradante para as mulheres - daí a antiga proibição de falar palavrão "quando há senhoras no recinto".

"O sexo é uma fonte de prazer mútuo e deve ser libertado do estigma e da vergonha."

Embora as pessoas estejam mais dispostas a ver sexo, falar sobre sexo e fazer sexo hoje que no passado, o tema não está livre de tabu. A maioria das pessoas não copula em público, não faz troca de parceiros depois de um jantar, não mantém relações sexuais com irmãos e filhos nem troca abertamente favores por sexo. Mesmo depois da revolução sexual, ainda falta muito para que "exploremos nossa sexualidade" em toda a sua plenitude, e isso significa que as pessoas ainda instalam barreiras na mente para bloquear a passagem de determinados pensamentos. A linguagem do sexo pode esbarrar nesses bloqueios.


Steven Pinker (Do que é Feito o Pensamento, pág: 369, 395, 396 e 397)

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