16 de dezembro de 2014

MENOS É MAIS

Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe. Chego à altura de poder cair, escolho, estremeço e desisto, e, finalmente me votando à minha queda, despessoal, sem voz própria, finalmente sem mim - eis que tudo o que não tenho é que é meu. Desisto e quanto menos sou mais vivo, quanto mais perco o meu nome mais me chamam, minha única missão secreta é a minha condição, desisto e quanto mais ignoro a senha mais cumpro o segredo, quanto menos sei mais a doçura do abismo é o meu destino. E então eu adoro.


Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H. - Pág: 177)

NOSSO PARAÍSO PERDIDO

Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível - minha atualidade inalcançada é o meu paraíso perdido.)


Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H. - Pág: 150)

DEUS É HOJE: SEU REINO JÁ COMEÇOU

A esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. Somos nós que não aguentamos esta luz sempre atual, e então a prometemos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já. O presente é a face hoje de Deus. O horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos a Deus. É com os olhos abertos mesmo que vemos a Deus. E se adio a face da realidade para depois de minha morte - é por astúcia, porque prefiro estar morta na hora de vê-Lo e assim penso que não O verei realmente, assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo.

Prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.
E seu reino, meu amor, também é desde mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.


Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H. - Pág: 148)

INFERNO

O inferno é a boca que morde e come a carne viva que tem sangue, e quem é comido uiva com o regozijo no olho: o inferno é a dor como gozo da matéria, e com o riso do gozo, as lágrimas escorrem de dor. E a lágrima que vem do riso de dor é o contrário da redenção. Eu via a inexorabilidade da barata com sua máscara de ritual. Eu via que o inferno era isso: a aceitação cruel da dor, a solene falta de piedade pelo próprio destino, amar mais o ritual de vida que a si próprio - esse era o inferno, onde quem comia a cara viva do outro espojava-se na alegria da dor.


Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H. - Pág: 120)

A VERDADE NO ERRO

Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo. Se a "verdade" fosse aquilo que posso entender terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho.


Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H. - Págs: 109/110)

"PREFIRO O DEUS À MINHA CULPA"

A moralidade. Seria simplório pensar que o problema moral em relação aos outros consiste em agir como se deveria agir, e o problema moral consigo mesmo é conseguir sentir o que se deveria sentir? Sou moral à medida que faço o que devo, e sinto como deveria? De repente a questão moral me parecia não apenas esmagadora, como extremamente mesquinha. O problema moral, para que nos ajustássemos a ele, deveria ser simultaneamente menos exigente e inatingível. Pequeno, se se atinge; inatingível, porque nem ao menos se atinge. "O escândalo ainda é necessário, mas ai daquele por quem vem o escândalo" - era no Novo Testamento que estava dito? A solução tinha que ser secreta. A ética da moral é mantê-la em segredo. A liberdade é um segredo.

Embora eu saiba que, mesmo em segredo, a liberdade não resolve a culpa. Mas é preciso ser maior que a culpa. A minha ínfima parte divina é maior que a minha culpa humana. O Deus é maior que minha culpa essencial. Então prefiro o Deus à minha culpa. Não para me desculpar e para fugir mas porque a culpa me amesquinha.


Clarice Lispector (A Paixão Segundo G.H. - Págs: 85/86)

9 de dezembro de 2014

O CONTO DO BÊBADO

Por: Diego Cosmo

Certas tensões exalam cheiro de álcool dos corações, quando não, alucinações. Um típico desgraçado tupiniquim tem crença forte e mais do que um tiquim de coragem mas na impotência de bater de frente com algo menor do que si mesmo, desconta no mundinho que só pode criar conta... Passada as pesadas frustrações, sem, quem dera cem... Mais um conto pra se distrair, dois pontos pra destruir não faltam, a "roda-viva" nem sempre é via de vida.

Me dá um conto ai? 20 centavos já servem...

E SE JESUS NÃO TIVESSE SIDO CITADO NA BÍBLIA?

Por: Diego Cosmo

O que seria da relevância da Bíblia se não fosse a existência dos relatos sobre a pessoa de Jesus Cristo nela? Se fosse menos do que vemos hoje, caso não houvesse citações referentes a ele, isso não deveria, dado os fatos dos relatos existirem, ser o suficiente para significativas reformulações em sua leitura? Por exemplo, partindo do pressuposto que encontramos em Cristo o vetor para a interpretação bíblica, passarmos a ler a Bíblia, para se extrair um real sentido, sob a ótica da pessoa de Cristo, o que, por sinal, tornaria uma volumosa parte da Bíblia irrelevante visto que a pessoa de Cristo, descrito na Bíblia, não consente com vários trechos do que está escrito no Livro "Sagrado".

10 FRASES PARA NÃO DIZER NUMA APRESENTAÇÃO

É muito mais fácil perder a atenção de uma audiência em poucos minutos do que ganhá-la. Como os grandes oradores agem, então, para serem realmente ouvidos? Boris Veldhuijzen Van Zanten, empreendedor e fundador do Twitter Counter e do The Next Web, compartilhou no site Inc dez frases que nunca devem ser ditas nos primeiros momentos de uma apresentação, se você quer manter a atenção de seus ouvintes.


01 - “Estou cansado/ de ressaca/ confuso pelo fuso-horário”

Uma em cinco palestras começam com alguma desculpa: “eles só me convidaram ontem” ou “estou cansado da viagem”. A audiência não quer saber disso, mas deseja que você dê o seu melhor. Se você não pode se esforçar para isso, não aceite dar a palestra. Mas se estiver disposto, deixe de lado o cansaço, vá lá e arrase!

02 - “Vocês podem me ouvir? Sim, podem!”

Começar uma palestra dando tapinhas para testar o microfone e perguntar à plateia se está sendo ouvido é comum, mas sempre estranho. Não é responsabilidade do palestrante checar o áudio, há pessoas para fazê-lo (e se não houverem, teste o volume com antecedência). Se você começar a falar e sentir que o microfone não está funcionando, mantenha a calma, e discretamente peça para que o problema seja resolvido. Não é necessário gritar do palco ou parecer desconfortável. Fique calmo e
espere a solução, se for o caso.

03 - “Não consigo ver vocês porque as luzes estão muito fortes”

Sim, no palco as luzes são fortes, quentes e é difícil enxergar as pessoas, mas elas não precisam saber disso. Olhe para a audiência (mesmo sem distinguir a plateia) e sorria frequentemente. Se quiser interagir melhor, não tenha medo de descer do palco e se aproximar das pessoas. Ao invés de cobrir os olhos para enxergá-las, converse com o responsáveis pela iluminação, antes da palestra, pra que eles acendam as luzes do local se você quiser fazer perguntas ou contar mãos levantadas e coisas do tipo. Planejamento é a chave para não criar momentos desconfortáveis.

04 - “Voltarei a falar disso depois”

Se a plateia se mostrar interessada e quiser interagir, não se prenda aos slides e à ordem em que você abordará os assuntos. Se alguém levantar a mão e fizer uma pergunta, por exemplo, responda naquele momento, mesmo que você fosse falar do assunto depois. Elogie quem fizer isso e incentive o resto da audiência a fazer o mesmo. Não perca a chance de explorar pessoas dispostas a aprender! Não deixe nada para depois.

05 - “Vocês conseguem ler isto?”

Para não correr o risco de fazer a plateia apertar os olhos, use a regra comum: saiba qual será a média de idade do público a quem você vai se dirigir e dobre este valor para estabelecer o tamanho da fonte dos slides. Por exemplo, se a média será de 40 anos de idade, use uma fonte tamanho 80 pontos. Mesmo que em cada slide caiba pouco conteúdo, será melhor, pois a apresentação ficará mais dinâmica.

06 - “Deixe-me ler isso para vocês”

Nunca, nunca, nunca coloque tanto texto em um slide que as pessoas tenham que gastar tempo lendo aquilo. Esta é a “melhor” maneira de fazer a audiência se dispersar. O raciocínio é simples: se as pessoas tiverem que ler algo, elas vão ter que parar de ouvir o que você está dizendo. Por isso, faça slides curtos, com palavras-chave, as quais você desenvolverá, sem ler. Se quiser levar uma frase à audiência, decore e recite. Se for realmente necessário ter a frase no slide, avise que todos devem
ler e dê cerca de 10 segundos de silêncio para este fim. Seja como for, não leia slides!

07 - “Desligue seu celular/laptop/tablet”

Houve um tempo em que você poderia pedir isso da audiência. Não mais. Hoje em dia as pessoas tuítam suas frases e fazem anotações em seus tablets e smartphones. Ou, jogam paciência e navegam pelo Facebook. Você pode pedir que todos os aparelhos sejam colocados no silencioso, mas só isso. Será sua responsabilidade fazer uma apresentação tão incrível e interessante que as pessoas queiram dedicar total atenção a ela. Pedir atenção não funciona, é preciso ganhá-la.

08 - “Você não precisa anotar nada ou tirar fotos; a apresentação estará disponível online depois”

É uma boa opção disponibilizar o material da palestra para os ouvintes, mas não os restrinja. Algumas pessoas gostam de escrever para memorizar o que ouviram ou são inspiradas de tal forma que precisam registrar as ideias que estão tendo através da palestra. Portanto, deixe os ouvintes livres para utilizar os recursos que melhor complementam suas necessidades.

09 - “Deixe-me responder essa questão”

É importante responder perguntas imediatamente, como já dissemos, mas quando alguém faz uma pergunta, muitas vezes as outras pessoas não ouviram. Antes de entrar na resposta, então, repita a pergunta para toda a plateia. Além de manter todos interessados, este hábito dá a você um pouco mais de tempo para desenvolver a resposta.

