21 de dezembro de 2012

O HOMEM DEVE REENCONTRAR O PARAÍSO

Será que Deus fica feliz quando vê os seres humanos sofrendo? A tradição cristã tem medo do prazer. Prazer é artifício do Diabo. Tanto assim que, para agradar a Deus, os fiéis se apressam a oferecer-lhe sofrimentos e renúncias, certos de que é o sofrimento dos homens que lhe causa prazer. Digo isso pelo fato de que os fiéis, ao fazerem promessas a Deus para obter seus favores, o que lhe oferecem são sempre objetos dolorosos. Nunca ouvi de um devoto que tivesse oferecido a Deus uma sonata de Mozart, um poema de Fernando Pessoa ou fazer amor. A igreja ensinou que o prazer é o ninho do pecado. Como se o mundo fosse um imenso jardim cheio de árvores com frutos doces e coloridos, com placas em todas elas dizendo: "Proibido". Horrorizam-se, portanto, com o prazer que aparece ligado às funções sexuais, o que faz com que os órgãos sexuais sejam usados como brinquedos prazerosos, sem nenhuma intenção reprodutora. Tratam de denunciá-lo, assim, como perigoso lugar de tentação e perdição, e chegam a afirmar que o pecado original foi uma relação sexual. Não lhes passa pela cabeça que, se Deus não desejava que houvesse sexo, não nos teria feito macho e fêmea, e nem teria colocado tanto prazer nas funções sexuais.

O poeta inglês William Blake disse isso num curtíssimo poema: "Fui andar pelo jardim do amor, e o que vi não era o esperado: encontrei, ao invés das flores, sepulturas e lápides frias espalhadas. Sacerdotes em vestes negras vigiavam e, com espinhos, os risos e as alegrias amarravam". Mas como me horroriza imaginar que Deus possa ser um ser narcísico que se considera o único objeto digno de fruição em todo o universo, tratei de encher a Feira da Fruição com uma infinidade de coisas boas. Pois acho que foi pensando no prazer e na alegria dos homens que Deus povoou o Paraíso com uma infinidade de coisas belas, perfumadas, musicais, delicadas e gostosas. Deus não se dá aos nossos sentidos. O que ele dá aos nossos sentidos é o Paraíso, o jardim.

A espiritualidade que nos ensinaram foi construída sobre a negação do prazer. O caminho da santidade é o caminho do sofrimento. Não conheço nenhum santo que tenha um rosto sorridente. Alegrando-se na contemplação das telas da Bíblia de Marc Chagall, o filósofo e poeta francês Gaston Bachelard proclamou a sua fé: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso".


Rubem Alves (livro: "Pimentas")

2 comentários:

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Muito show! Viva a beleza da vida e o prazer de conviver com ela!

Elton Leite