15 de junho de 2013

ARNALDO JABOR, LULA E DILMA

Adriana Negreiros: Quando esta entrevista for publicada, as eleições provavelmente já estarão definidas.

Jabor: Já vamos ter a Dilma tomando conta da nossa vida.

Adriana Negreiros: Existe uma diferença considerável em ter uma mulher presidente em vez de um homem?

Jabor: Nenhuma. A diferença não é de sexo, é de preparo. O Lula é um homem extremamente carismático e tem uma experiência política espantosa. Talvez seja o político mais esperto do Brasil, um dos maiores atores do mundo. E ele resolver fazer um terceiro mandato por intermédio de uma representante que ele inventou. A Dilma não tem competência nenhuma. Mas eu acho que - eu vou dizer uma frase absolutamente hipotética, eu posso estar enganado - inconscientemente Lula preferiu uma mulher na Presidência por uma questão machista de controle. Eu não sei se ele teria posto um homem mais culto, mais inteligente e tão forte quanto ele para sucedê-lo. É uma coisa parecida com o que o Fernando Collor de Melo fez botando aquela senhora [Zélia Cardoso] para dirigir a economia brasileira. É um pouco de machismo, "mulher a gente controla". Mas as pessoas que estão em torno da Dilma me preocupam mais do que ela própria - com exceção de Antônio Palocci [ex-ministro da Fazenda e coordenador da campanha de Dilma], que é um homem sensato.

Adriana Negreiros: Como assim?

Jabor: O que eu temo é que teses e posturas ideológicas e políticas de 40, 50 anos atrás voltem para a pauta brasileira de uma forma absolutamente arcaica. Essas pessoas que acompanham a Dilma se consideram superiores e acham que podem ditar os rumos da sociedade. Pode haver uma união muito estranha do clientelismo típico do PMDB com o sovietismo. Imagina um Stalin [líder soviético, morto em 1953] misturado com José Sarney [presidente do senado]? Esse é o perigo que nós corremos.

Adriana Negreiros: Quem seria o Stalin do governo?

Jabor: O pensamento da maioria das pessoas que estão em volta da Dilma tem ecos stalinistas. Eu conheci vários deles. Conheço o Marco Aurélio Garcia [coordenador do programa de governo da Dilma], o Samuel Pereira Guimarães [ministro de Assuntos Estratégicos]. Não é que eles sejam ainda stalinistas, mas fica uma espécie de resquício de um pensamento socialista que acabou. O perigo é essa oligarquia arcaica, reacionária e de direta representada por pessoas como Sarney e Renan Calheiros [senador] ser misturada com uma oligarquia sindicalista. A mistura dessas duas coisas é explosiva. A gente pode ter aqui não o chavismo chavista porque o Brasil é muito complexo e não comporta um canalha como o Hugo Chávez [presidente da Venezuela]. Mas pode pintar uma espécie de chavismo light.

Adriana Negreiros: Por que corremos mais esse risco com a Dilma do que com outro candidato?

Jabor: Poque a Dilma é formada dentro do marxismo-leninismo, como eu fui também. Eu conheço a cabeça da Dilma e das pessoas em volta como se fosse a palma da minha mão. Eu sei como eles pensam.

Adriana Negreiros: Como eles pensam?

Jabor: Basicamente o seguinte... "nós somos superiores à sociedade. Nós temos uma linha justa, Nós sabemos o que é bom para o mundo. Nós queremos mudar a história e o capitalismo para outra coisa. Não dá mais para fazer socialismo, mas dá para fazer umas malandragens. Nós temos de ter controle sobre a sociedade, porque a sociedade é como uma criança que precisa de direção, precisa de pai e mãe". Esse é o pensamento que a Dilma tem, por mais que ela disfarce, dê sorrisos, por mais que ela mude o penteado e diga que respeita a democracia.

Adriana Negreiros: Ela não respeita a democracia?