10 - “Serei rápido”

Esta é uma promessa que ninguém cumpre, mas inicia muitas palestras. É importante lembrar, porém, que a duração da apresentação não é o mais importante para a plateia, afinal eles já investiram aquele tempo, e querem ser inspirados e aprender com o que você tem a dizer. Escolha começar com uma frase mais impactante ao invés de uma promessa que você quebrará.


Dica bônus: “Meu tempo acabou? Mas eu ainda tenho 23 slides!”

Se você veio despreparado e precisa de mais tempo do que está disponível, então você fez besteira. É necessário praticar a apresentação e adaptá-la ao tempo que você recebe. Se possível, e melhor ainda, é terminar cinco minutos antes e abrir para perguntas. Conclusão: venha preparado, seja você mesmo e mantenha o profissionalismo. A plateia vai gostar de você por ser claro, objetivo, sério e não desperdiçar seu tempo.



12 de novembro de 2014

SAUDADES

Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos. Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim... Do companheirismo vivido. Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje já não tenho tanta certeza disso. Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida. Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe... Nas cartas que trocaremos. Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Aí, os dias vão passar, meses... Anos... Até este contacto se tornar cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo... Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos... Que eram nossos amigos e... Isso vai doer tanto! 

- Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida! 

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... Reunir-nos-emos para um último adeus a um amigo. E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos. Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida isolada do passado. E perder-nos-emos no tempo... Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades... 

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!


Fernando Pessoa

30 de outubro de 2014

HUMANOS NÃO PRECISAM CANDIDATAR-SE

SEI QUE NÃO VOU POR AÍ!

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "Vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali [...].
Não, não vou por alí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos [...].
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada. [...]
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios [...].
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga "Vem por aqui"! [...]
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!


José Régio (Cântico negro)

28 de outubro de 2014

POESIA

Não são as propriedades formais tais como rima e ritmo que fazem a poesia. Não é a forma poética que faz a poesia. A poesia se conhece pelo poder que ela tem de fazer amor com o corpo. Ela é a palavra que se faz carne. Mas isso, produzir alterações pelo poder simples da palavra, não é feitiçaria? Contar estórias, recitar poemas, não será feitiçaria?


Rubem Alves

"QUE SERIA DE NÓS SEM O SOCORRO DAS COISAS QUE NÃO EXISTEM?"

Então as coisas que não existem têm o poder de socorrer?
Se nos socorrem, têm poder.
Se têm poder, são reais.
As coisas que não existem são reais?
Os poetas e os contadores de estórias respondem que sim.
Será que Deus pertenceria a essa classe de não existentes
que têm poder para ajudar?
Deus é palavra?


Paul Valéry

27 de outubro de 2014

ATOR

Não é incrível que um ator, por uma simples ficção, um sonho apaixonado, amolde tanto sua alma à imaginação, que todo se lhe transfigure o semblante, por completo o rosto lhe empalideça, lágrimas vertem de seus olhos, suas palavras trema e inteiro seu organismo se acomode à essa mera ficção? Por Hécuba! E que lhe importa Hécuba, ou ele a Hécuba, a ponto de chorar por ela?


William Shakespeare (Hamlet)

EU TINHA 17 ANOS...

Esta manhã eu tinha 17 anos. Mal comecei a dança e já é hora de acabar o baile. Enquanto estava resolvendo quem eu ia ser quando crescesse um dia, minha acne desapareceu e aqui estão meus joelhos enrugados. Enquanto eu pensava que era ainda uma menina, meu futuro virou passado. Existe ainda poesia em mim e isso não parece justo...


Vilma Clóris de Carvalho

VIOLÊNCIA E RELIGIÃO

A heresia de Leonardo [Boff] tem a ver com aquilo que ele pensa sobre a igreja. Para ele Jesus jamais imaginou uma igreja hierárquica, burocrática, dotada de poder (houve um período em que ela chegou a ter exércitos) e que pretende ser a única detentora da verdade, a verdade inteira. Essa pretensão torna impossível o ecumenismo oficial. Porque, se uma instituição possui a verdade toda, ela não precisa ouvir ninguém. Seria uma perigosa perda de tempo. O pensamento do outro só pode ser mentira. É o outro que tem de ouvi-la. Para o Leonardo, ao contrário, a Igreja é formada por todos aqueles que sonham o mesmo sonho, o sonho que está contido na poesia do Pai-Nosso: um mundo de fraternidade, sem misérias, sem vinganças, sem violência.

O Rio de Janeiro é uma das cidades mais religiosas do Brasil e é a cidade mais violenta do Brasil. Qual é a relação que existe entre religião e violência? Ele lembrou que, na história do ocidente, as religiões sempre estiveram ligadas à violência. Os maiores horrores já foram perpetrados por causa de dogmas religiosos. Agora mesmo, para justificar a guerra contra o Iraque, o presidente Bush declarou que conversava com Cristo todas as manhãs. A loucura tem fortes relações com a religião institucionalizada. Os loucos pensam que suas idéias são as idéias de Deus. Pensa-se que a violência criminal vai se resolver com a violência policial. Mas onde se encontram as raízes da violência? Elas não se encontram dentro de nós mesmos? A violência só vai ser resolvida quando os homens aprenderem a ser mansos. Mas isso exige uma transformação espiritual. Era assim que pensavam Jesus Cristo, são Francisco de Assis e Gandhi...

O que é necessário compreender é que ninguém tem a verdade. Nós só damos palpites. No momento em que os indivíduos compreendem que suas verdades não passam de palpites, eles ficam mais tolerantes.


Rubem Alves (Um Céu Numa Flor Silvestre. Pág: 105)

CURTO PRAZO

Mas o tempo do político é o mesmo tempo dos bons negócios. "Eles só pensam no presente", denunciava Guimarães Rosa. Esperem o corte próximo dos eucaliptos, a colheira das abóboras que se aproxima... Seu tempo é o curto tempo que vai de eleição a eleição. Tempo curto, pequeno, sem sonhos a longo prazo. Prometer abóboras dá maiores resultados que plantar araucárias.


Rubem Alves

OLHOS DE CRIANÇA

Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo.
Sei ter pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...


Alberto Caeiro

DESPIR

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não [Diego Cosmo] Albert Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu. [...]
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender...


Alberto Caeiro

BOLA DE SABÃO


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as coisas.
São aquilo que são.
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.


Alberto Caeiro

9 de outubro de 2014

EQUÍVOCOS SOBRE COMUNISMO E CAPITALISMO

01 - Somente as economias comunistas se apoiam em violência de Estado.

Obviamente, nenhum ricaço quer abrir mão de parte de sua fortuna, e qualquer tentativa de obter justiça econômica (como os impostos sobre grandes fortunas) sofrerá uma oposição ferrenha das classes mais altas. Mas a violência estatal (como a tributação) é inerente a todo conjunto de direitos sobre a propriedade que um governo pode adotar –inclusive aqueles que permitiram ao hipotético barão amealhar sua fortuna. No capitalismo, as reivindicações de propriedade autorizam o Estado a usar a violência para excluir todos, menos um reclamante. Se eu reivindico a mansão de alguém, por mais libertário que seja, ele vai recorrer ao governo e às suas armas para me colocar no devido lugar. Ele possui aquela mansão porque o Estado diz que possui e tentará prender qualquer um que discorde. Se não houver um Estado, quem tem o poder mais violento determina quem possui as coisas, seja a máfia ou um bando de cowboys no velho Oeste. Seja por vigilantes ou pelo Estado, os direitos de propriedade se apoiam em violência. Isto é verdadeiro para objetos pessoais e para a propriedade privada, mas é importante não confundi-los. Propriedade implica em ter um título. Quando marxistas falam em propriedade coletiva de terras ou meios de produção, estamos no campo das propriedades; quando apresentadores da Fox falam em confiscar minha gravata, estamos no campo dos objetos pessoais. O comunismo necessariamente distribui a propriedade universalmente, mas não quer tomar seu smartphone, falou?

02 - As economias capitalistas são baseadas em livre comércio.

O oposto do mito do “comunismo opressivo” é o “capitalismo libertador”. A ideia de que todos estamos fazendo escolhas livres todo o tempo é claramente desmentida pela experiência de centenas de milhões de pessoas. A maioria de nós nos encontramos atrelados às pressões da competição. Estamos estressados, exaustos, sozinhos, em busca de significado para a vida –como se não estivéssemos no controle dela. E não estamos; o mercado está. Se você não concorda, tente deixar “o mercado”. A origem do capitalismo foi tirar de camponeses britânicos o acesso à terra e com isso seus meios de subsistência, fazendo-os dependentes do mercado para sobreviver. Uma vez sem propriedades, eles eram forçados a tomar o rumo da sujeira, bebida e doenças das cidades rodeadas de miséria para vender a única coisa que tinham – sua capacidade de usar cérebros e músculos para trabalhar – ou morrer. Como eles, a maioria das pessoas hoje é privada dos recursos que necessitam para prosperar, apesar de eles existirem em abundância, e é forçada a trabalhar para um chefe que está tentando ficar rico nos pagando menos e nos fazendo trabalhar mais. Mas mesmo este chefe (o aparente vencedor no “livre mercado”) não é livre: o mercado impõe à classe proprietária o imperativo de acumular riqueza incansavelmente ou então fracassar. Os capitalistas são compelidos a apoiar regimes opressores e a arruinar o planeta por uma questão de negócios. O tipo particular de capitalismo dos EUA demandou exterminar todo um continente de povos indígenas e escravizar milhões de africanos sequestrados. E toda a indústria capitalista só foi possível porque mulheres brancas, consideradas propriedades de seus pais e maridos, estiveram dedicadas ao papel invisível de criar filhos e arrumar a casa sem remuneração. Três brindes ao livre comércio.

03 - O comunismo matou 110 milhões* de pessoas por resistir ao fim da propriedade privada.
*Este número é um total chute.

