19 de fevereiro de 2015

DELICADEZA COMO LUBRIFICANTE DAS INTERAÇÕES SOCIAIS

Fazer um pedido coloca o ouvinte numa posição em que ele pode ter de dizer não, o que lhe renderia a reputação de mesquinho e egoísta. Não é de surpreender que a primeira coisa que saia dos nossos lábios quando falamos com um estranho seja um pedido de perdão: Excuse me.

"Um pouco de sal seria bom".
"Eu agradeceria se você pudesse me passar o sal".
"Você pode me passar o sal?".
"Tem algum sal ai?".

A explicação subjacente é que o ouvinte não recebe uma ordem nem um pedido, mas uma pegunta ou uma orientação sobre uma das condições necessárias para que passe o sal. Se o ouvinte não quisesse atender o pedido ou a ordem, poderia exercer sua prerrogativa de não fazê-lo, sem precisar proferir uma recusa que ameace as aparências.

O nível de polidez é ajustado dependendo do nível de ameaça às aparências do ouvinte. O nível de ameaça, por sua vez, depende do tamanho da imposição, da distância social do ouvinte. (a falta de intimidade ou solidariedade) e da diferença de poder entre falante e ouvinte. Assim, os pedidos costumam ser acompanhados de várias formas de auto-rebaixamento:

Perguntar em vez de mandar. [Você me empresta o seu carro?].

Expressar pessimismo: [Acho que você não gostaria de fechar a janela].

Restringir o pedido: [Feche a porta, se puder].

Minimizar a imposição: [Só quero um pouquinho de papel emprestado].

Hesitar: [Posso, hã, pegar sua bicicleta emprestada?].

Reconhecer a infração: [Sei que você está ocupado, mas...].

Indicar relutância: [Normalmente eu não pediria isso, mas...].

Pedir desculpas: [Desculpe incomodar, mas...].

Usar formas impessoais: [Não é permitido fumar].

Reconhecer a dívida: [Ficaria eternamente grato se você...].


Steven Pinker (Do que é Feito o Pensamento, págs: 433, 435 e 442)

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