26 de fevereiro de 2015

A RELAÇÃO CAPITAL-TRABALHO

A chamada teoria da crise por "esmagamento dos lucros" se coloca no problema perpétuo das relações de trabalho e da luta de classes, tanto no processo quanto no mercado de trabalho. Quando essas relações representam um obstáculo à acumulação do capital, segue-se então uma crise, a menos que alguma medida possa ser tomada para o capital superar ou contornar essa barreira. Não há dúvida de que se trata de um sério obstáculo para a contínua acumulação do capital. A maneira como essa barreira foi contornada pelo capital com a ascensão do neoliberalismo durante os anos 1970 e início dos anos 1980 define em muitos aspectos a natureza dos dilemas que enfrentaremos agora.

Há muito poucos sinais de um esmagamento dos lucros. As reservas de trabalho existem em toda parte e há poucas barreiras geográficas ao acesso capitalista. O ataque político sobre os movimentos da classe trabalhadora do mundo inteiro reduziu a resistência do trabalhador a níveis muito modestos em quase toda a parte. A crise de 2008 a 2009 não pode ser entendida em termos de esmagamento dos lucros. A repressão salarial por causa da oferta de trabalho superabundante e a consequente falta de demanda de consumo efetiva são problemas muito mais graves. No entanto, a questão do trabalho nunca acaba. A agitação do trabalho pode muito bem surgir como um problema sério, em qualquer momento e em qualquer lugar. A China, por exemplo, é uma prova contemporânea, onde há uma maré de agitação crescente na medida em que a crise econômica mundial criou aumentos não desejados e não esperados (na China) no desemprego (estimado em cerca de 20 milhões de desempregados no início de 2009) dentro de uma população recentemente proletarizada. É importante levar em consideração o desenvolvimento geográfico desigual das lutas sindicais.

A relação capital-trabalho sempre tem um papel central na dinâmica do capitalismo e pode estar na origem das crises. Mas hoje em dia o principal problema reside no fato de o capital ser muito poderoso e o trabalho muito fraco, não o contrário.


David Harvey (O Enigma do Capital, pág: 60 e 61)

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