Greg Gutfeld, um dos apresentadores da Fox News, recentemente disse que “somente a ameaça de morte pode sustentar o sonho de esquerda, porque ninguém em sã consciência se alistaria voluntariamente em uma porcaria dessas. Portanto, 110 milhões de mortos”.  Ao dizer isso, Gutfeld e sua laia insultam o sofrimento de milhões de pessoas que morreram sob Stalin, Mao e outros ditadores comunistas do século 20. Pegar um número grande de mortos e atribuir suas mortes a algum abstrato “comunismo” não é uma maneira de mostrar preocupação humanista com vítimas de atentados aos direitos humanos. Uma grande parcela das pessoas que morreram sob o comunismo soviético não eram os kulaks (camponeses ricos) com quem a direita quer se preocupar, mas eram, eles mesmos, comunistas. Stalin, na sua crueldade paranoica, não somente executou líderes revolucionários russos, mas também exterminou partidos comunistas inteiros. Estas pessoas não estavam resistindo a ter sua propriedade coletivizada; eles estavam comprometidos com a coletivização de propriedades. Também é bom lembrar que os soviéticos tiveram que lutar uma guerra revolucionária – contra, entre outros, os EUA – que, como a revolução americana mostra, não se consiste majoritariamente em abraços grupais. Eles também enfrentaram (e historicamente derrotaram) os nazistas, que não estavam do outro lado do oceano, mas bem à sua porta. Chega de URSS. O episódio mais horrível no comunismo oficial do século 20 foi a Grande Fome Chinesa, cujas mortes são difíceis de precisar, mas certamente foram dezenas de milhões. Muitos fatores evidentemente contribuíram para esta atrocidade, mas o principal foi o “Grande Salto Adiante” de Mao, uma combinação desastrosa de pseudociência aplicada e perseguição política pensada para transformar a China em uma superpotência industrial num piscar de olhos. Os resultados da experiência foram extremamente cruéis, mas dizer que as vítimas morreram porque, em são consciência, não quiseram ser voluntários de um “sonho de esquerda” é ridículo. A fome não é um problema unicamente da esquerda.

04 - Governos capitalistas não cometem atentados aos direitos humanos.

Seja qual for a avaliação dos crimes cometidos pelos líderes comunistas, não é esperto por parte dos fãs do capitalismo brincar de contar corpos, porque se pessoas como eu têm de explicar os gulags e a Campanha das Quatro Pragas, eles precisam explicar o comércio de escravos, o extermínio indígena, os holocaustos do fim da era vitoriana e toda guerra, genocídio e massacres promovidos pelos EUA no esforço de combater o comunismo. Já que os pró-capitalistas se preocupam tão profundamente com o sofrimento das massas russas e chinesas, talvez queiram explicar os milhões de mortes resultantes da transição destes países ao capitalismo. Deveria ser fácil perceber que o capitalismo, que glorifica o rápido crescimento em meio à competição cruel, iria produzir grandes atos de violência e privação, mas de alguma forma seus defensores estão convencidos de que ele é sempre, e em toda parte, uma força impulsionadora da justiça e da liberdade. Deixe-os convencer as dezenas de milhões de pessoas que morrem de desnutrição todo ano porque o livre mercado é incapaz de solucionar uma situação em que metade da comida do mundo é jogada fora. As 100 milhões de mortes que talvez sejam mais importantes de enfocar agora são aquelas que a organização de direitos humanos DARA projeta que irão ocorrer por causa do clima entre 2012 e 2030. Outras 100 milhões de pessoas mais irão se seguir a estas e não vão levar 18 anos para morrer. Fome como a espécie humana nunca viu está nos rondando, porque o livre mercado não regula o carbono e as empresas capitalistas de petróleo, desde o colapso da URSS, se tornaram soberanas. Os mais virulentos anti-comunistas têm uma forma muito útil, embora moralmente vergonhosa, de tratar esse evento de extinção em massa: eles negam que esteja acontecendo.

05 - O comunismo americano do século 21 iria se assemelhar aos horrores soviéticos e chineses.

Antes de suas revoluções, a Rússia e a China eram sociedades agrícolas pré-industriais, com maioria analfabeta, e cujas massas eram camponeses espalhados sobre enormes vastidões de terra. Nos EUA de hoje, robôs fazem robôs, e menos de 2% da população trabalha na agricultura. Estes dois estados de coisas são enormemente díspares. A mera evocação do passado não tem valor como argumento sobre o futuro da economia americana. Para mim, comunismo é uma aspiração, não algo imediatamente conquistável. Isto, como a democracia e o libertarianismo, é utópico porque envolve um ideal, neste caso a não-propriedade de tudo e o tratamento de tudo – incluindo cultura, tempo das pessoas, o mero ato de cuidar, e coisas assim – de forma digna e intrinsecamente valorizada em vez de tratado como mercadorias que podem ser postas à venda. Etapas para esta condição não necessariamente incluem algo tão assustador quanto a completa e imediata abolição dos mercados (afinal, os mercados antecedem o capitalismo em vários milênios e comunistas adoram um bom mercado direto do produtor). Pelo contrário, eu defendo que podem até incluir reformas com o apoio obtido entre partidos divergentes ideologicamente. Dados os avanços tecnológicos, materiais e sociais do último século, nós podemos esperar uma aproximação ao comunismo, aqui e agora, muito mais aberta, humana, democrática, participativa e igualitária do que as tentativas da Rússia e da China. Acho até que seria mais fácil atualmente do que antes construir o conjunto de relações sociais baseado em companheirismo e ajuda mútua (à diferença do capitalismo, que se caracteriza por competição e exclusão) que seria necessário para permitir o eventual “definhamento do Estado” que os libertários fetichizam, mas sem reproduzir a Idade Média (só que desta vez com drones e metadados).

06 - O comunismo promove a uniformização.

Aparentemente, um monte de gente é incapaz de distinguir igualdade de homogeneidade. Talvez isso derive da tendência das pessoas em sociedades capitalistas de se enxergar primordialmente como consumidores: a fantasia distópica é um supermercado onde uma marca de comida fabricada pelo Estado está em todos os itens, e todos eles possuem embalagens vermelhas e letras amarelas. Mas as pessoas fazem muito mais do que consumir. Uma coisa que fazemos enormemente é trabalhar (ou, para milhões de americanos desempregados, tentar e não conseguir). O comunismo prevê um tempo além do trabalho onde as pessoas são livres, como escreveu Marx, “para fazer uma coisa hoje e outra amanhã, caçar de manhã, pescar à tarde, cuidar do gado à noitinha, criticar depois do jantar… Sem nunca se tornar caçador, pescador pastor ou crítico”. Deste modo, o comunismo é baseado no oposto da uniformização: uma diversidade enorme não só entre as pessoas, mas até na “ocupação” de uma única pessoa. Muitos grandes artistas e escritores que foram marxistas sugerem que a produção de cultura em uma sociedade como essa poderia alimentar uma tremenda individualidade e oferecer formas de expressão superiores. Estes artistas e escritores pensavam o comunismo como “uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”, mas você pode querer considerá-lo como uma instância real do acesso universal à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Você nem vai ligar para os pacotes vermelhos com letras amarelas!

07 - O capitalismo promove a individualidade.

Em vez de permitir a todas as pessoas seguir seu espírito empreendedor em busca de desafios que os realizem, o capitalismo aplaude o pequeno número de empresários que conquistam largas fatias dos mercados de massa. Isto requer produzir coisas em escala, o que induz a uma dupla uniformização da sociedade: toneladas e toneladas de pessoas que compram os mesmos produtos e toneladas e toneladas de pessoas que fazem o mesmo trabalho. Uma individualidade que viceja dentro deste sistema é muitas vezes extremamente superficial. Você já viu os condomínios que se constroem no país? Viu os cubículos cinza, banhados em luz fluorescente, em prédios de escritório tão semelhantes entre si que deixam a gente desorientado? Já viram as lojinhas e as áreas de serviço e os seriados da TV? A possibilidade de adquirir produtos de firmas capitalistas concorrentes não produziu uma sociedade interessante e variada. Em realidade, a maior parte da arte aparecida sob o capitalismo veio de gente que foi oprimida e marginalizada (exemplos: blues, jazz, rock & roll e hip-hop). E então, graças ao capitalismo, é homogeneizada, comercializada e explorada em todo o seu valor por “empreendedores” sentados no topo da pilha, acariciando a pança e admirando a si mesmos por fazer todos abaixo deles acreditarem que somos livres.


Fonte: Pragmatismo Político (por Jesse Myerson, em Salon Tradução e adaptação: Cynara Menezes)

5 de setembro de 2014

CANSEI!

Cansei! Entendo que o mundo evangélico não admite que um pastor confesse o seu cansaço. Conheço as várias passagens da Bíblia que prometem restaurar os trôpegos. Compreendo que o profeta Isaías ensina que Deus restaura as forças do que não tem nenhum vigor. Também estou informado de que Jesus dá alívio para os cansados. Por isso, já me preparo para as censuras dos que se escandalizarem com a minha confissão e me considerarem um derrotista. Contudo, não consigo dissimular: eu me acho exausto.

Não, não me afadiguei com Deus ou com minha vocação. Continuo entusiasmado pelo que faço; amo o meu Deus, bem como minha família e amigos. Permaneço esperançoso. Minha fadiga nasce de outras fontes.

