20 de agosto de 2014

VOCÊ TEM O QUE É

Por: Diego Cosmo

Um dia criamos uma potencia de produção que superou a nossa capacidade de consumo por necessidade, adiante, os motivos que nos levariam a consumir iriam muito além das necessidades básicas e passariam a se valer do ato de trazermos à superfície aspirações que encontraríamos expressão através do consumo, pois nem só de pão vive o homem, a sede estética, por exemplo, já se mostrava em tempos imemoráveis como nos ornamentos feitos em instrumentos de caça. Em que um desenho no corpo da espada ajuda em sua eficiência? Porém a insensatez é comermos uma tonelada de pães sozinho, o que indica não só que houve um bom trabalho promocional mas, sobretudo, que somos gulosos!

Logo após a segunda guerra mundial, Victor Lebow sacou como o negócio deveria funcionar.

"Nossa economia altamente produtiva exige que façamos do consumo nosso meio de vida, que devemos converter a compra e o uso desses bens em rituais, que busquemos nossa satisfação espiritual, a satisfação do nosso ego, em consumo. Precisamos ter coisas consumidas, queimadas, substituídas e descartadas de modo mais e mais acelerado". - Victor Lebow

O avanço tecnológico dos meios de produção se desenvolveram, principalmente, apostando num aumento do consumo. O mercado é constituído de pessoas que produzem e de pessoas que consomem, logo, impossível falar de mercado sem falar de pessoas ou, a nível subjetivo, da natureza humana. Visto que a história nos aponta que o desenvolvimento é uma constante, a revolução industrial por natureza já lançou as sementes da sociedade pós-industrial. Ao superarmos o modelo funcional da era industrial libertamos o corpo delegando inúmeras atividades às máquinas. Acabamos por nos voltar, em termos gerais, mais ao de caráter estético, libertando a mente ao valorizar a beleza, o design e a criatividade. Com os produtos, em termos técnicos, se emparelhando cada vez mais o que tem feito a diferença tem sido outros valores: design, liberdade, flexibilidade, diversidade etc. Que só poderiam ser amplamente valorizados numa sociedade em que não funcionasse de forma tão mecânica e conservadora como a de antes.

A princípio e sendo simplista o mundo é divido em coisas tangíveis e intangíveis. Quem entendeu o "feeling" dos "business" ao encantar e vender sonhos ao invés de produtos, enriqueceram. Um dos pontos que foram, nesse caso, perversamente, construídos para que se entendesse a correlação natural que há entre pessoas e consumismos foi ligar em tudo o que possível o consumo com o sentido da vida. Em suma, o consumo de certo produto/serviço deveria significar muito mais do que deveria, como profetizou Lebow.

Até mesmo na subjetividade que há no velho clichê: "o trabalho dignifica o homem" ensaia reforçar o sentido da vida à uma lógica que, antes de mais nada, favoreça as vendas. Até porque se o trabalho faz do homem alguém digno quem nunca trabalhou não é digno ou quem trabalhou algum tempo em alguma coisa tornou-se digno... Por que então esse esforço em fazer a vida girar em torno do trabalho, por que "o trabalho [mercado] dignifica o homem [vida]"? Ao resumirmos nossa dignidade ao trabalho acabamos por dar força a umas das engrenagens ideológicas que justifica uma série de desigualdades que na frente da TV achamos um absurdo.

A própria bolsa de valores, em parte, é guiada no que os acionistas percebem de possibilidades positivas e valor nas empresas (intangível), numa perspectiva semiológica o que nos rodeia são abstrações, então, naturalmente, atribuímos significado as coisas. O bom vendedor procura atribuir um significado positivo/valor ao que ele quer vender e assim compramos para sermos felizes, porque geralmente nos realizamos ao vermos representatividade nossa no que compramos. Em frente a isso, o que pode nos representar, de certa forma, é controlado pelos grandes anunciantes (mas! Graças ao novos tempos com toda essa diversidade e ferramentas de filtragem de opções, temos mais facilidade de encontrarmos o que nos convém. "Para a nossa alegria" foi-se o tempo do "o cliente pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto" da pegada industrial de produção em massa, quanto ao resto, do caráter da programação dos circuitos de TV, do modo de vermos produtos e serviços e da cachaça em boteco temos chupado o modelo norte americano, o "american way of life" ainda não deixa de nos ser referência).

Ao expressar um pouco a forma que funciona um determinado lado corporativo de ser das coisas falta, o mais importante, falar do nosso lado nessa breve história, enfim tudo isso está de pé por nossa, literalmente, conta, portanto nos ausentarmos da responsabilidade que temos das partes do todo, possibilita justificar exteriorizarmos as mais diversas culpas, então antes de culparmos o mundo, demos uma olhada para dentro de nós mesmo.

O que são as danças de acasalamento? Aquele sorriso lindo da piada sem graça de quem você quer se mostrar linda? E quando compramos a marca da blusa e não a blusa? Qual modo você adotou para ficar bem no grupo? As gírias e etc.. Tudo isso não se trata de necessidades básicas, se trata de aspirações pessoas, faz parte do que somos.

A necessidade de sinalizarmos algo permeia a nossa história desde sempre, a diferença é que a não muito tempo existe uma ciência que tratou de aprimorar a capacidade de expressão, há um "slogan" que não é muito bem visto (não gosto também) no qual diz: "você é o que tem" mas talvez só tenham se enganado na ordem de pronunciá-lo, faz mais sentido dizer que você tem o que é.

19 de agosto de 2014

A TENTAÇÃO DO FUNDAMENTALISMO

O fundamentalismo é uma tentação. Eu também já fui fundamentalista. Eu me libertei desse pântano espiritual com muita luta interior, passando por ataques de pânico, como Lutero. Mas, pela graça de Deus, eu me libertei dessa armadilha do inferno. Como disse Brian Anderson-Walsh, autor de "A Conspiração Bonsai", o fundamentalismo é "o último vômito de satanás". O fundamentalismo nos tenta porque somos humanos, nosso intelecto é medroso e carente, e multidões caem nessa tentação. Por que é ele uma tentação? Porque apela para nossa fraqueza de querer ter certeza, de querer ter segurança teórica. Na fé, na verdadeira piedade, devemos "andar sobre as águas", isto é, abandonar as certezas teóricas, e é a partir desse ponto, quando abandonamos o dogmatismo, que passamos a, de fato, aprender o caminho de Cristo, o caminho do justo, o caminho da fé.


Ricardo Quadros Gouvêa