Jabor: Respeita, até, porque a democracia se impôs no mundo. Mas é uma aceiação em parte. Nas reuniões internas, eles chamam a democracia de "democracia burguesa". Eu me lembro uma vez do Francisco Oliveira, que é um sociólogo da USP, dizendo que a democracia é papo para enganar as massas. Eles acham que a democracia é só da burguesia e o povo não tem acesso à liberdade.

Adriana Negreiros: A oposição se comportou bem durante o governo Lula?

Jabor: Não, essa é a oposição mais vergonhosa que eu já vi na história deste país. A oposição que o PT fez ao governo Fernando Henrique foi uma das oposições mais inclementes, em que o José Dirceu [ex-deputado federal] dizia... "Temos de nos opor a absolutamente tudo o que eles dizerem, mesmo coisas boas". Então foi uma sabotagem permanente. Já a oposição do PSDB foi vergonhosa.

Adriana Negreiros: A que você atribui isso?

Jabor: Primeiro porque ficaram com medo do prestígio do Lula. Segundo porque não sabem defender nem o trabalho que fizeram. Não defenderam os oito anos do governo Fernando Henrique, que foram fundamentais na vida brasileira. Não defenderam nem o Plano Real, nem as privatizações, nem a Lei de Responsabilidade Fiscal, nem a redução da dívida externa, nem a consolidação da dívida interna, nada. A população não sabe qual é a opção à Dilma. É uma população muito ignorante, que serve a desígnios populistas. É bom para os populistas que as pessoas sejam analfabetas.

Adriana Negreiros: Este cenário da oposição vai se repetir no provável governo da Dilma?

Jabor: Não tem mais oposição, pô! Eles têm maioria no Congresso. Se fizerem uma lei obrigando todo mundo a andar nu, vai passar.

Adriana Negreiros: Como você explica a popularidade do presidente Lula?

Jabor: Porque ele é um gênio. Um Maquieavel [filósofo italiano autor do clássico O Príncipe, morto em 1527]. Ele tem um carisma extraordinário. Nesse aspecto ele é imbatível. E tem qualidades também. Não tô dizendo que o Lula é um canalha.

Adriana Negreiros: Que qualidades?

Jabor: Uma das qualidades dele é ter passado por todas as bocas sujas da vida, desde a miséria até a liderança sindical. Isso deu a ele uma prática política popular de esquerda, porém pragmática. Não é aquela coisa ideológica maluca dos Luiz Gushiken [ex-ministro], dos Ricardo Berzoini [presidente do PT], dos Dirceu, de que o mundo vai ser socialista. O Lula é muito prático. Nesse sentido, ele foi modernizador da política de esquerda no Brasil. Ele é genial, o Mick Jagger da política. Eu me lembro que quando teve aquele perigo do segundo turno contra o Geraldo Alckmin [em 2006], foi sensacional. Ele mandou armar um palanque igual aos do Rolling Stones, aqueles de corredor, enormes. Ele ficava falando e andando exatamente igual ao Mick. O Lula é um genial comunicador de televisão. Eu acho até que eu sou um bom comunicador, mas o Lula me dá de 10 a zero [risos]

Adriana Negreiros: Você já esteve com o presidente Lula?

Jabor: Sim, uma única vez na minha vida, antes de ele ser presidente da República. Eu ainda não estava na televisão, só nos jornais. Ele estava com a mulher dele, passou e falou comigo... "Oi, Jabor. Como é que vai?" E passou a mão no meu braço. É de uma simpatia, o filha da mãe, é de uma sedução que o José Serra não tem. A Dilma não tem nenhuma. Eu não consigo entender como é que o povão vota na Dilma porque a figura é realmente espantosa. Mas o povo vai votar nela porque o Lula mandou!


Entrevista de Arnaldo Jabor à Adriana Negreiros (editora) extraída da Revista Playboy edição Outubro de 2010.

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