Canso com o discurso repetitivo e absurdo dos que mercadejam a Palavra de Deus. Já não agüento mais que se usem versículos tirados do Antigo Testamento e que se aplicavam a Israel para vender ilusões aos que lotam as igrejas em busca de alívio. Essa possibilidade mágica de reverter uma realidade cruel me deixa arrasado porque sei que é uma propaganda enganosa. Cansei com os programas de rádio em que os pastores não anunciam mais os conteúdos do evangelho; gastam o tempo alardeando as virtudes de suas próprias instituições. Causa tédio tomar conhecimento das infinitas campanhas e correntes de oração; todas visando exclusivamente encher os seus templos. Considero os amuletos evangélicos horríveis. Cansei de ter de explicar que há uma diferença brutal entre a fé bíblica e as crendices supersticiosas.

Canso com a leitura simplista que algumas correntes evangélicas fazem da realidade. Sinto-me triste quando percebo que a injustiça social é vista como uma conspiração satânica, e não como fruto de uma construção social perversa. Não consideram os séculos de preconceitos nem que existe uma economia perversa privilegiando as elites há séculos. Não agüento mais cultos de amarrar demônios ou de desfazer as maldições que pairam sobre o Brasil e o mundo.

Canso com a repetição enfadonha das teologias sem criatividade nem riqueza poética. Sinto pena dos teólogos que se contentam em reproduzir o que outros escreveram há séculos. Presos às molduras de suas escolas teológicas, não conseguem admitir que haja outros ângulos de leitura das Escrituras. Convivem com uma teologia pronta. Não enxergam sua pobreza porque acreditam que basta aprofundarem um conhecimento “científico” da Bíblia e desvendarão os mistérios de Deus. A aridez fundamentalista exaure as minhas forças.

Canso com os estereótipos pentecostais. Como é doloroso observá-los: sem uma visitação nova do Espírito Santo, buscam criar ambientes espirituais com gritos e manifestações emocionais. Não há nada mais desolador que um culto pentecostal com uma coreografia preservada, mas sem vitalidade espiritual. Cansei, inclusive, de ouvir piadas contadas pelos próprios pentecostais sobre os dons espirituais.

Cansei de ouvir relatos sobre evangelistas estrangeiros que vêm ao Brasil para soprar sobre as multidões. Fico abatido com eles porque sei que provocam que as pessoas “caiam sob o poder de Deus” para tirar fotografias ou gravar os acontecimentos e depois levantar fortunas em seus países de origem.

Canso com as perguntas que me fazem sobre a conduta cristã e o legalismo. Recebo todos os dias várias mensagens eletrônicas de gente me perguntando se pode beber vinho, usar “piercing”, fazer tatuagem, se tratar com acupuntura etc., etc. A lista é enorme e parece inexaurível. Canso com essa mentalidade pequena, que não sai das questiúnculas, que não concebe um exercício religioso mais nobre; que não pensa em grandes temas. Canso com gente que precisa de cabrestos, que não sabe ser livre e não consegue caminhar com princípios. Acho intolerável conviver com aqueles que se acomodam com uma existência sob o domínio da lei e não do amor.

Canso com os livros evangélicos traduzidos para o português. Não tanto pelas traduções mal feitas, tampouco pelos exemplos tirados do golfe ou do basebol, que nada têm a ver com a nossa realidade. Canso com os pacotes prontos e com o pragmatismo. Já não agüento mais livros com dez leis ou vinte e um passos para qualquer coisa. Não consigo entender como uma igreja tão vibrante como a brasileira precisa copiar os exemplos lá do norte, onde a abundância é tanta que os profetas denunciam o pecado da complacência entre os crentes. Cansei de ter de opinar se concordo ou não com um novo modelo de crescimento de igreja copiado e que vem sendo adotado no Brasil.

Canso com a falta de beleza artística dos evangélicos. Há pouco compareci a um show de música evangélica só para sair arrasado. A musicalidade era medíocre, a poesia sofrível e, pior, percebia-se o interesse comercial por trás do evento. Quão diferente do dia em que me sentei na Sala São Paulo para ouvir a música que Johann Sebastian Bach (1685-1750) compôs sobre os últimos capítulos do Evangelho de São João. Sob a batuta do maestro, subimos o Gólgota. A sala se encheu de um encanto mágico já nos primeiros acordes; fechei os olhos e me senti em um templo. O maestro era um sacerdote e nós, a platéia, uma assembléia de adoradores. Não consegui conter minhas lágrimas nos movimentos dos violinos, dos oboés e das trompas. Aquela beleza não era deste mundo. Envoltos em mistério, transcendíamos a mecânica da vida e nos transportávamos para onde Deus habita. Minhas lágrimas naquele momento também vinham com pesar pelo distanciamento estético da atual cultura evangélica, contente com tão pouca beleza.

Canso de explicar que nem todos os pastores são gananciosos e que as igrejas não existem para enriquecer sua liderança. Cansei de ter de dar satisfações todas as vezes que faço qualquer negócio em nome da igreja. Tenho de provar que nossa igreja não tem título protestado em cartório, que não é rica, e que vivemos com um orçamento apertado. Não há nada mais desgastante do que ser obrigado a explanar para parentes ou amigos não evangélicos que aquele último escândalo do jornal não representa a grande maioria dos pastores que vivem dignamente.

Canso com as vaidades religiosas. É fatigante observar os líderes que adoram cargos, posições e títulos. Desdenho os conchavos políticos que possibilitam eleições para os altos escalões denominacionais. Cansei com as vaidades acadêmicas e com os mestrados e doutorados que apenas enriquecem os currículos e geram uma soberba tola. Não suporto ouvir que mais um se auto-intitulou apóstolo.

Sei que estou cansado, entretanto, não permitirei que o meu cansaço me torne um cínico. Decidi lutar para não atrofiar o meu coração.

Por isso, opto por não participar de uma máquina religiosa que fabrica ícones. Não brigarei pelos primeiros lugares nas festas solenes patrocinadas por gente importante. Jamais oferecerei meu nome para compor a lista dos preletores de qualquer conferência. Abro mão de querer adornar meu nome com títulos de qualquer espécie. Não desejo ganhar aplausos de auditórios famosos.

Buscarei o convívio dos pequenos grupos, priorizarei fazer minhas refeições com os amigos mais queridos. Meu refúgio será ao lado de pessoas simples, pois quero aprender a valorizar os momentos despretensiosos da vida. Lerei mais poesia para entender a alma humana, mais romances para continuar sonhando e muita boa música para tornar a vida mais bonita. Desejo meditar outras vezes diante do pôr-do-sol para, em silêncio, agradecer a Deus por sua fidelidade. Quero voltar a orar no secreto do meu quarto e a ler as Escrituras como uma carta de amor de meu Pai.

Pode ser que outros estejam tão cansados quanto eu. Se é o seu caso, convido-o então a mudar a sua agenda; romper com as estruturas religiosas que sugam suas energias; voltar ao primeiro amor. Jesus afirmou que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma. Ainda há tempo de salvar a nossa.


Ricardo Gondim

20 de agosto de 2014

VOCÊ TEM O QUE É

Por: Diego Cosmo

Um dia criamos uma potencia de produção que superou a nossa capacidade de consumo por necessidade, adiante, os motivos que nos levariam a consumir iriam muito além das necessidades básicas e passariam a se valer do ato de trazermos à superfície aspirações que encontraríamos expressão através do consumo, pois nem só de pão vive o homem, a sede estética, por exemplo, já se mostrava em tempos imemoráveis como nos ornamentos feitos em instrumentos de caça. Em que um desenho no corpo da espada ajuda em sua eficiência? Porém a insensatez é comermos uma tonelada de pães sozinho, o que indica não só que houve um bom trabalho promocional mas, sobretudo, que somos gulosos!

Logo após a segunda guerra mundial, Victor Lebow sacou como o negócio deveria funcionar.

"Nossa economia altamente produtiva exige que façamos do consumo nosso meio de vida, que devemos converter a compra e o uso desses bens em rituais, que busquemos nossa satisfação espiritual, a satisfação do nosso ego, em consumo. Precisamos ter coisas consumidas, queimadas, substituídas e descartadas de modo mais e mais acelerado". - Victor Lebow

O avanço tecnológico dos meios de produção se desenvolveram, principalmente, apostando num aumento do consumo. O mercado é constituído de pessoas que produzem e de pessoas que consomem, logo, impossível falar de mercado sem falar de pessoas ou, a nível subjetivo, da natureza humana. Visto que a história nos aponta que o desenvolvimento é uma constante, a revolução industrial por natureza já lançou as sementes da sociedade pós-industrial. Ao superarmos o modelo funcional da era industrial libertamos o corpo delegando inúmeras atividades às máquinas. Acabamos por nos voltar, em termos gerais, mais ao de caráter estético, libertando a mente ao valorizar a beleza, o design e a criatividade. Com os produtos, em termos técnicos, se emparelhando cada vez mais o que tem feito a diferença tem sido outros valores: design, liberdade, flexibilidade, diversidade etc. Que só poderiam ser amplamente valorizados numa sociedade em que não funcionasse de forma tão mecânica e conservadora como a de antes.

A princípio e sendo simplista o mundo é divido em coisas tangíveis e intangíveis. Quem entendeu o "feeling" dos "business" ao encantar e vender sonhos ao invés de produtos, enriqueceram. Um dos pontos que foram, nesse caso, perversamente, construídos para que se entendesse a correlação natural que há entre pessoas e consumismos foi ligar em tudo o que possível o consumo com o sentido da vida. Em suma, o consumo de certo produto/serviço deveria significar muito mais do que deveria, como profetizou Lebow.

Até mesmo na subjetividade que há no velho clichê: "o trabalho dignifica o homem" ensaia reforçar o sentido da vida à uma lógica que, antes de mais nada, favoreça as vendas. Até porque se o trabalho faz do homem alguém digno quem nunca trabalhou não é digno ou quem trabalhou algum tempo em alguma coisa tornou-se digno... Por que então esse esforço em fazer a vida girar em torno do trabalho, por que "o trabalho [mercado] dignifica o homem [vida]"? Ao resumirmos nossa dignidade ao trabalho acabamos por dar força a umas das engrenagens ideológicas que justifica uma série de desigualdades que na frente da TV achamos um absurdo.

