24 de julho de 2012

CATIVO PSICOLÓGICO

A burocracia empregada a serviço de fins desumanos tem-se demonstrado habilmente capaz de silenciar motivações morais não só em seus empregados, mas muito além dos limites da própria organização burogrática. Isso é conseguido mediante o apelo ao motivo da autopreservação, como a gerência burocrática do genocídio assegurou a indiferença moral da maioria dos espectadores e mesmo a cooperação de muitas de suas vítimas.

Os possíveis vitimados tinham se convertidos em "cativos psicológicos" e, assim, foram enfeitiçados pelas perspectivas ilusórias de tratamento benéfico como recompensa à submissão. Eles esperavam, contra a própria esperança, que algo ainda pudesse ser salvo, que alguns perigos pudessem ser evitados, supondo que bastaria apenas que os opressores nao fossem demasiadamente ofendidos, e sua cooperação seria recompensada. Em muitos casos essa complacência antecipadora surgiu quando as vítimas deixaram seus caminhos a fim de satisfazer os opressores, supondo previamente suas intenções e executando-a com temperada paixão. Não foi senão no último momento que eles se depararam com a inevitabilidade do seu destino. Desse modo, os controladores do genocídio alcançaram seus fins com o mínimo de desordem, e poucos guardas eram necessários para supervisionar a longa e obediente marcha até as câmaras de gás.


Zygmunt Bauman

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