16 de fevereiro de 2013

O CONVITE DO ÍNTIMO

Por: Diego Cosmo
A quem diga que somos tudo aquilo que conseguimos fazer, digo que somos tudo aquilo que sentimos em nosso íntimo, tudo aquilo que nos emociona de alguma forma. Porém o que chegamos a fazer mostra o quanto há de intenso no que sentimos. Nessa problemática vemos um dos nossos maiores dramas que nos acompanha, muitas vezes, durante toda a vida no qual consiste no que deveria, pelo menos, ser uma esforço constante de aproximar cada vez mais o discurso da prática.

Custei a perceber uma sutil diferença entre inteligência e sabedoria, há pessoas geniais em certas áreas que vivem longe da vida, outras já aos olhos de doutores são incapacitados mas vivem melhor. Afirmar a vida em sua natureza é percepção e coragem, está mais para a poesia. Mora naquela consciência íntima a semente do futuro mais promissor, nossa própria verdade, um convite a simplesmente sermos.


Diante da dinâmica de nossa existência todo fato é ficção, todo homem carrega o mito em si. Toda nossa racionalidade invariavelmente é emotiva. Todo amor é fenômeno natural.

AMAR É CORAGEM

Uma mulher não perdoa uma única coisa no homem: que ele não ame com coragem. Pode ter os maiores defeitos, atrasar-se para os compromissos, jogar futebol no sábado com os amigos, soltar gargalhada de hiena, pentear-se com franjinha, ter pêlos nas costas e no pescoço, usar palito de dente, trocar os talheres de um momento para outro. Qualquer coisa é admitida, menos que não ame com coragem. Amar com coragem não é viver com coragem. É bem mais do que estar aí. Amar com coragem não é questão de estilo, de gosto, de opinião. Não se adquire com a família, surge de uma decisão solitária. Amar com coragem é caráter. Vem de uma obstinação que supera a lealdade. Vem de uma incompetência de ser diferente. Amar para valer, para dar torcicolo. Não encontrar uma desculpa ou um pretexto para se adaptar, para fugir, para não nadar até o começo do corpo. Não usar atenuantes como “estou confuso”. Não se diminuir com a insegurança, mas se aumentar com a insegurança. Não se retrair perante os pais. Não desmarcar um amor pela amizade. Não esquecer de comentar pelo receio de ser incompreendido. Não esquecer de repetir pela ânsia da claridade. Amar como se não houvesse tempo de amar. Amar esquisito, de lado, ainda amar. Amar atrasado, com a respiração antecipando o beijo. Amar com fúria, com o recalque de não ter sido assim antes. Amar decidido, obcecado, como quem troca de identidade e parte a um longo exílio. Amar como quem volta de um longo exílio.


Fabrício Carpinejar