A própria bolsa de valores, em parte, é guiada no que os acionistas percebem de possibilidades positivas e valor nas empresas (intangível), numa perspectiva semiológica o que nos rodeia são abstrações, então, naturalmente, atribuímos significado as coisas. O bom vendedor procura atribuir um significado positivo/valor ao que ele quer vender e assim compramos para sermos felizes, porque geralmente nos realizamos ao vermos representatividade nossa no que compramos. Em frente a isso, o que pode nos representar, de certa forma, é controlado pelos grandes anunciantes (mas! Graças ao novos tempos com toda essa diversidade e ferramentas de filtragem de opções, temos mais facilidade de encontrarmos o que nos convém. "Para a nossa alegria" foi-se o tempo do "o cliente pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto" da pegada industrial de produção em massa, quanto ao resto, do caráter da programação dos circuitos de TV, do modo de vermos produtos e serviços e da cachaça em boteco temos chupado o modelo norte americano, o "american way of life" ainda não deixa de nos ser referência).

Ao expressar um pouco a forma que funciona um determinado lado corporativo de ser das coisas falta, o mais importante, falar do nosso lado nessa breve história, enfim tudo isso está de pé por nossa, literalmente, conta, portanto nos ausentarmos da responsabilidade que temos das partes do todo, possibilita justificar exteriorizarmos as mais diversas culpas, então antes de culparmos o mundo, demos uma olhada para dentro de nós mesmo.

O que são as danças de acasalamento? Aquele sorriso lindo da piada sem graça de quem você quer se mostrar linda? E quando compramos a marca da blusa e não a blusa? Qual modo você adotou para ficar bem no grupo? As gírias e etc.. Tudo isso não se trata de necessidades básicas, se trata de aspirações pessoas, faz parte do que somos.

A necessidade de sinalizarmos algo permeia a nossa história desde sempre, a diferença é que a não muito tempo existe uma ciência que tratou de aprimorar a capacidade de expressão, há um "slogan" que não é muito bem visto (não gosto também) no qual diz: "você é o que tem" mas talvez só tenham se enganado na ordem de pronunciá-lo, faz mais sentido dizer que você tem o que é.

19 de agosto de 2014

A TENTAÇÃO DO FUNDAMENTALISMO

O fundamentalismo é uma tentação. Eu também já fui fundamentalista. Eu me libertei desse pântano espiritual com muita luta interior, passando por ataques de pânico, como Lutero. Mas, pela graça de Deus, eu me libertei dessa armadilha do inferno. Como disse Brian Anderson-Walsh, autor de "A Conspiração Bonsai", o fundamentalismo é "o último vômito de satanás". O fundamentalismo nos tenta porque somos humanos, nosso intelecto é medroso e carente, e multidões caem nessa tentação. Por que é ele uma tentação? Porque apela para nossa fraqueza de querer ter certeza, de querer ter segurança teórica. Na fé, na verdadeira piedade, devemos "andar sobre as águas", isto é, abandonar as certezas teóricas, e é a partir desse ponto, quando abandonamos o dogmatismo, que passamos a, de fato, aprender o caminho de Cristo, o caminho do justo, o caminho da fé.


Ricardo Quadros Gouvêa

4 de julho de 2014

DO ARTESANATO À INDÚSTRIA

Em cada uma dessas miniempresas conviviam a casa e a oficina: o chefe da família era também o chefe da empresa, os trabalhadores eram os membros da família e os parentes, o crescimento de uma criança coincidia com o aprendizado do ofício, o tempo dedicado ao trabalho coincidia com o tempo da própria vida (por exemplo, se rezava, se cozinhava, se dormia nos mesmos lugares em que se trabalhava). Havia uma completa copenetração entre as esferas produtiva e reprodutiva, racional e emotiva. A tecnologia era rudimentar. Havia uma grande mistura entre criatividade, execução e manualidade: por exemplo, um fazedor de vasos projetava, construía e pintava os seus vasos.

A comunidade fundava-se em necessidades elementares, a economia era de tipo local. Cultivavam-se valores patriarcais e matriarcais, pouquíssimas tinham um alto nível de escolarização, sendo a massa constituída por analfabetos. A religiosidade e a superstição exaltavam a dimensão mágica, fatalista e ultraterrena da existência humana. Somente após milhares de anos, no século XIX, este mundo se transforma em sociedade industrial.

A produção das novas indústrias ocorre numa unidade de espaço e de tempo: a fábrica. O ambiente da vida não mais coincide com o local de trabalho. E o trabalhador torna-se, com frequência, um estranho em ambos os lugares. Na maioria dos casos, a figura do empresário não coincide mais com a do trabalhador, nem a do chefe da família com a do chefe de empresa. Daqui nasce a luta de classes.

Os produtos não são mais pouco numerosos e artesanalmente diversos: passam a ser muitos e estandardizados. As atividades ligadas ao trabalho se cindem das atividades domésticas e as primeiras, consideradas mais importantes, são restritas aos homens, enquanto as outras, consideradas secundárias, são delegadas às mulheres. O mercado se nacionaliza e se internacionaliza. A cidade se torna "funcional", o que faz com que cada bairro tenha uma única função, do mesmo modo que na fábrica, em cada seção, se realiza um processo específico. O racionalismo instaura a sua lógica, as tecnologias se tornam mais complexas. Uma grande parte dos trabalhadores desempenha um trabalho físico e executivo. A produção é vista como uma cadeia de montagem, como um fluxo contínuo e linear. As necessidades das pessoas são "fortes": cada qual se concentra em poucas necessidades essenciais, às quais dedica a vida inteira com duros anos de trabalho, para obter a casa própria, fazer com que os filhos frequentem a escola ou dar de comer a toda a família.

Como os produtos são todos estandardizados, para conseguir vendê-los é preciso inventar as modas, de modo que milhões de pessoas comprem objetos absolutamente iguais. Nascem as chamadas "lojas de departamento" e os supermercados, com preços únicos e fixos. A economia se internacionaliza, extinguindo aquela autossuficiente de tipo feudal representada pelo trabalho do artesão. Os valores emergentes são machistas, a cultura é aquela a que nos referimos como "modernidade" e as ideologias se secularizam. Libera-se do fatalismo que atribuía todo e qualquer evento aos desígnios de Deus e do diabo. O homem adquire uma dignidade própria, feita de autonomia e maior segurança em si mesmo.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 198, 199 e 200)

ELEIÇÕES

Como os interesses são fragmentados, o bipartidarismo obriga os diversos grupos a comporem coalizões fictícias durante as campanhas eleitorais. Depois, uma vez passadas as eleições, os grupos começam a se desagregar e as várias forças que os compunham começam a atacar-se mutuamente, porque, na realidade, não são portadoras de interesses homogêneos. Possuir um interesse em comum hoje não significa que se terá também outros interesses em comum amanhã. Obtido o objetivo momentâneo, cada um passa a outros objetivos, diversos entre si. E, portanto, passa a formar outras alianças.

Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 187 e 201)

MEXE-SE EM TIME QUE ESTÁ GANHANDO?

A guerra demonstrou de uma maneira que não deixa espaço a controvérsias que, graças à organização científica da produção, é possível garantir à população do mundo moderno um razoável teor de vida, desenvolvendo somente uma pequena parte da total capacidade de trabalho. Se, no final do conflito, essa organização científica, criada para que os homens combatessem e produzissem, tivesse continuado a funcionar, reduzindo o expediente a quatro horas diárias, tudo teria tido melhor êxito. Mas, em vez disso, foi instalado novamente o velho caos: quem tem trabalho, trabalha demais, enquanto outros morrem de fome porque não recebem salário. Por que? Porque o trabalho é um dever, e o homem não deve receber um salário proporcional àquilo que produz, mas sim em proporção à sua virtude expressada pelo zelo.


Bertrand Russell (O Elogio do Ócio)

TEMPO NÃO É SÓ DINHEIRO

Espalhou-se por toda parte, com a convicção errada de que quanto mais tempo se passar no local de trabalho, mais se produzirá. Uma ideia que remonta à oficina, à linha de montagem: ali sim, dobrando o tempo, fabricava-se o dobro de parafusos. Hoje é muito diferente, pois o que se solicita aos empregados - sobretudo se são trabalhadores intelectuais - são ideias e não parafusos.

As pesquisas sobre o teletrabalho, ou seja, o trabalho que não é realizado nos escritórios, mas na própria residência, evidenciam que as tarefas que na empresa requerem de oito a dez horas para serem realizadas, em casa se realizam, comodamente, na metade do tempo: de quatro a cinto horas, no máximo. Isto quer dizer que as pessoas passam, seja nas empresas, seja nas repartições públicas, o dobro do tempo necessário.

Uma pessoa que está no escritório sem nada para fazer adquire, como eu já disse, o péssimo hábito de passar o tempo inventando modos de criar procedimentos e regras inúteis que dão dor de cabeça aos outros e só prejudicam. Sem falar no desperdício de recursos: o telefone, o ar-condicionado, o próprio estresse. [No contrário] as empresas seriam mais criativas, mais produtivas e reduziriam as despesas. Os trabalhadores teriam mais tempo disponível para a vida pessoal, revitalizariam seus relacionamentos com a família, com o bairro, com a cultura, alimentariam a própria criatividade.

