5 de julho de 2012

UMA DAS FACETAS DO PODER

O poder é, consequentemente, a capacidade de ter possibilidades. Assim, ter poder é ser capaz de atuar mais livremente, enquanto ser relativamente menos poderoso, ou impotente, corresponde a ter a liberdade de escolha limitada por decisões alheias - de quem tenha capacidade de determinar nossas ações. A desvalorização da liberdade do outro na busca de ampliação da própria liberdade pode ser resultado de dois métodos.

O 1º é a coersão, que compreende a manipulaçao das ações de tal maneira que os recursos de outras pessoas se tornem inadequados ou ineficazes no contexto em questão, por maiores que possam parecer em outros casos. Um jogo inteiramente novo é criado pela manipulação de uma situação de modo que quem a manipula possa então assumir a dianteira: por exemplo, se a vítima de um ladrão é um banqueiro rico ou um político poderoso, seus respectivos recursos, que lhes asseguram alto grau de liberdade em outras circunstâncias, perdem a "capacidade de possibilidades", quando um ou outro é confrontado, em uma rua escura e deserta, com uma faca ou com o poder físico superior de um assaltante.

O 2º método consiste na estratégia de cooptar os desejos do outro em favor dos objetivos de alguém. O que caracteriza essa forma é a manipulação da situação de maneira tal que só se podem alcançar os valores visados seguindo as regras estabelecidas pelo detentor do poder. Assim, o zelo e a eficiência com que inimigos são mortos são recompensados, destacando-se a posição social do bravo soldado com medalhas e citações honoríficas. Os operários podem assegurar melhores padrões de vida (aumentos de salário) desempenhando seu trabalho com mais dedicação e intensidade e obedecendo, sem questionar, aos regulamentos administrativos. Os valores dos subordinados transformam-se, então, nos recursos de seus superiores hierárquicos. Não são avaliados como fins em si mesmos, mas como meios a mobilizar a serviço dos objetivos dos detentores do poder. Ter poder significa, entre outras coisas, ser capaz de decidir o que não é importante e o que não deve ser objeto de interesse.

"Dar emprego" significa sujeitar a pessoa inteira, corpo e alma, à tarefa determinada pelo empregador, para quem o trabalhador se torna simples meio para a realização de seus objetivos. Dessa maneira, apesar dos protestos em contrário, os trabalhadores eram solicitados a dar em troca dos salários toda a sua personalidade e a sua liberdade.

Assim, o poder dos proprietários das fábricas sobre os trabalhadores estabeleceu-se segundo essas assimetrias de poder. Decorre daí a observação de Marx quanto ao fato de que, em contraste com o capitalismo, em condições de escravidão, os proprietários tinham algum interesse no bem-estar de seus escravos. Esse relacionamento foi substituído por uma forma abstrata de troca na qual os empregadores não tinham interesse algum no bem-estar físico e mental dos trabalhadores. Os empregadores definiram o significado do emprego e se reservaram o direito de decidir o que era e o que não era tema de seu interesse  - direito que negavam a seus empregados. No mesmo tom, a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e maior participação no processo produtivo teve de se transformar em luta contra o direito de o empregador definir os limites e os conteúdos da ordem do local de trabalho.


Zygmunt Bauman

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