"Todos os homens, de todos os tempos, e ainda os de hoje, dividem-se entre escravos e livres, porque quem não dispõe de dois terços do próprio dia é um escravo, não importa o que seja de resto: homem de Estado, comerciante, funcionário público ou estudioso." - Friedrich Nietzsche


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 175, 179, 180, 181, 182)

SEXO ANDRÓGINO

Antigamente, a natureza humana não era como a atual. No princípio havia três sexos, e não dois como agora, masculino e feminino. Havia ainda um terceiro, que participava do masculino e do feminino e que agora desapareceu, apesar de permanecer o seu nome. Naquele tempo, de fato, existia o sexo andrógino, que compartilhava o nome e a forma de ambos os sexos, o masculino e o feminino, mas do qual agora resta somente o nome, usado num sentido pejorativo. Em segundo lugar, a figura das pessoas era completamente redonda, as costas e os quadris formavam um círculo, e elas tinham quatro mãos e quatro pernas, e sobre o pescoço redondo, dois rostos idênticos. Essas duas faces que estavam viradas para lados opostos se encontravam numa única cabeça com quatro orelhas, e todos os outros detalhes podem ser imaginados a partir dessas indicações...

E os sexos eram três, enquanto o macho se originou do sol, a fêmea originou-se da terra, e o terceiro sexo, que tinha elementos com comum com ambos, originou-se da lua, que, justamente, compartilha da natureza do sol e da terra. E eles eram redondos, assim como redonda era a maneira como procediam, por semelhança a seus genitores. Assim, eram terríveis na força e no vigor e tinham soberbas ambições e atacavam os deuses... Então, Zeus teve uma ideia e disse: "acredito que encontrei uma forma na qual os seres humanos podem continuar a existir, porém renunciando às suas insolências. Cortarei cada um pela metade, e assim se enfraquecerão, mas ao mesmo tempo duplicarão de número e se tornarão mais unidos a nós..."

Dito isso, começou a cortar os seres humanos em dois pedaços, como se fazem com as sorvas, antes de pô-las no sal, ou como se faz com a casca do ovo... Assim, como a forma originária foi cortada em duas, cada metade sentia nostalgia da outra e a procurava... Portanto, ao desejo e à busca da completude dá-se o nome de amor.


Platão (O banquete)

3 de julho de 2014

SOBRE HOMENS E MULHERES NO SEXO E NO TRABALHO

Na Atenas de Péricles, o separatismo elitista dos homens desembocava frequentemente em relações físicas homossexuais. Isto também acontece hoje, e os casos são crescentes. Porém, o homossexualismo a que estou me referindo nessa circunstância consiste em um posicionamento psicológico, em uma preferência, generalizada entre os executivos, de trabalhar só com homens. Ainda hoje, tanto nos templos religiosos como nos leigos - bancos, conselhos diretivos, bolsas de valores -, a mulher pode colocar o pé somente como encarregada da faxina, como secretária, como funcionária de nível médio ou baixo. Deste modo, salva-se o espaço sagrado reservado aos homens e eles podem ocupá-lo da manhã à noite, até mesmo fazendo horas extras, ainda que não exista tal urgência e não recebam um salário extraordinário. O importante é voltar para casa o mais tarde possível, de modo a não se "rebaixar" fazendo coisas como ajudar no cuidado dos filhos ou nos trabalhos domésticos.

Um intelectual como Platão ou um político como Alcebíades, uma vez concluída as relações sexuais, não saberiam nem mesmo o que fazer ou do que falar diante de uma mulher. Por isso, preferiam relações amorosas com outros homens, com os quais, além da relação sexual em si, podiam sentir-se em sintonia cultural ou fortalecer alianças políticas. Muitos séculos depois, a revolução industrial deslocou o centro do sistema social para os negócios: fábricas, dinheiro, mercadorias, comércio. E os homens segregaram as mulheres fora desses centros, trancando-as nos recintos domésticos, dedicados aos afetos, à estética, à criação dos filhos. Coisas de qualquer forma desvalorizadas, não remuneradas, consideradas secundárias e quase pueris.

O que se atém ao rude, ao prático, ao econômico, ao competitivo e ao racional é reservado aos homens: guerras, trabalhos, esportes, hierarquias eclesiásticas, estados-maiores, conselhos administrativos e estádios. O que se refere à natureza, à beleza, à solidariedade, à emotividade é delegada às mulheres: criação, ensino, sedução, assistência, lar, jardim, escola, bordel, hospício e hospital. As mulheres, por sua vez, tornaram-se cúmplices dessa segregação homossexual. Nas palavras de uma estudiosa americana: "O machismo é como a hemofilia, quem padece da doença são os homens, mas quem a transmite são as mulheres."

Agora, pela primeira vez na História, a ciência permite que as mulheres tenham filhos sem ter um marido, enquanto, para os homens, por enquanto, não é tecnicamente viável ter um filho sem ter uma mulher. Até dez mil anos atrás acreditava-se que as crianças nascessem graças somente à virtude feminina, sem qualquer intervenção geradora do homem. Hoje, biogeneticamente, aquela crença se tornou realidade, estabelecendo as bases fisiológicas para um novo matriarcado. A segunda circunstâncias é que hoje, como já dissemos, a sociedade pós-industrial delega as tarefas cansativas e repetitivas às máquinas, deixando aos humanos as atividades flexíveis, intuitivas e estéticas. Atividade para as quais, historicamente, as mulheres encontram-se mais bem preparadas, pelo simples fato de que os indivíduos do sexo masculino foram sempre tradicionalmente educados para agir de forma racional, rígida e programada.

Onde se afirmam atividades que requerem flexibilidade, intuição, emotividade e senso estético - na ciência, na arte, no cinema,  na moda e na mídia -, aportam, pontualmente, as mulheres e debandam os homens. E é um processo tão acelerado, que legitima a triste hipótese de uma próxima fase de homossexualidade hegemônica: a das mulheres que se relacionam só com mulheres, porque com os homens têm bem pouco  o que dizer e bem pouco a compartilhar.

Uma futura sociedade dominada pelas mulheres com exclusão dos homens seria tão injusta quanto a sociedade passada, dominada pelos homens, com exclusão das mulheres. Em ambos os casos, o que se perde é a riqueza da pluralidade. Por sorte, ainda temos tempo para evitar esse segundo erro, porque os homens estão perdendo a hegemonia, mas as mulheres ainda não a conquistaram. Os homens estão começando a adotar muitas das características femininas: cuidar do corpo, por exemplo, demonstrar maior ternura, usar alegremente cores vistosas no modo de vestir, cuidar mais da casa, ou perder a vergonha de chorar no cinema, diante de uma cena comovente. As mulheres, por sua vez, começam a adquirir desenvoltura na vida pública, consciência de que têm o direito ao acesso às poltronas do poder e à justa pretensão de que também os homens participem no cuidado dos filhos.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 159, 160, 161 e 162)

CRIATIVIDADE

Na sociedade industrial foi a razão que triunfou. Hoje, conquistado o que é racional, podemos voltar a valorizar sem temor também a esfera emotiva. Emoção, fantasia, racionalidade e concretude são os ingredientes da criatividade. A racionalidade nos permite executar bem as nossas tarefas, mas sem emotividade não se cria nada de novo. Para ser criativo, é essencial o cruzamento entre racionalidade e emotividade.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 157)

O DESIGN

Quando já não vale mais a pena melhorá-lo, refinamos sua estética. Qual é a diferença que existe hoje entre um relógio e outro? O design. O aspecto técnico do objeto já é considerado garantido, portanto emerge o aspecto estético. Até mesmo objetos que ainda não completaram o ciclo de aperfeiçoamento técnico, como, por exemplo, os computadores pessoais, já competem no campo do design.

Se na sociedade industrial eu desejava os sapatos da Timberland para me sentir igual aos meus colegas da escola, na sociedade pós-industrial uso tamancos, para me diferenciar.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 154 e 155)

"ESCOLHE UM TRABALHO DE QUE GOSTES, E NÃO TERÁS QUE TRABALHAR NEM UM DIA NA TUA VIDA"

Foi a indústria que separou o lar do trabalho, a vida das mulheres da vida dos homens, o cansaço da diversão. Foi com o advento da indústria que o trabalho assumiu uma importância desproporcionada, tornando-se a categoria dominante na vida humana, em relação à qual qualquer outra coisa - família, estudo, tempo livre - permaneceu subordinada.

Contudo, a plenitude da atividade humana é alcançada somente quando nela coincidem, se acumulam, se exaltam e se mesclam o trabalho, o estudo e o jogo, isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos, tudo ao mesmo tempo. Há um pensando zen que expressa com perfeição esta forma de vida, tanto no seu aspecto prático como no seu estado de espírito: 

"Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu tempo livre, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo. Ele acredita que está sempre fazendo as duas coisas ao mesmo tempo."


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 152 e 153)

GLOBALIZAÇÃO

O primeiro impulso à globalização consiste na tendência a descobrir, conhecer e mapear o planeta e o universo. O segundo consiste no escambo, ou troca de mercadorias, num raio cada vez mais amplo, até abranger a totalidade do mundo conhecido. O terceiro impulso consiste na tentativa de colonizar materialmente os povos limítrofes e, depois, aos poucos, também os povos mais longínquos, até englobar o planeta inteiro. O quarto impulso consiste em invadir todos os mercados com as próprias mercadorias. O quinto, em invadir todo o mundo conhecido com as próprias ideias. O sexto impulso é o de expandir o raio de ação dos próprios capitais, da própria moeda, das próprias fábricas.

Hoje, as novidades são sobretudo três, e conotam um sétimo tipo de globalização: pela primeira vez um país de enorme potência - os Estados Unidos - governa todo o planeta e se prepara para colonizar ainda outros. Pela primeira vez estas várias formas de globalização estão todas copresentes e potencializam seus efeitos reciprocamente. E pela primeira vez a estrada da unificação política e material é aplanada pelos meios de comunicação de massa e pelas redes telemáticas. O universalismo e o ecumenismo que antes, como já vimos, diziam respeito somente aos impérios políticos, a algumas religiões e à língua latina, hoje concernem a todo e qualquer aspecto da vida: da criminalidade ao cartão da American Express, do vestuário aos perfumes, das batatinhas fritas ao design, dos remédios aos combustíveis.

O conjunto desses fatores produz uma oitava forma de globalização: a psicológica. Despertamos todos os dias com um radio-relógio que dá as notícias do mundo todo. Tomamos banho debaixo de um chuveiro cujas torneiras são alemãs e com um sabonete francês. Vamos para o trabalho com um carro cujo design foi feito na Itália, mas cujas peças provêm de vários países, como o Japão e a Coreia. Competimos nos mercados mundiais com capitais de joint-ventures, vendemos mercadorias e informações em todas as praças do planeta, escutamos um disco gravado em estúdios de diversos países e depois mixado em outros, sabemos que um vírus pode girar o mundo em poucos dias e infectar-nos de uma hora para outra. Vivemos numa cidade, trabalhamos em outra e tiramos férias numa terceira, atingindo cada uma delas num piscar de olhos. Conversamos em tempo real com o correio eletrônico, nos falamos e nos vemos através dos oceanos e dos continentes. Tudo isso provoca uma certa vertigem de onipotência, mas revela também a nossa fragilidade humana, jogando trabalhadores, empresas, homens políticos e os Estados numa competição cada vez mais opressiva entre concorrentes sempre mais numerosos e astutos, com o perigo crescente de perder aquilo que está em jogo.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 149 e 150)

2 de julho de 2014

MULTINACIONAIS

A economia global é guiada predominantemente, se não o for de forma absoluta, pelas multinacionais. As multinacionais dispõem de uma potência econômica sem precedentes: de acordo com o Der Spiegel, "as vinte maiores empresas mundiais, das quais fazem parte a Mitsubishi", a Royal Dutch/Shell e a Daimler-Benz, têm uma receita superior à soma das economias dos oitenta [80!] países mais pobres". A ONU calculou que trezentos e cinquenta e oito miliardários do mundo todo são mais ricos que metade da população global. Segundo The economist, no setor de bens de consumo duráveis - automóveis, companhias aéreas, indústrias aeroespacial, eletrônica, elétrica e siderúrgica -, cinco sociedades privadas controlam mais de 50% do mercado mundial.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 148)

A AÇÃO REVOLUCIONÁRIA DO PROLETARIADO SERÁ SEMPRE INOVADORA?

Herdamos do marxismo uma ideia válida nos tempos de Marx, mas hoje errada. A ideia de que a ação revolucionária do proletariado seja sempre inovadora. Nos tempos de Marx era verdade: a tendência do capitalismo era de máxima acumulação, de manter  os salários baixos para obter maiores lucros. Assim, o empresário da época de Marx tendia a empobrecer o ciclo econômico, a difundir mais miséria.

Reivindicar um maior salário significa uma redistribuição de riqueza, que em seguida transformava-se em maior consumo, com benefício para toda a sociedade. Por isso estamos habituados a pensar que tudo aquilo que é feito pela classe dirigente é conservador, e tudo o que é  feito pelo proletariado é progressista.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 138 e 139)

INFORMAÇÃO É PODER

Entre todas as áreas subdesenvolvidas, as primeiras a realizar o salto poderiam ser áreas como o sul da Itália ou como parte do Brasil, materialmente pobres mas culturalmente ricas. Não têm dinheiro, mas já absorveram ideias do rádio, da televisão, da universidade. O Vale do Silício, na Califórnia, tinha uma condição parecida no passado, quando era uma área deprimida economicamente, mas próxima de grandes centros universitários como os de San Diego ou Santa Barbara: seus jovens eram pobres, mas diplomados em Informática ou Biologia. O Vale do Silício passou, em poucos anos, do rural ao pós-industrial, sem jamais ter sido industrial e, portanto, sem ter tido que enfrentar, vencer e superar a cultura industrial e suas resistências às mudanças. E tornou-se uma área riquíssima.

Na sociedade industrial, o poder dependia da posse dos meios de produção (fábricas). Na sociedade pós-industrial, o poder depende da posse dos meios de ideação (laboratórios) e de informação (comunicação de massa). A América é potente não porque possua a Ford ou a Microsoft, mas porque possui universidades, laboratórios de pesquisa, o cinema e a CNN. A Microsoft é muito mais importante pela sua pesquisa do que pela sua produção.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 134 e 136)

1 de julho de 2014

A QUEDA DO POTENCIAL DE CONFLITO

Eu estaria louco se negasse que existe ainda uma massa numerosa de operários e trabalhadores manuais. A questão é que eles não encarnam mais problemas universais, deixaram de ser uma "força revolucionária" e não são mais "centrais" na estratégia para que se consiga pôr fim à exploração. Esta estratégia passa, agora, sobretudo pela mão de obra do terceiro mundo e pela "mente de obra" do primeiro mundo.

De todo modo, o fato é que o trabalho manual não aumenta e sim diminui, enquanto o intelectual aumenta. Como eu já disse, nos tempos de Marx, de cada cem dependentes de uma fábrica, noventa e seis eram operários e só quatro eram executivos. Hoje, num grande número de empresas, noventa são executivos e só dez, operários. O trabalho manual dentro das empresas é sempre mais delegado às máquinas, o que, além de ser economicamente conveniente, reduz o potencial de conflitos.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 106)

OS CINCO PRINCÍPIOS AXIAIS DA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

Em primeiro lugar, a passagem da produção de bens à produção de serviços. Em segundo, a crescente importância da classe de profissionais liberais e técnicos em relação à classe operária. Em terceiro, o papel central do saber teórico ou, como dirá Dahrendorf mais tarde, o primado das ideias. Em quarto lugar, o problema relativo à gestão do desenvolvimento técnico: a tecnologia tornou-se tão poderosa e importante, que não pode mais ser administrada por indivíduos isolados e, em alguns casos-limite, nem mesmo por um só Estado. Em quinto, a criação de uma nova tecnologia intelectual, ou seja, o advento das máquinas inteligentes, que são capazes de substituir o homem não só nas funções que requerem esforço físico, mas também nas que exigem um esforço intelectual.

Estes são o que Bell [Daniel Bell] chama os "cinco princípios axiais" da nova sociedade.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 114 e 115)

ATIVIDADES DO FUTURO

"O futuro", publicou a Newsweek, "pertence àqueles que serão mais capazes de usar as próprias cabeças do que as próprias mãos", ou seja, a pessoas que se dedicarão à análise de sistemas, à pesquisa científica, à psicologia, ao marketing, às relações públicas, ao tratamento da saúde, à organização de viagens, ao jornalismo e à formação, isto é, educação nos campos que acabei de enumerar. Estas são as atividades do futuro, em lugar da guerra, do petróleo ou da fabricação de geladeiras.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 111)

LOTERIA: A BOLSA DE VALORES DOS POBRES

Para quem não joga na bolsa foi inventada uma engrenagem igualmente aleatória e voraz para drenar o dinheiro das pequenas poupanças: a Loto, a Loteria Esportiva e uma gama inteira de jogos que servem de Bolsa de Valores dos pobres. Representam uma bolsa gerida diretamente pelo Estado, que arrecada bilhões a cada ano, acalentando o sonho de todo cidadão: virar, da noite para o dia, sem esforço e risco, um novo tio Patinhas.

Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pag. 98)

UMA BREVE HISTÓRIA DAS PRIVATIZAÇÕES

Durante setenta anos perdurou a disputa entre dois sistemas econômicos e políticos, o comunismo e  o capitalismo. A queda do Muro de Berlim sancionou a vitória do segundo, que com isso adquiriu um excesso de confiança eufórica em relação ao livre mercado, à concorrência e à competitividade. Os últimos dez anos do século XX serão recordados como o período mais influenciado pelo liberalismo.

Os capitalistas aperfeiçoaram no mundo todo uma estratégia precisa, guiados por Reagan, nos EUA, e por Thatcher, na Grã-Bretanha. Com uma grande uso da mídia, elaboraram uma campanha para atacar tudo que é público: burocracia, empresas estatais, transportes, previdência social e ensino. Obtiveram assim a privatização dos setores mais lucrativos da economia e compraram a baixo preço as ações das sociedades privadas: companhias de transporte ferroviário, eletricidade, telecomunicações, tudo aquilo de maior valor dos patrimônios estatais. Como se não bastasse, fizeram de forma a receber de volta o dinheiro que tinham pago ao Estado, na forma de incentivos fiscais ou empréstimos a baixo custo e com prazos a perder de vista. Depois disso, começaram a reduzir os custos nessas empresas privatizadas, realizando fusões e demitindo empregados. Em poucas palavras, a este maior ganho dos empregadores correspondem uma grande diminuição da receita estatal, um aumento do desemprego e um decréscimo da qualidade de vida dos trabalhadores. Desta maneira, acumularam quantias imensas de dinheiro, usando inclusive a desculpa de que as grandes somas são indispensáveis para realizar investimentos produtivos e voltar assim a aumentar a oferta de empregos. Mas na verdade, tanto nos Estados Unidos como na Europa, os investimentos privados diminuíram, em vez de aumentar.

E mais ainda, sejam de direita, sejam de esquerda, os ministros responsáveis pela área econômica continuam a ter esperanças de que o desemprego possa ser debelado com a clássica arma dos novos investimentos e para isso fazem a corte aos empresários. Apesar disso, os empresários investem cada vez menos e, quando o fazem,  preferem jogar na Bolsa, comprar um robô ou abrir uma fábrica num país do terceiro mundo.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 96, 97, 99 e 101)

UM ALVORECER DO PROGRESSO

O produto interno bruto do planeta aumenta a um índice superior a 3% ao ano. E a riqueza atinge até mesmo as zonas mais pobres: talvez sob a forma de remédios e alimentos com a validade vencida, ou ainda sob a forma de anticoncepcionais. Enquanto os países ricos continuam a progredir, existem alguns países que eram pobres no passado e entraram numa via muito rápida para o desenvolvimento: na Coreia, Cingapura, Taiwan e Malásia, o perfil do PIB, que já dura alguns anos, registra um aumento anual de 10%.

São países que hoje se acham numa situação equivalente à da Inglaterra do século XIX, com a mesma exploração dos trabalhadores. Posso parecer cínico, mas isso significa, mesmo assim, um alvorecer do progresso. Até porque, em relação à velha Inglaterra, esses países vivem um outro tipo de desenvolvimento, além do industrial: o desenvolvimento dos meios de comunicação, graças ao qual podem ter notícias e ser informados, em tempo real, sobre o que acontece em outras partes do planeta. Desse modo, os conflitos de classe que sacudiram a Coreia, dez anos depois do início da sua industrialização, são mais ou menos equivalentes aos que sacudiram a Inglaterra, cem anos depois da invenção da máquina a vapor: diminui o tempo que dura a exploração, assim como aquele necessário para que se deflagre a rebelião.

A questão é que as exigências dos países ricos mudaram: antes precisavam de matéria-prima, agora necessitam de mão de obra e mercado para suas exportações. É exploração? Sem dúvida. Mas, apesar disso, é uma exploração inferior à exploração colonial, na qual as grandes potências se apropriavam das matérias-primas e reduziam as populações nativas à escravidão. Representa, portanto, uma melhora, nem que seja pelo simples motivo de que o trabalho é de alguma forma remunerado.

A única coisa certa é que o primeiro mundo comprará, cada vez mais, o esforço humano do terceiro mundo e ainda pagará baixos salários por ele.

Em 1992, o salário anual de um simples empregado de meio expediente da Nike, nos Estados Unidos, era superior à soma dos salários de todas as moças da Indonésia que no mesmo período tinham trabalhado nas empresas fornecedoras da Nike americana. Nos últimos vinte anos, a Nike transferiu suas fábricas primeiro para a Coreia e Taiwan e, depois, quando os trabalhadores desses países começaram a se sindicalizar, para a China e para a Tailândia, onde os salários são ainda mais miseráveis.

Na Itália, uma hora de trabalho custa vinte e quatro dólares, no Brasil, doze, em Cingapura, sete, na China, um, e na Malásia, sessenta e cinco centavos de dólar.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs 90, 91, 92 e 93)

PROGRESSO TECNOLÓGICO

A mudança assusta sempre. E assusta tanto mais quanto mais se aproxima do âmbito genital, no sentido etimológico da palavra, isto é, da origem da vida. Parece-nos a violação de uma esfera sagrada, porque desconhecida. Imaginar que até o amor, que é uma emoção, possa depender de fatores bioquímicos atormenta todo aquele que tenha escolhido o atalho explicativo feito de sagrado e mistério. Afirmar que "tudo depende de Deus" é uma explicação cômoda: não há nada que deva ser feito, pode-se cruzar os braços. Em muitas culturas, transforma-se em fatalismo. Tome, por exemplo, as testemunhas de Jeová, que afirmam: "A saúde me vem de Deus, se ele quiser me salva, portanto não devo interferir com tratamentos, nem transfusões."

No entanto, a história da humanidade é a história da intervenção humana na natureza para domá-la. Para isto desviamos rios, inventamos o para-raios, casas e remédios. Há quem veja e tema nessa domesticação a sua dimensão aterrorizante. Outros, no entanto, e eu me encontro entre eles, valorizam a sua dimensão salvadora. Não excluo os perigos do progresso tecnológico, porém dou mais peso aos seus aspectos positivos. Por exemplo, o fato de o homem ter conseguido duplicar a duração da própria vida me parece uma conquista extraordinária. E como teria realizado tal feito sem o auxílio tecnológico?


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 85 e 86)

30 de junho de 2014

ELEMENTOS DO SISTEMA SOCIAL

Em todo sistema social podemos identificar os elementos de base, elementos estruturais, superestruturais e culturais. Numa nação, por exemplo, os elementos de base são a população, o território e a modificação destes.

Elementos estruturais, mais ou menos como o esqueleto do corpo humano, são a distribuição do trabalho e a distribuição da riqueza: quantos trabalham, quantos são desempregados, quantos são os pobres, quem ganha e quem gasta, se prevalece a agricultura, a indústria ou o setor terciário. Depois disso vêm os fatores superestruturais, que têm a ver com a divisão do poder: democracia ou ditadura, sistemas eleitorais, o poder das elites formais. Mas têm a ver também com o poder das elites informais, tais como atores famosos, líderes religiosos, professores universitários, etc. Por fim, restam os fatores culturais: a cultura ideal de um povo (língua, ideologias, preconceitos, etc.), a cultura material (bens imóveis e móveis, como máquinas, etc.), a cultura social (usos, costumes, protocolos, modas, tradições, inovações, etc.). Junto a todos esses elementos existem os fatores de solidariedade (pactos, clãs, religiões, etc.) ou de conflito (disputas entre ideologias, sexos, gerações).


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, pág. 84)

ENCÍCLICA DE ELITE

A burguesia teme perder o poder que acabou de conquistar com a Revolução Francesa, e assim passa a ter medo de outras revoluções. De um lado, encontram-se a teoria liberal e o cristianismo, baseados no medo do conflito. De outro, a teoria marxista, fundada,  ao contrário, na esperança da revolução. Somente no nosso século, com a teoria dos sistemas e com Dahrendorf, vai se chegara afirmar que o conflito, se contido dentro de certos limites e arbitrado pelo Estado, é útil às organizações, pois determina seu dinamismo e crescimento.

Os milhares de deserdados que aportam na América trazem consigo essa cultura. A revolução industrial na América enraíza-se tão rapidamente porque existe uma minoria, a dos patrões, que está convencida de que quem possui fortuna neste mundo a merece, já que é esta a vontade de Deus. São convictos de que Deus está do lado dos wasp, isto é, "brancos anglo-saxões protestantes". Mas se era fácil encontrar gente convicta do próprio direito de comandar, era, no entanto, difícil encontrar gente disposta a obedecer. E, assim, essas massas católicas, impregnadas da Rerum Novarum que tinham ouvido em todas as igrejas, estavam convencidas de que tinham o dever de sofrer em silêncio e trabalhar.

A encíclica deixa claro, desde o começo, que a propriedade privada é um direito natural - logo, divino. E o faz com o seguinte raciocínio abstruso: como os animais têm o direito de usar as coisas, mas não de possuí-las, o homem, que é superior aos animais, deve ter um direito a mais. Por conseguinte, o direito à propriedade. Digamos a verdade: um raciocínio ridículo. A encíclica fala a seguir da família e do Estado. Depois disso, começa a parte sobre a "necessidade das diferenças sociais e do trabalho pesado". Diz: "É impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível... O homem, mesmo que no estado de inocência, não era destinado a viver na ociosidade, mas ao que a vontade teria abraçado livremente como exercício agradável" - e eis o meu ócio criativo -, "a necessidade lhe acrescentou, depois do pecado, o sentimento da dor e o impôs como uma expiação: 'a terra será maldita por tua causa; é pelo trabalho que tirarás com que alimentar-te todos os dias da vida'".

O dever do rico é, "em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém" e agir segundo "a caridade cristã". O proletário, por sua vez, faz bem em contentar-se com o que tem, pois, diz o papa, "que abundeis em riqueza ou outros bens, chamados de bens de fortuna, ou que estejais privados deles, isto nada importa à eterna beatitude: o uso que fizerdes deles é o que interessa. (...) Assim, os afortunados deste mundo são advertidos de que as riquezas não os isentam da dor; que elas não são de nenhuma utilidade para a vida eterna, mas antes um obstáculo...". Em suma, é melhor ser pobre do que rico.

Se não se aceitam as desigualdades sociais e o trabalho como expiação, nasce a luta de classe: "O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado."

A encíclica propõe que as diversas classes entrem num acordo, em nome de um organicismo, resgatado tal e qual o de Menemio Agrippa. O texto original é o seguinte: "É necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque, assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exatamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também na sociedade as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital. A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, do conflito perpétuo só podem resultar confusão e lutas selvagens. Ora, para dirimir este conflito e cortar o mal na sua raiz, as instituições possuem uma virtude admirável e múltipla."

E eis que se ajusta o papel superior da Igreja tanto contra os socialistas fomentadores de ódio entre as classes quanto contra os liberais: "E, primeiramente, toda a economia das verdades religiosas, de que a igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, primeiro que todos os outros, os que derivam da justiça. (...) O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos de lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços." O papa, portanto, coloca-se como defensor do status quo e inimigo da luta de classes, propondo o cristianismo como o melhor dos meios para garantir a paz social.

A igreja compreende que a indústria é sua inimiga: porque racionaliza o mundo, substitui a magia pela ciência e o raciocínio, torna vã a fé na vida depois da morte com a confiança no progresso. E o papa adverte para o perigo de que as classes pobres pretendam enriquecer. Quanto menor for o número de  pobres, menor será o número de fiéis com a qual a Igreja poderá contar: de fato, nas zonas rurais, o camponês era submisso ao padre, enquanto nas cidades industriais o operário pobre se emancipava e passava da pregação dos padres à das vanguardas políticas.

O alvo dela [a doutrina católica] é a sociedade que nasceu com as fábricas: o marxismo de um lado e o liberalismo do outro. Afirma que as desigualdades não podem ser eliminadas, que a caridade precisa ser exercida pelos ricos, e a paciência, pelos pobres.


Domenico de Masi (O Ócio Criativo, págs. 53, 54, 55, 56, 57, 58 e 59)